96. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Soaroir. |
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24/12/2006 19:19 De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Soaroir.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele. Eu, Cotovia Outro dia ouvi dizer que Deus perdoa mais àqueles que amam demais, e que são palavras de Jesus. Não há como duvidar, já que foi Ele quem também disse amai-vos uns aos outros. No entanto, para esta receita Ele não disse o que fazer com o que vai sendo desconsiderado, já que em toda essa massa os ingredientes levedam juntos, mas nem sempre crescem do mesmo modo. Eu pergunto, mas é silêncio até do vento.Do relógio que já não faz mais tic-tac. Só os periquitos ao longe dão sinal de existência, porém não respondem: - Não tem mais caniço ou samburá; pescas de juquiá, sardinhas soltas no mar; ou girinos no riacho; nem mais pés de cambucá. Não há mais pisar descalço na areia nem outros com quem, sem medo, arrulhar. Ao longe canta ininterruptamente um canário de sua gaiola. Cantaria ele de tristeza pela prisão ou em busca de companhia? Ou é só por coragem de sentir dor? Por não mais poder voar? Não entendo de coisas de canários, somos passarinhos diferentes, mas quisera poder interpretar! Eu, cotovia fujona, desviada e debandada, sou agora livre retirante. Poderia voar se quisesse, mas não sei /por/ para aonde ir. Acostumei me a não depender do sol para acordar ou da noite para me recolher, nem da chuva sei mais como me proteger. Com as garras já carcomidas não posso mais nidificar e minha bela plumagem, outrora brilhante, necessária para me acasalar, há muito se desbotou. Nem mesmo a minha melodia eu sei mais como entoar! Sou mais uma cotovia que desaprendeu se sustentar. Ha /vejo ainda alguns sabiás que, não estando, sendo mais do cerrado, ciscam procurando o que podem achar, beliscando nos capins que transportaram pra cá. Mas, outro dia soube, ouvi que um partiu molestado: aspirou mais do que podia do que achou enterrado, e lhe consumindo o sistema, ele agonizou envenenado. Mas eu? Cotovia? Ah! Se eu desse vazão ao instinto... Arribaria ao amanhecer já que não estou mais engaiolada. Mas, desaprendi de amar, e não posso mais avoar... Deus, Vós podeis, poderias? A este(a) também perdoar? Coisas de cotovias... Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=2941 © Luso-Poemas Este texto não é apenas um poema: é uma prosa poética madura, com densidade simbólica, consciência metafórica e uma voz plenamente assumida. Aqui há literatura a sério. A força maior deste texto está na construção da cotovia como máscara, como alter ego, como figura alegórica que permite ao eu falar de si sem cair na confissão direta. A cotovia é corpo, é memória, é identidade ferida, mas também é metáfora de deslocamento, de perda de habitat, de desajuste existencial. A escolha do pássaro não é arbitrária: a cotovia é tradicionalmente símbolo de canto, de alvorada, de anúncio — e aqui surge precisamente como aquilo que já não canta, já não anuncia, já não sabe acordar com o sol. Esta inversão simbólica é poderosa. A abertura, com a referência ao perdão divino e ao amor excessivo, cria um contraponto entre o sagrado e o quotidiano, entre a doutrina e a experiência vivida. A pergunta — “o que fazer com o que vai sendo desconsiderado?” — é o verdadeiro motor do texto, e a imagem da massa que leveda de forma desigual é subtil e eficaz. A seguir, o silêncio do vento e do relógio que já não faz tic‑tac introduzem uma suspensão temporal que prepara o leitor para a entrada no território das aves. A enumeração dos elementos perdidos — caniço, samburá, juquiá, cambucá — funciona como inventário de um mundo que desapareceu, e a oralidade desses termos dá textura cultural ao texto. O canário na gaiola é uma das imagens mais fortes: o canto ambíguo, que pode ser tristeza, busca de companhia ou coragem de sentir dor, abre um campo interpretativo vasto. A narradora-cotovia reconhece a diferença entre espécies, mas projeta-se no outro pássaro, criando um espelho imperfeito. É um momento de grande delicadeza simbólica. A secção em que a cotovia descreve a própria decadência — garras carcomidas, plumagem desbotada, incapacidade de nidificar — é de uma honestidade brutal, mas nunca cai no melodrama porque está sustentada pela metáfora. A frase “sou agora livre retirante” é belíssima: a liberdade aqui é exílio, não conquista. A cotovia pode voar, mas não sabe para onde — e essa é talvez a imagem mais humana do texto. O episódio do sabiá envenenado introduz uma nota de violência ambiental e existencial que amplia o horizonte da prosa. Não é apenas a cotovia que sofre: é o ecossistema inteiro que se desagrega. A morte do sabiá funciona como aviso, como presságio, como comentário social. O final é forte, porque não oferece solução. A cotovia pergunta a Deus se também ela pode ser perdoada — não por ter amado demais, mas por ter desaprendido a amar. A inversão é devastadora. O texto termina num ponto de suspensão moral e espiritual, sem catarse, sem consolo, apenas com a consciência da própria falha. É literatura de verdade. Em termos formais, há pequenos deslizes de pontuação e alguns cortes estranhos (“Ha /vejo”), mas nada que comprometa a força do texto. A voz é consistente, a metáfora é sustentada do início ao fim, e a prosa tem ritmo, respiração e densidade. Aqui há maturidade, há visão, há domínio da alegoria. É um texto que se aguenta sozinho e que merece ser trabalhado como núcleo de algo maior — talvez um ciclo de prosas de aves, talvez uma narrativa fragmentária, talvez um livro inteiro.
Criado em: Hoje 10:36:02
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