Comentário a "Munch" de rebecarocha
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6/11/2007 15:11
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Social e político, este texto tem algum engenho.
O título submete logo o leitor para uma imagem, talvez por a maioria já ter ouvido falar sobre o pintor e visto o seu quadro mais conhecido.
Ainda sem lermos o corpo do texto já somos condicionados.
Ainda que surjam, por isso, interrogações.
Não me vou alongar sobre o pintor, uma vez que não sou especialista, mas lendo na diagonal sobre este norueguês do século XIX vemos que os títulos dos seus quadros frequentemente têm emoções, actos impactantes.

Não temos estrofes.
Os versos separados são eles mesmos quase estrofes, com uma métrica longa para que espremamos o conteúdo.

O começo surge em forma de pergunta, que coloca o leitor como interlocutor. E obedece imediatamente à reflexão.

Para logo percebermos que, afinal, era retórica.

A resposta não é menos enigmática.
É o sujeito poético que a dá.
"... Com menos do que se imagina..." tem a intenção de simplificar, mas coloca no poema (acho que posso falar dele assim) um chavão que é sempre bem vindo - a imaginação.

Ao completar, o sujeito poético coloca um verso que quase não permite a quebra, além de ter duas frases separadas por um ponto.
Muito amargas. Ia dizer melancólicas, mas encontro rancor nas mesmas, talvez alguma ira.

No início, na pressa de tentar responder a "Com quantas fogueiras se cala a verdade..." tenho duas imagens, primeiro da queima dos livros, próprias das ditaduras, depois, da inquisição e das caças à bruxas (que no tempo da ignorância eram sábias).
Essas duas imagens vão dar à supracitada imaginação.

A ignorância, como oposto da verdade, tem lugar neste poema, mas numa era de tecnologia e de sua relativa acessibilidade, perde o lugar como desculpa.

Mas...

O "...medo..." é um substituto com um peso que temos de valorizar.
Ele é o pai da pior censura de todas: a autocensura. Talvez por me parecer mais inquebrável.

O medo, que converte pessoas de bem em apoiantes das ditaduras e das suas accões devastadoras.

A verdade sussurrada mal se faz ouvir.
Sobra a mentira.

Outra forma de controle é a económica, que também é referida no mesmo verso na forma da "...fome...", que nos leva como "pescadinha com rabo na boca" novamente ao medo.

Sem nunca perceber donde vem o Munch, até então, surge o "...sussurrar..." do terceiro verso, para o título fazer mais sentido.
Como seu oposto.
O grito é a sua pintura mais conhecida.

Sobre a ato, propriamente dito, é polémico, sujeito a muitas apreciações.
Há quem o considere deselegante.
Estraga as cordas vocais.
Musicalmente está destinado a um nicho, devido a alguma desarmonia.
Mas não será necessário?
Neste caso, parece que sim.

O grito.
Nele vemos um Homem numa estrada ou ponte, com as mãos agarradas à própria cabeça e somos incapazes de dissociar a imagem do gesto e da ação.
Ainda que se não lhe tivessem chamado de "o grito", para mim seria.
E a arte tem este condão, esta capacidade de se tornar universal e pessoal ao mesmo tempo.

PS.:
Tentei encontrar naturezas mortas nos quadros dele mas não encontrei "...laranjas..."; árvores sim, cabeças de cavalos também, separações, beijos e ansiedades,...
Mas laranjas, não...


Munch


Com quantas fogueiras se cala a verdade?

Com menos do que se imagina.

Basta uma nação sem segurança. Onde o medo governa, a verdade aprende a sussurrar e a fome aprende a implorar.

Vendiam as próprias almas — e as dos outros.

Enquanto isso, as laranjas iam rolando por aí.



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Criado em: Hoje 10:37:15
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