224. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - JoãoCláudioPires.
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24/12/2006 19:19
De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de JoãoCláudioPires.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Um susto, um susto foi o que me despertou na tua noite de outrora.
Pontículos luminosos pairavam sobre e tua cabeça,
Enquanto olhavas para ti estarrecido.

A abóbada celeste que me sugou,
Em ti penetrada profundamente,
Mostrava toda a sua magnificência,
Enquanto debaixo do meu lençol pelo pavor humedecido.

O jardim que se criou em torno do teu olhar,
Com espinhos ardentes cravados no meu peito,
Devorava-me os sentidos e os afectos pela pessoa em mim crescente.

Pude ver-te mais vulnerável do que nunca,
De olhos esbugalhados e pernas trementes.

Sentia-te reduzido a um boneco sem vida,
A uma marioneta abandonada pelo artífice.

Aumentou a sombra dos teus olhos, em mim presentes,
Onde as ondas bravias de vozes e gemidos me desgastavam a lucidez remanescente.

Tudo piorou quando olhaste para mim
Em rostos persistentes com sorrisos terríveis.
Apenas pudeste gritar finalmente,
Num último esforço de me libertar daquele que não era eu.

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=8202 © Luso-Poemas

Este texto desloca-se para um território onírico‑visionário, onde o medo, a vulnerabilidade e a distorção perceptiva se tornam matéria poética. A força do poema está na forma como transforma um episódio de pavor — talvez um pesadelo, talvez uma alucinação, talvez uma memória — em narrativa simbólica, sem nunca perder a densidade emocional.

A abertura é imediata e eficaz: “Um susto, um susto foi o que me despertou na tua noite de outrora.” A duplicação de “um susto” cria um tropeço rítmico que já anuncia o descontrolo. A expressão “tua noite de outrora” desloca o tempo e a posse: a noite pertence ao outro, mas é o eu lírico que desperta dentro dela. Esta inversão é um dos motores do poema.

Os “pontículos luminosos” pairando sobre a cabeça do outro são uma imagem singular, quase científica, que contrasta com o tom emocional do resto. Funcionam como pequenos corpos estranhos, sinais de algo que não pertence ao mundo natural. A reacção do outro — “estarrecido” — reforça a sensação de que o poema está a narrar um momento de desagregação interior.

A segunda estrofe é das mais fortes. A “abóbada celeste que me sugou” é uma imagem cósmica, mas imediatamente ancorada no corpo pelo “lençol pelo pavor humedecido”. O contraste entre o grandioso e o íntimo cria um efeito de vertigem. O poema oscila entre escalas — do universo ao quarto — e essa oscilação é coerente com a experiência de terror nocturno.

O “jardim que se criou em torno do teu olhar” é uma metáfora inesperada, porque introduz beleza num contexto de medo. Mas é um jardim de espinhos, que se crava no peito do eu lírico. O poema trabalha bem esta ambivalência: o olhar do outro é simultaneamente criação e ferida, fascínio e ameaça.

A imagem do outro reduzido a “boneco sem vida” ou “marioneta abandonada” é particularmente eficaz porque retira humanidade, mas não retira presença. O corpo está ali, mas sem agência. Esta desumanização momentânea intensifica o horror, sem recorrer a exageros.

A estrofe seguinte, com as “ondas bravias de vozes e gemidos”, aproxima-se do limiar do delírio, mas mantém-se dentro de uma linguagem poética controlada. O poema não descreve o terror; deixa-o ressoar.

O final é o ponto mais dramático: “rostos persistentes com sorrisos terríveis”, o grito, o esforço de libertação. O verso “daquele que não era eu” é o golpe final — revela que o outro estava aprisionado numa percepção distorcida, confundindo o eu lírico com uma figura ameaçadora. É uma conclusão que reconfigura todo o poema: o medo não era apenas vivido, era também projectado.

Formalmente, o texto é sólido. Há pequenas oscilações de ritmo que poderiam ser afinadas com pausas mais calculadas, mas nada que comprometa a intensidade. A linguagem é rica sem ser barroca, e o imaginário é coerente com a experiência de pânico nocturno, sem cair no grotesco.

Este texto é visionário e psicologicamente denso. Trabalha bem a fronteira entre sonho, medo e percepção alterada, mantendo sempre a integridade poética.

Criado em: Hoje 20:21:20
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A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma
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