53. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Varley. |
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24/12/2006 19:19 De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Varley.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele. Ouço vozes soterradas que não dizem nada Que calam terra e escombros Súbito morrem na África das cores escuras O tempo em séculos sobre os ombros Vão em vão os pobres carregados da ilusão da fome Vozes soterradas que se consomem Vida que mingua nas Savanas do Continente Entre gemidos e o gargalhar de fuzis E vão-se os seres em contingente Em insanas guerras civis Vozes soterradas perambulam em cáfilas caladas Como animais traçando destino infeliz Saara, seara dos ventos Do pó da pedra que voa Saara, terás para sempre O uivo dos ventos que nas almas ecoa O animal que ruge no estômago da criança que morre E um mundo vizinho sorrindo não te socorre O sangue que te escorre e a terra sedenta bebe África, do Apartheid da pele Ao vírus que insone Teu ventre gerou Recolhe tua mão pedinte estendida Acena o adeus a vida Porque o mundo vizinho Sorrindo te abandonou Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=1555 © Luso-Poemas Este poema ergue-se sobre uma sucessão de imagens de sofrimento que procuram condensar, num só fluxo verbal, fome, guerra, abandono e a longa duração histórica da violência no continente africano. A repetição de “vozes soterradas” funciona como um refrão de opressão, mas também como um mecanismo de eco: cada vez que regressa, não repete apenas a ideia, repete a sensação de que nada muda, de que o soterramento é físico, histórico e simbólico. O poema cresce por acumulação, não por metamorfose, e isso dá-lhe força e também peso — a leitura avança como quem atravessa um terreno devastado, onde cada imagem é mais um corpo caído, mais um sinal de que a esperança é residual. Há momentos de grande eficácia imagética, como “cáfilas caladas”, onde a aliteração reforça a ideia de deslocação forçada, ou “o uivo dos ventos que nas almas ecoa”, que cria uma ponte entre geografia e interioridade. Noutras passagens, porém, o poema recorre a abstrações que empobrecem a densidade construída — “ilusão da fome”, “destino infeliz”, “insanas guerras civis” — expressões que dizem mais do que mostram e que contrastam com a força concreta de versos como “o animal que ruge no estômago da criança que morre”. Este último, aliás, é um dos pontos mais fortes do texto: a imagem é brutal, direta, sem ornamento, e a seguir a ela surge o verso que talvez seja o mais incisivo de todos — “E um mundo vizinho sorrindo não te socorre” — onde a indiferença é mais violenta do que qualquer fuzil. A secção dedicada ao Saara introduz uma pausa quase litúrgica, mas a metáfora “seara dos ventos” é ambígua: funciona pela ironia da esterilidade, mas perde precisão quando se prolonga em “do pó da pedra que voa”, imagem menos trabalhada. Já a referência ao apartheid e ao “vírus que insone teu ventre gerou” tenta ampliar o campo histórico, mas a segunda imagem é vaga, quase metafórica demais para o tom documental que o poema vinha mantendo. O final assume um fatalismo absoluto — “Recolhe tua mão pedinte estendida / Acena o adeus à vida” — que encerra o poema num gesto de desistência total. É coerente com o percurso emocional do texto, mas também o simplifica: a África aqui é sobretudo vítima, corpo ferido, continente abandonado, e a ausência de qualquer fissura de resistência ou complexidade pode tornar o desfecho excessivamente conclusivo. Ainda assim, a coerência interna mantém-se: o poema é um lamento indignado, uma elegia social que não procura nuances, mas impacto.
Criado em: Hoje 7:57:42
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