168. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Marília L. Paixão.
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24/12/2006 19:19
De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Marília L. Paixão.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Uma Marília a mais
Nunca uma a menos
Entre a Marília um que não pude ser
Entre uma Marília dois que acabei sendo
Entre todas as que eu gostaria de ler
começaria por mim mesma
apenas por me conhecer
inteira
metade a de todo dia
sempre verdadeira
metade a dos versos
que me criam
novamente
por inteira

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O poema nasce de uma oscilação identitária que se anuncia logo no título, onde a voz hesita entre a posse e a multiplicidade — “Uma Marília a mais / Nunca uma a menos” — e essa abertura instala de imediato a ideia de que a identidade poética é plural, fragmentada, talvez até herdada de uma linhagem literária que o texto convoca sem nomear. A repetição de “Marília” funciona como espelho e como desdobramento, e a sequência “um que não pude ser / dois que acabei sendo” revela uma consciência aguda da distância entre o eu desejado e o eu vivido, como se a própria subjetividade fosse um exercício de tentativa e erro. Há aqui uma ironia subtil, quase melancólica, que não se declara mas vibra no subtexto.

Quando o poema afirma “Entre todas as que eu gostaria de ler / começaria por mim mesma”, surge uma viragem interessante: a voz assume-se como objeto de leitura, como se a identidade fosse um texto em permanente revisão. A palavra “inteira” aparece isolada, e essa solidão gráfica reforça a ideia de completude impossível, logo desfeita pela linha seguinte — “metade a de todo dia / sempre verdadeira” — que contrapõe a rotina à autenticidade, como se o quotidiano fosse a parte mais estável, mas também a menos literária, da existência. A outra metade, “a dos versos / que me criam / novamente / por inteira”, devolve ao poema a sua força: a identidade não é dada, é construída pela escrita, e essa construção é cíclica, sempre recomeçada, sempre incompleta.

A tensão entre as duas metades — a vivida e a escrita — é o eixo do poema. A primeira é estável, previsível, “de todo dia”; a segunda é criadora, mutável, capaz de reinventar o eu. A palavra “inteira” reaparece no fim, mas agora como resultado de um processo, não como ponto de partida. A repetição não é redundante: é estrutural, porque mostra que a completude só existe como ficção poética, como gesto de linguagem. O poema, na sua brevidade, articula bem essa dialética entre ser e tornar-se, entre identidade e autorrepresentação.

O ritmo é solto, quase conversacional, mas sustentado por quebras que funcionam como respirações internas. A ausência de pontuação reforça a fluidez, permitindo que as imagens se encadeiem sem rigidez. A simplicidade lexical não empobrece o texto; pelo contrário, dá-lhe uma clareza que torna mais evidente a complexidade emocional que o atravessa. A única fragilidade possível está na dependência de uma referência implícita — a figura de Marília — que pode ser lida como eco camoniano ou como nome próprio contemporâneo; essa ambiguidade, porém, não prejudica o poema, antes lhe acrescenta camadas.

A força maior está na consciência de que a identidade é sempre dupla: a que se vive e a que se escreve. E o poema sabe que é na segunda que a primeira se torna suportável.

Criado em: 9/6 7:08
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A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma
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