108. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Ruben. |
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24/12/2006 19:19 De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Ruben.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele. Passo à frente enquanto dou um passo atrás, Neste mundo já nada me satisfaz, Existia uma palavra e até essa perdeu significado Amor e amizade, isso deixou de ser sagrado Agora o que conta são atitudes Não te quero ver diferente, espero que nunca mudes Palavras nobres e honestas como o respeito Sentimento recíproco de peito a peito Palavras a eito E este mundo nunca será perfeito Enquanto pensarmos que ele um dia será. O meu lamento abraça a minha tristeza Nas minhas veias corre vida e eu esqueço A razão pela qual fui colocado num berço Trepei esta árvore até aqui… e que se partam os galhos todos. Já me destruíram o jardim da mocidade, A um jovem da minha idade, Mas quanto mais frio é o Inverno, Mais brotam as flores na primavera E por vezes chega a ser uma longa espera, O sarar de uma cratera E um sorriso que desespera Longe de tudo e de todos é automático Como que um martelo pneumático Sempre a mesma tecla não é melodia Tocamos um dó, um ré, um sol que nasce e já é outro dia Pensar naquilo que sentia Sentir aquilo que queria, Mas desta vez de verdade E se for pedir muito… eu peço só metade. Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=3618 © Luso-Poemas O poema articula um discurso de desencanto que se equilibra entre a confissão íntima e a reflexão quase filosófica sobre o sentido da vida e das relações. A abertura — “Passo à frente enquanto dou um passo atrás, / Neste mundo já nada me satisfaz” — instala de imediato uma dialética de avanço e recuo, sugerindo estagnação existencial: o sujeito move‑se, mas não progride. A contradição interna do gesto é eficaz e dá o tom de todo o texto: um eu dividido entre desejo de mudança e sensação de impotência. A secção inicial trabalha a crise de valores: “Existia uma palavra e até essa perdeu significado / Amor e amizade, isso deixou de ser sagrado”. A formulação é direta, quase coloquial, mas o efeito é forte — a perda de sacralidade do amor e da amizade traduz uma experiência de desilusão profunda. A passagem para “Agora o que conta são atitudes” marca um ponto de viragem lúcido: o eu poético abandona a confiança nas palavras e desloca o foco para a ação, o que dialoga ironicamente com o próprio ato de escrever o poema. Há um jogo interessante entre ideal e real: “Não te quero ver diferente, espero que nunca mudes” convive com a consciência de que o mundo é imperfeito e de que a crença na sua perfeição futura é ilusória — “E este mundo nunca será perfeito / Enquanto pensarmos que ele um dia será.” Este verso é um dos mais fortes do poema: desmonta a esperança passiva e denuncia a ilusão como mecanismo de adiamento. A imagem do “jardim da mocidade” destruído é feliz: condensa, numa metáfora simples, a perda de inocência e de possibilidades. O verso “Trepei esta árvore até aqui… e que se partam os galhos todos.” introduz uma nota de desafio quase autodestrutivo: o eu reconhece o risco, mas parece disposto a aceitá‑lo, como se a queda fosse preferível à imobilidade. Há aqui uma tensão entre resistência e cansaço que atravessa o poema. A estrofe que convoca as estações — “Mas quanto mais frio é o Inverno, / Mais brotam as flores na primavera — introduz um contraponto de esperança, mas não ingênuo. A primavera não apaga o inverno; nasce dele. O poema reconhece que o “sarar de uma cratera” é lento, que “por vezes chega a ser uma longa espera”, e essa consciência do tempo da dor confere maturidade ao texto. A secção final aproxima‑se de um fluxo de consciência ritmado: “Longe de tudo e de todos é automático / Como que um martelo pneumático / Sempre a mesma tecla não é melodia”. A comparação com o martelo pneumático é crua, urbana, ruidosa — uma boa imagem para a repetição mental exaustiva. O verso “Sempre a mesma tecla não é melodia” sintetiza, com precisão, a ideia de que a repetição do sofrimento não produz sentido, apenas desgaste. O fecho — “Pensar naquilo que sentia / Sentir aquilo que queria, / Mas desta vez de verdade / E se for pedir muito… eu peço só metade.” — é ambíguo e eficaz. Há um desejo de autenticidade (“desta vez de verdade”), mas também uma redução das expectativas (“peço só metade”), que pode ser lida como humildade, resignação ou defesa. O poema termina num meio‑tom, sem catarse plena, o que é coerente com o desencanto que o atravessa. Formalmente, o texto alterna entre rimas ocasionais e versos livres, com um ritmo próximo da oralidade. Algumas rimas são mais fortes (“Inverno/eterno” teria sido um caminho possível, por exemplo), mas as que existem — “automático/martelo pneumático”, “espera/cratera/desespera” — funcionam bem dentro da cadência escolhida. A voz é coesa, o campo semântico é consistente (mundo, jardim, inverno/primavera, música, berço, árvore), e o poema sustenta um tom de lamento lúcido, sem cair em dramatismo vazio.
Criado em: Hoje 9:46:50
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