192. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - tiagonene.
Moderador
Membro desde:
24/12/2006 19:19
De Montemor-o-Novo
Mensagens: 4262
O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de tiagonene.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Estou a escrever um postal
A enviar pelo correio nacional
Para uma morada ao calhas
Para uma mulher que o leia
Para uma pessoa que com sorte
Nunca conheceu o amor.

Vai para uma morada daquelas
De que há muitas, de nome vulgar
Vai assim subtil mas eficaz
Para essa mulher que como eu
É assaz deprimida mas confiante
De que o amor existe.

O amor, o verdadeiro amor
Nunca é coisa convencional..
O verdadeiro amor está num postal
Num postal com destino incerto
Porque incertos os alvos e flechas
E tudo o de verdadeiro radiante.

Estou a escrever um postal..
Um lindo postal, com flores, com tudo o belo
É para uma Ana, para uma Joana, para uma Susana
É para alguém que se reconheça nele..
(A minha missiva será breve, mas a missão não é leve
O postal pesa quilos, o meu coração vai atracado..
O meu verdadeiro amor vai nele.

Eu *rasurado* penso que *rasurado*
Enfim, tu entendes *rasurado*
tu *rasurado* encontras-te numa espécie de galáxia e eu..
*rasurado*
*rasurado*
É muito importante que..
*rasurado*
(informação confidencial)

E assim o meu postal fez uma viagem
Ambiciosíssima e feliz
Qualquer tentativa é feliz..
E era uma parte de mim que saía
Enquanto aqui chegavam ar fresco e pensamentos,
Sentimentos de que o meu amor
Havia deixado a sua base militarmente..
Com ordens expressas para voltar.

(Fase de sentimentos
Dias, noites, dias, noites.. passam..
*rasurado* - confidencial)

Vinte e três de janeiro de dois mil e sete
Um postal chegou, três meses depois..
O meu amor, o meu amor atracado num postal, volta agora..
Instantaneamente..
Num postal que é claramente de mulher
Perfumado nas pontas, delicada e acrobatamente escrito..

Eu, tal como tu, tenho vivido *rasurado* .
As tuas palavras *rasurado* dispostas naquele papel curioso de coragem..
*rasurado*
A honestidade que *rasurado*
*rasurado* .. é uma disponibilidade sentimental que..*rasurado*
E sim, percebi que os nossos perigos
Coincidiram e..
*rasurado*
(informação muito confidencial)

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=6755 © Luso-Poemas

“O Postal” constrói-se como um texto híbrido, situado entre o poema narrativo, a carta interrompida e o documento confidencial. A força do texto reside precisamente nessa oscilação entre o íntimo e o burocrático, entre o gesto sentimental e a forma quase administrativa do envio postal. O poema assume desde o início uma postura de deslocamento: escreve-se “um postal” para “uma morada ao calhas”, para “uma mulher que o leia”, para “uma pessoa que com sorte / nunca conheceu o amor”. Esta indefinição do destinatário é central: o texto não procura alguém concreto, mas um vazio onde possa depositar o que transporta. O postal é menos mensagem e mais projecção.

A primeira secção estabelece um tom de melancolia lúcida. A voz poética reconhece a própria depressão — “assaz deprimida mas confiante / de que o amor existe” — e projeta essa condição na destinatária imaginada. Há aqui um jogo de espelhos: o postal é enviado para alguém que é, na verdade, uma versão possível do próprio emissor. O amor, assim, não é encontro, mas tentativa de reconhecimento.

A segunda secção introduz uma reflexão metapoética sobre o amor como fenómeno não convencional. A frase “O verdadeiro amor está num postal / Num postal com destino incerto” é particularmente eficaz porque condensa a tese do poema: o amor é aquilo que se envia sem garantia de chegada, aquilo que se arrisca, aquilo que se lança ao acaso. A metáfora das “flechas incertas” reforça a ideia de que o amor é sempre tentativa, nunca certeza.

A terceira secção, onde surge o postal “com flores, com tudo o belo”, aproxima o texto de um lirismo mais tradicional, mas rapidamente o subverte com a enumeração de nomes femininos genéricos — Ana, Joana, Susana — que funcionam como máscaras, não como identidades. O postal é para “alguém que se reconheça nele”, o que desloca novamente o foco: o destinatário não é escolhido, é convocado. A missão é “leve” no gesto, mas “não leve” no conteúdo, porque o postal transporta “quilos”, transporta o coração. Esta hipérbole funciona bem: o peso emocional torna-se peso físico, e o postal transforma-se em objecto carregado de matéria íntima.

A secção rasurada é um dos elementos mais interessantes do texto. O uso de rasurado cria um efeito de confidencialidade, censura, segredo. O poema simula um documento parcialmente ocultado, como se o conteúdo mais íntimo fosse demasiado perigoso ou demasiado verdadeiro para ser exposto. Este recurso não é apenas estético: ele cria tensão narrativa, sugere profundidade emocional e introduz uma dimensão de arquivo, de documento classificado. O leitor é convidado a imaginar o que falta, e essa ausência torna-se presença.

A viagem do postal é descrita com ironia e ternura: “Ambiciosíssima e feliz”. O poema reconhece a ingenuidade do gesto, mas não a desvaloriza. A frase “Qualquer tentativa é feliz” é uma das mais fortes do texto, porque afirma uma ética do risco emocional. O postal é parte do emissor que se desprende, que sai, que circula. A imagem do amor que “deixou a sua base militarmente” é inesperada e eficaz: mistura o sentimental com o militar, o vulnerável com o disciplinado, criando uma metáfora original para o movimento do afeto.

A chegada do postal de resposta — três meses depois — introduz a segunda voz, ainda que filtrada pela leitura do emissor. O perfume, a caligrafia “acrobatamente escrita”, a delicadeza do gesto, tudo isso constrói uma presença feminina que é simultaneamente real e ficcional. A resposta contém também rasuras, o que reforça a simetria: ambos os lados têm segredos, ambos ocultam, ambos revelam apenas o suficiente. A coincidência dos “perigos” cria uma ligação que não é romântica no sentido convencional, mas existencial: duas vulnerabilidades que se reconhecem.

Do ponto de vista formal, o texto é coeso na sua fragmentação. As quebras, as rasuras, as elipses, a alternância entre verso e prosa poética, tudo contribui para a sensação de documento vivo, incompleto, em trânsito. A linguagem é clara, mas não simplista; há imagens fortes e inesperadas, e uma ironia subtil que impede o texto de cair no sentimentalismo.

Em síntese, “O Postal” é um poema sobre o risco de enviar algo de si ao desconhecido, sobre a esperança de que o amor — ou qualquer forma de reconhecimento — possa regressar. A força está na estrutura epistolar fragmentada, no uso inteligente das rasuras, na fusão entre intimidade e confidencialidade, e na construção de um amor que é menos encontro e mais tentativa. É um texto que se move entre o real e o imaginado, entre o dito e o omitido, e que encontra precisamente nessa oscilação a sua potência literária.

Criado em: Hoje 10:10:04
_________________
A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma
Transferir o post para outras aplicações Transferir







Links patrocinados