245. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Mário Cardoso.
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24/12/2006 19:19
De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Mário Cardoso.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

cruzam a minha volta
pessoas feias e tristes.
traidores mostram seus dentes,
covardes e ainda assim contentes.

cruzam a minha volta
carrapatos cinzentos,
gordos e sedentos.
procuram morada; atreva-se.

o hoste teme em estender a mão
e mesmo que tivesse sensatez
ainda manteria o olhar baixo.

foi singular entender o pesadelo
aquele momento lindo
que eu nunca quis apreciar.

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=9303 © Luso-Poemas

O poema abre num círculo de repulsa, quase uma coreografia de figuras que passam, mas não se aproximam. A repetição de “cruzam a minha volta” cria um movimento de rotação, como se o sujeito poético estivesse parado no centro de um espaço contaminado. A escolha de adjetivos — feias, tristes — é deliberadamente simples, quase seca, e isso reforça a dureza da observação. Quando surgem os “traidores” e os “covardes”, o poema intensifica o tom moral, mas sem dramatização excessiva; há uma frieza que funciona bem, porque não tenta justificar nem explicar, apenas constata.

A segunda passagem, com os “carrapatos cinzentos”, desloca o poema para um plano mais simbólico. A imagem é forte, grotesca, e cria uma sensação de parasitismo social que se encaixa no que vinha antes. A palavra “atreva-se” quebra o fluxo e introduz uma espécie de desafio, quase uma ameaça, que dá ao texto um momento de tensão inesperada. É uma boa interrupção, porque impede que o poema se torne apenas descritivo.

A estrofe seguinte muda o ritmo. A entrada de “o hoste” é interessante, mas cria uma ambiguidade que não se resolve totalmente. A frase alonga-se, perde a secura das anteriores, e o olhar baixo do anfitrião — ou hospedeiro — parece mais uma imagem de submissão do que de medo. É o ponto onde o poema abranda, talvez mais do que precisava, e onde a força inicial se dilui um pouco.

O fecho recupera intensidade ao inverter o eixo emocional: o pesadelo é “singular”, e o momento “lindo” é precisamente aquele que o sujeito nunca quis apreciar. Esta contradição é eficaz, porque não explica nada; apenas abre uma fissura. O poema termina num lugar ambíguo, onde a beleza e o horror coexistem, e onde o sujeito admite uma recusa que é, ao mesmo tempo, revelação.

É um texto que funciona pela acumulação de imagens duras e pela honestidade da voz. O ritmo poderia ser mais uniforme, sobretudo na parte central, mas a construção simbólica é coerente e o fecho deixa uma sombra que permanece.

Criado em: Hoje 18:39:18
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A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma
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