92. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - BernardoAlmeida.
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24/12/2006 19:19
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de BernardoAlmeida.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Na distinção entre um sorriso e uma lágrima
Pende para o absurdo desejo da catástrofe
Uma pavorosa mania não mais possível
De ser expressa por meio de gestos calculados
Os movimentos, seqüencialmente imperceptíveis,
Protegem o esquecimento que tomará conta da sua alma
Descarnada, desnuda, etérea, imaterial
Dilacerada e agredida como cada milímetro da sua ossada
Escondes este peso em um jazigo distante
Onde apenas olhares mortos te alcançam
Colabora com a terra que fornece a colheita
Da qual tanto te beneficiaste em vida
Colha agora a raiz, e deixa o fruto para os que restam
Contentas-te com a jaula em que te encerras
Sem praguejar contra o fardo que te aflige
O teu rastro, em breve, será apagado
Para que as novas gerações sejam mais belas e ternas
Menos hipócrita, sujismunda, atávica e apática
Como as guardas, os punhos, os corações e as lanças
Dessa tacanha representação da realidade humana

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=2475 © Luso-Poemas

Este poema é talvez o mais sombrio e mais contundente dos últimos analisados — não pela violência explícita, mas pela forma como a linguagem se torna ela própria um mecanismo de erosão, um ácido que corrói a figura central até restar apenas a ossatura moral do texto. A força do poema reside precisamente nessa combinação de densidade metafórica, morfologia rigorosa e um tom profético‑acusatório que nunca resvala para o panfleto. Há aqui uma maturidade estilística evidente.

A abertura — “Na distinção entre um sorriso e uma lágrima / Pende para o absurdo desejo da catástrofe” — instala de imediato a ambiguidade moral: o sujeito já não distingue alegria de dor, e essa suspensão emocional é o terreno fértil para o “absurdo desejo da catástrofe”. A construção morfológica é impecável, e a imagem é forte porque não explica: apenas sugere que a catástrofe se tornou um vício emocional. O verso seguinte — “Uma pavorosa mania não mais possível / De ser expressa por meio de gestos calculados” — é particularmente eficaz: a “mania” é pavorosa porque perdeu a máscara, já não cabe nos gestos, já não se disfarça. A sintaxe alongada reforça essa sensação de descontrolo.

A sequência “Os movimentos, seqüencialmente imperceptíveis, / Protegem o esquecimento que tomará conta da sua alma” é um dos pontos altos. A escolha de “seqüencialmente” — grafia brasileira antiga, mas ainda reconhecível — cria uma ligeira estranheza que combina com a ideia de movimentos imperceptíveis. A metáfora do esquecimento como algo que “toma conta” da alma é clássica, mas aqui ganha corpo pela enumeração que se segue: “Descarnada, desnuda, etérea, imaterial / Dilacerada e agredida como cada milímetro da sua ossada”. Esta acumulação é deliberada: quatro adjetivos que vão do físico ao metafísico, seguidos de um verso que devolve tudo ao corpo, à ossada. É uma oscilação entre o espiritual e o carnal que dá ao poema uma vibração quase dantesca. A única crítica subtil: “etérea” e “imaterial” são semanticamente próximas; a repetição funciona como martelo, mas talvez uma delas pudesse ser substituída por uma imagem mais concreta para reforçar a tensão.

O bloco central — “Escondes este peso em um jazigo distante / Onde apenas olhares mortos te alcançam” — é de uma precisão quase cinematográfica. A imagem do jazigo é literal e metafórica ao mesmo tempo: é túmulo, mas também é o lugar onde se enterram culpas. A morfologia está perfeita, e a economia verbal dá força ao verso. A seguir, “Colabora com a terra que fornece a colheita / Da qual tanto te beneficiaste em vida” introduz uma dimensão ética: a terra como entidade que dá e cobra. A metáfora agrícola é simples, mas funciona porque contrasta com o tom fúnebre anterior.

“Colha agora a raiz, e deixa o fruto para os que restam” é um dos versos mais belos do poema: a raiz é o que prende, o que dói, o que exige esforço; o fruto é o que alimenta. Há aqui uma inversão moral: o sujeito deve colher o que é difícil e deixar o que é doce. A crítica subtil: “Contentas-te com a jaula em que te encerras / Sem praguejar contra o fardo que te aflige” é eficaz, mas “jaula” é uma imagem já muito usada na poesia contemporânea; ainda assim, o verso é salvo pela cadência e pela contenção emocional.

O final é poderoso: “O teu rastro, em breve, será apagado / Para que as novas gerações sejam mais belas e ternas / Menos hipócrita, sujismunda, atávica e apática”. Aqui, a morfologia merece atenção: “hipócrita” deveria concordar com “gerações” (hipócritas), mas a quebra pode ser lida como recurso estilístico — uma interrupção brusca que reforça o tom acusatório. “Sujismunda” é uma escolha ousada, quase coloquial, que cria um contraste violento com o tom elevado do resto do poema; funciona porque surpreende, porque rasga a solenidade. O fecho — “Como as guardas, os punhos, os corações e as lanças / Dessa tacanha representação da realidade humana” — devolve o poema ao coletivo, à crítica social ampla. A enumeração é forte, e “tacanha” é uma escolha precisa: curta, seca, moralmente incisiva.

No conjunto, o poema é denso, bem ritmado, morfologicamente sólido e metaforicamente consistente, com apenas duas pequenas zonas onde a abstração ameaça diluir a força imagética. A voz é firme, a acusação é clara, e a construção poética sustenta o peso ético do texto. É um poema que não pede desculpa — e não deve.

Criado em: Hoje 9:34:14
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A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma
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