314. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Antonio de Almeida.
Moderador
Membro desde:
24/12/2006 19:19
De Montemor-o-Novo
Mensagens: 4421
O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Antonio de Almeida.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

O lento passar dos dias...

Perpetuando a nossa eterna e viciante nulidade, um tortuoso fervilhar de palavras gastas, numa promiscuidade de actos incoerentes, que arrasta por entre infernos labirínticos, os nossos incipientes cadáveres nauseabundos, desesperadamente tentando acreditar, no que já há muito deixou de ser credível.

O lento passar das semanas...

Laxante ideal para libertarmos o que não faz sentido ser guardado, o conhecimento vão, para quem a teoria servirá sempre para subjugar a razão. No lado mais obscuro dos nossos medos das nossas fraquezas, que bem as tentamos esconder, reprimir, camuflar, mas que tão cegamente as vemos em outros. Que tão bem apontamos a tudo e todos, com a hipocrisia de quem vomitou sem saber o que ingeriu e agora se perde no meio dos restos procurando pelos pedaços moídos, mastigados, digeridos. Na desesperada tentativa de compor algo que por não existir em nós, nunca poderá ser reconhecido.

O lento passar dos meses...

Agudiza todo um sofrimento, que por entre suaves fragrâncias de ingénuo e inebriante aroma, procuramos perfumar a nossa efémera passagem terrena. Perdidos numa mistura sintética de odor purgante, refugiamo-nos na nossa imensa e promíscua escuridão. Procurando assim, inconsequentemente, ultrapassar o que dela eternamente subsistirá em nós mesmos. Fugaz miragem de um deserto crescente, de imutáveis receios, onde o mais persistente dos oásis se dissolve nas ébrias areias do nosso omnipresente não ser.

O lento passar dos anos...

Eterno e tortuoso murmúrio de uma voz para sempre perdida na penumbra do tempo vazio. Oceanos de lágrimas temperadas por uma melancolia agridoce, banhando as praias já desertas em marés de submissos lamentos. Meros ecos que se dissipam nas arribas da mente, fortalezas centenárias edificadas pelo acumular de sonhos destroçados. Despojos de guerras vãs, para sempre guardados na salina da memória. Essa crosta que nos protege e nos molda através da erosão corrosiva de contínuas ondas de inacabadas promessas.

O lento passar de uma vida...

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=12916 © Luso-Poemas

O texto estrutura-se em cinco secções marcadas pela repetição anafórica de “O lento passar…”, criando uma cadência meditativa que acompanha a progressão temporal — dias, semanas, meses, anos, vida — e que funciona como eixo conceptual. Cada bloco aprofunda uma dimensão distinta da experiência humana, sempre através de imagens densas, de forte carga simbólica e de um léxico que privilegia a materialidade do corpo, da memória e da decomposição. A primeira secção — “O lento passar dos dias...” — estabelece o tom dominante: uma visão corrosiva da existência, marcada por “viciante nulidade”, “palavras gastas” e “actos incoerentes”. A construção sintática é longa, com encadeamentos sucessivos que criam um efeito de saturação coerente com o conteúdo. A imagem dos “incipientes cadáveres nauseabundos” é deliberadamente excessiva, aproximando o texto de um expressionismo visceral. A frase final — “tentando acreditar, no que já há muito deixou de ser credível” — introduz uma quebra rítmica pela vírgula desnecessária após “acreditar”, mas mantém a coerência temática.

A segunda secção — “O lento passar das semanas...” — desloca o foco para a crítica da inconsciência e da hipocrisia. A expressão “Laxante ideal” é inesperada e cria um choque semântico que reforça o tom corrosivo. A construção “No lado mais obscuro dos nossos medos das nossas fraquezas” apresenta uma ligeira falta de articulação, já que a ausência de vírgula ou conjunção entre “medos” e “das nossas fraquezas” cria uma fusão sintática menos fluida. O encadeamento de verbos — “esconder, reprimir, camuflar” — é eficaz, embora previsível. A imagem da hipocrisia como vómito é forte, mas o período que se segue — “procurando pelos pedaços moídos, mastigados, digeridos” — alonga-se em excesso, criando uma redundância imagética. Ainda assim, a secção mantém coerência interna e reforça a crítica à incapacidade de reconhecer em si aquilo que se aponta nos outros.

A terceira secção — “O lento passar dos meses...” — introduz uma oscilação entre fragrâncias suaves e escuridão promíscua, criando um contraste que funciona bem. A expressão “mistura sintética de odor purgante” é eficaz na sua estranheza, embora o adjetivo “purgante” possa soar excessivamente literal. A construção “ultrapassar o que dela eternamente subsistirá em nós mesmos” é sintaticamente correta, mas semanticamente circular, já que sugere ultrapassar o que é eterno, o que cria uma tensão conceptual interessante, embora não totalmente resolvida. A imagem final — “ébrias areias do nosso omnipresente não ser” — é forte e bem construída, ainda que o adjetivo “ébrias” possa parecer ligeiramente forçado.

A quarta secção — “O lento passar dos anos...” — é talvez a mais equilibrada do ponto de vista formal. A imagem da “voz para sempre perdida na penumbra do tempo vazio” é eficaz e bem articulada. A metáfora dos “oceanos de lágrimas temperadas por uma melancolia agridoce” mantém o tom expressionista, mas com maior contenção. A construção “fortalezas centenárias edificadas pelo acumular de sonhos destroçados” é sólida, embora o uso de “acumular” como substantivo seja menos comum. A secção encerra com uma imagem forte — “erosão corrosiva de contínuas ondas de inacabadas promessas” — que sintetiza bem o desgaste temporal.

A última secção — “O lento passar de uma vida...” — funciona como conclusão implícita, embora não desenvolva uma imagem própria, deixando o fecho em suspensão. A ausência de desenvolvimento pode ser intencional, reforçando a ideia de que a vida, enquanto totalidade, é apenas o somatório das erosões anteriores.

Do ponto de vista formal, o texto apresenta correção ortográfica, com exceção de pequenas inconsistências como o uso de “actos” (grafia pré-AO) e a ausência de vírgulas em pontos onde a fluidez beneficiaria delas. A sintaxe é deliberadamente densa, com períodos longos que reforçam o tom opressivo. O campo semântico é coerente, centrado na decomposição, na nulidade, na hipocrisia e na erosão temporal. A construção imagética é intensa, por vezes excessiva, mas consistente com o estilo.

O texto enquadra-se na lírica existencial de expressão sombria, com traços de expressionismo introspectivo, marcada pela densidade metafórica, pela crítica corrosiva da condição humana e pela exploração de imagens corporais e temporais que procuram traduzir o desgaste da existência.

Criado em: Hoje 20:45:49
_________________
A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma
Transferir o post para outras aplicações Transferir







Links patrocinados