194. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - LyvByron. |
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24/12/2006 19:19 De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de LyvByron.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele. Quem sou eu, Diante do todo que me cerca? Quem sou eu, No meio da vida que me espera? , E que me abraça Sem me deixar correr, E que me possui Sem deixar-me esconder. Pois me tornei o mundo O qual tanto repudiei... Agora, alcançada a minha compreenção, Encerro-me como partícula desgarrada, Findo-me como história unitária _ já que Na solidão nada posso, nada sou; Abandono o meu ser incógnito E mergulho no que sempre fui... Uma parte. Sendo, então, o que sou E repudiando-me pela primeira vez _pois agora sou parte do que odeio; Pugno contra mim a partir deste momento, Não mais contra o mundo hostil e curruptível Que está em volta Daquilo que dizia ser eu; Pois o mundo sou eu, sou parte dele. Sou parte do todo, Estou acorrentado a ele. Sou parte da podridão, Sou igual a ela, Mesmo não querendo ser _ou fingindo não ser. Pelejo, a partir deste instante, Contra o meu ser-mundo hostil e curruptível, Contra o meu abaixar-cabeça Dentro do meu próprio sistema corrosivo, Coersitivo; Pois no meu eu-parte, No meu eu-sistema-vivo, Posso adoecer-me _virar célula cancerígena, Provocando uma cadeia de reações; E da minha patologia _do meu eu como uma ínfima parte; Surgirão mutações, Transformações biológicas... Órgãos serão perdidos! _poderei me perder nessa loucura; Eis que levarei toda uma bio à quase-morte; E darei adeus a tudo o que conheço, Ao que reconheço... E do zero tudo recomeçará, Tudo surgirá... O meu eu será parte de um novo sistema viceral... Serei célula de um novo corpo, Talvez mais limpo, Mais claro... Talvez. Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=6781 © Luso-Poemas O poema instala-se imediatamente num eixo ontológico — “Quem sou eu” — mas não como pergunta abstrata; antes como interrogação situada, pressionada pelo “todo que me cerca” e pela “vida que me espera”. A duplicação inicial cria um paralelismo eficaz, embora a vírgula após o segundo verso (“espera? ,”) introduza um deslize gráfico que quebra a fluidez. A estrutura interrogativa funciona como porta de entrada para uma reflexão que rapidamente abandona o tom meditativo e se torna confessional, quase acusatório. A sequência “E que me abraça / Sem me deixar correr, / E que me possui / Sem deixar-me esconder” estabelece um ritmo binário, sustentado pela repetição de “E que”, que funciona como martelo sintático. O efeito é de clausura crescente: o sujeito é abraçado, impedido, possuído, exposto. A linguagem corporal (“abraça”, “correr”, “esconder”) traduz uma luta entre movimento e contenção, reforçando a sensação de aprisionamento existencial. A viragem ocorre com “Pois me tornei o mundo / O qual tanto repudiei...”, momento em que o poema abandona a posição de vítima e assume a fusão com aquilo que rejeitava. É o primeiro ponto de tensão filosófica forte: o eu descobre-se cúmplice do que condena. A segunda estrofe introduz uma mudança de registo: “Agora, alcançada a minha compreenção,” — aqui há um erro ortográfico (“compreensão”) que, embora menor, interfere com a limpidez do verso. A imagem da “partícula desgarrada” é poderosa e coerente com o campo semântico posterior (biologia, sistema, célula, mutação). O sujeito declara-se “história unitária”, mas imediatamente anula essa unidade ao afirmar que “na solidão nada posso, nada sou”. A oscilação entre totalidade e nulidade é um dos motores internos do poema. A terceira secção aprofunda o conflito identitário: “repudiando-me pela primeira vez _pois agora sou parte do que odeio”. O uso do sublinhado como pausa enfática é eficaz, embora graficamente irregular. A frase “Pugno contra mim” marca o ponto de inflexão: o inimigo já não é o mundo, mas o eu enquanto fragmento desse mundo. A crítica ao “mundo hostil e curruptível” (novo erro: “corruptível”) é devolvida ao próprio sujeito, que se reconhece como extensão da mesma corrupção. Esta circularidade é um dos elementos mais fortes do poema. A quarta secção mergulha na metáfora biológica, que é, sem dúvida, o núcleo mais original do texto. O eu torna-se “eu-parte”, “eu-sistema-vivo”, capaz de “adoecer-se”, “virar célula cancerígena”, desencadear “mutações” e “transformações biológicas”. A imagem é coerente, expansiva e bem sustentada. A ideia de que o eu pode levar “toda uma bio à quase-morte” é uma formulação ousada, embora “bio” soe truncado, quase técnico demais, perdendo alguma força poética. Ainda assim, a metáfora do organismo em colapso funciona como alegoria da identidade fragmentada e da responsabilidade individual dentro de um sistema maior. A secção final — “E do zero tudo recomeçará” — introduz uma espécie de renascimento, mas não como redenção; antes como mutação inevitável. O sujeito aceita ser “célula de um novo corpo”, talvez “mais limpo, mais claro”, mas o advérbio “Talvez” devolve a incerteza e impede qualquer conclusão moral. O poema termina suspenso, sem resolução, o que é coerente com a lógica interna do texto: a identidade não se fecha, apenas se transforma. Do ponto de vista formal, há alguns problemas recorrentes: erros ortográficos (“compreenção”, “curruptível”, “coersitivo”, “viceral”), uso irregular de sublinhados, e uma pontuação por vezes excessiva ou mal posicionada. Contudo, estes deslizes não anulam a força conceptual do poema, que se sustenta sobretudo na metáfora orgânica e na tensão entre repúdio e pertença. É um texto de grande densidade simbólica, com uma arquitetura interna clara: pergunta → confronto → fusão → doença → mutação → reinício. A coerência imagética e a violência introspectiva conferem-lhe uma energia própria.
Criado em: Hoje 7:13:38
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