244. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Cecília Rodrigues.
Moderador
Membro desde:
24/12/2006 19:19
De Montemor-o-Novo
Mensagens: 4333
O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Cecília Rodrigues.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Do que vivi, trago Esperança
mulher madura na lembrança
dos tempos que já lá vão...
Feliz p'los anos terem passado
ter-me conscientizado
dos anos que ainda restam...

Juventude que ainda abrilhanta
Amor que se agiganta
nos dias que se arqitectam..
Um pulsar maduro inquieto
num peito ardil...lesto
os sentimentos reiteram

Sou mulher madura..sou emoção...
sou devaneio..sou quimera
sou como flor de Primavera
Sou pura imaginação...

Quando a impulsiva paixão
frenéticamente impera
então, ainda sou quem era
sem ser dona de meu coração...

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=9291 © Luso-Poemas

O poema inscreve-se numa tradição lírica de autoafirmação feminina, articulando memória, maturidade e desejo. A abertura — “Do que vivi, trago Esperança / mulher madura na lembrança / dos tempos que já lá vão...” — estabelece de imediato uma voz que se olha a si própria através do tempo. A personificação da esperança como “mulher madura” é uma boa intuição simbólica, mas a construção métrica e rimática aproxima-se de uma cadência demasiado convencional, que por vezes limita a força expressiva. A rima fácil (“lembrança / vão / passado / restam”) cria fluidez, mas também previsibilidade.

A segunda estrofe — “Juventude que ainda abrilhanta / Amor que se agiganta / nos dias que se arqitectam...” — tenta articular passado e presente, mas a palavra “arqitectam” (com erro ortográfico: arquitetam) quebra a fluidez e expõe uma fragilidade formal. A imagem do “pulsar maduro inquieto / num peito ardil...lesto” é interessante, mas o jogo gráfico com reticências (“ardil...lesto”) não acrescenta densidade; pelo contrário, parece procurar um efeito que não se justifica plenamente. A estrofe funciona melhor quando se concentra na tensão entre inquietação e maturidade, mas perde força quando se apoia em rimas previsíveis e em jogos gráficos.

A terceira estrofe — “Sou mulher madura..sou emoção... / sou devaneio..sou quimera / sou como flor de Primavera / Sou pura imaginação...” — é a mais problemática do poema. A repetição de “sou” cria um ritmo afirmativo, mas a estrutura aproxima-se de uma enumeração identitária que, pela sua simplicidade, reduz a complexidade emocional que o texto vinha construindo. A imagem da “flor de Primavera” é demasiado genérica para sustentar a densidade simbólica que o poema exige. Além disso, o uso repetido de dois pontos (“..”) cria uma sensação de informalidade que contrasta com o tom mais elevado das estrofes anteriores.

A última estrofe — “Quando a impulsiva paixão / frenéticamente impera / então, ainda sou quem era / sem ser dona de meu coração...” — é a mais forte do poema. Aqui, a voz poética abandona a enumeração e regressa à tensão interna: a paixão que impera, a identidade que resiste, o coração que escapa ao domínio. A ideia de “ser quem era sem ser dona de meu coração” é eficaz porque articula maturidade e vulnerabilidade sem recorrer a imagens gastas. No entanto, “frenéticamente” contém erro ortográfico (freneticamente), e a rima “impera / era / coração” volta a aproximar-se de uma cadência demasiado previsível.

Formalmente, o poema oscila entre momentos de boa intensidade emocional e trechos onde a forma se torna excessivamente convencional. A métrica é irregular, mas não de modo expressivo; a pontuação é usada como ornamento, não como estrutura; e algumas imagens — sobretudo as associadas à Primavera — carecem de maior singularidade. O texto funciona melhor quando se concentra na tensão entre maturidade e desejo, entre memória e impulso, entre identidade e perda de controlo. Quando se apoia em rimas fáceis ou enumerações, perde densidade.

Em síntese:
O poema tem matéria emocional sólida, uma voz feminina consciente da sua história e da sua inquietação, e uma boa conclusão. Precisa, porém, de maior rigor formal: correção ortográfica, contenção gráfica, rimas menos previsíveis e imagens mais singulares. A força está na tensão entre maturidade e paixão; o poema ganha quando se aproxima dessa fricção, não quando se refugia em fórmulas líricas convencionais.

Criado em: Hoje 7:55:50
_________________
A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma
Transferir o post para outras aplicações Transferir







Links patrocinados