174. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - MiguelPatrícioGomes.
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24/12/2006 19:19
De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de MiguelPatrícioGomes.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

De rezar
Por todas as religiões
Era um tempo de credo
Das mais profundas reflexões

Era um tempo

De sairmos de lá
De devolver ao seu povo
A montanha e o deserto
Era um tempo
De colocar a hipocrisia da política a descoberto

Era um tempo

De fazer de palhaço
Para a multidão
Era um tempo
De colocarmos a máscara
E de fintar a humilhação

Era um tempo

De sararmos
As nossas feridas
Era um tempo
De dar valor
Às coisas mais queridas

Era um tempo

De voltar a amar
Depois da última desilusão, da inquietude
Era um tempo de gerarmos vida
Depois de perdida a virtude

Era um tempo

De perdoar
Depois da afronta
Era um tempo
De lavarmos a honra

Era um tempo


Era um tempo

De nos transformarmos
em algo de notável
Era tempo
De darmos abrigo
A gente amável

Era um tempo

De sonharmos acordados
E de fazer disso a nossa lei
Era um tempo
Dos humildes tomarem o lugar do rei

Era um tempo

De por fim
Erguermos
O Reino dos Céus
Era um tempo
Dos teus sonhos serem os meus

Era um tempo

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=5995 © Luso-Poemas

Este poema trabalha uma cadência anafórica evidente — “Era um tempo” — que funciona como espinha dorsal, mas também como risco: a repetição pode instaurar ritmo ou pode esvaziar tensão. Aqui, a força do refrão está presente, mas a variação interna nem sempre acompanha a intensidade que o dispositivo exige.

A estrutura é claramente bipartida, como se vê na própria página que tens aberta, onde o texto se distribui em blocos sucessivos de enumeração ética, espiritual e social . A anáfora cria uma sensação de liturgia, quase salmódica, mas o conteúdo das estrofes oscila entre o simbólico e o literal, sem que o poema encontre um eixo metafórico dominante. O resultado é um catálogo de intenções morais — rezar, devolver a montanha, expor a hipocrisia, sarar feridas, perdoar, erguer o Reino dos Céus — que funciona mais como manifesto do que como construção poética.

Há momentos em que a imagem se aproxima de algo mais denso, como quando o texto convoca a máscara e a humilhação, ou quando introduz a ideia de “gerar vida depois de perdida a virtude”, que é uma formulação mais carregada e menos previsível. Mas logo regressa a uma enumeração de valores que, por serem universais e abstractos, perdem singularidade. A poesia precisa de corpo, matéria, gesto; aqui, muitas estrofes permanecem no plano conceptual.

A repetição do refrão, embora intencional, acaba por criar um efeito de estagnação. A cada bloco, espera-se uma torção, uma inflexão, um desvio que reconfigure o sentido do tempo invocado. No entanto, o poema mantém-se linear, como se cada estrofe fosse uma variação mínima da anterior. A ausência de progressão emocional ou imagética impede que o texto atinja um clímax ou uma revelação.

O final tenta elevar o tom — “erguermos o Reino dos Céus”, “dos teus sonhos serem os meus” — mas a elevação é mais declarativa do que conquistada. Falta-lhe densidade simbólica para que a ascensão pareça orgânica. A própria página confirma esta estrutura de enumeração contínua, sem mudança de registo ou de intensidade .

Em termos formais, a métrica é livre, mas não há um trabalho evidente de ritmo interno que compense a repetição. A linguagem é clara, mas demasiado directa; não há ambiguidade, não há sombra, não há tensão entre o dito e o não dito. O poema afirma, mas não interroga; proclama, mas não fere.

O texto ganharia força se o “tempo” deixasse de ser apenas um marcador e se tornasse uma entidade concreta — um tempo com textura, com cheiro, com peso. Se cada estrofe não apenas declarasse uma intenção, mas revelasse uma imagem inesperada, um gesto humano, uma contradição. A poesia nasce do particular, não do universal abstracto.

Criado em: Hoje 9:20:57
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A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma
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