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Outras Editoras : SONETOS 2016
Enviado por RicardoC em 16/03/2017 15:56:46 (112 leituras)
 
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Outras Editoras

Reunião dos sonetos escritos por mim ao longo do ano de 2016.



POR UMA METAPOÉTICA

O ofício de poetar distingue-se pela busca da verdade. Mas não, o poeta não é um filósofo que propõe suas teses por meio de versos, o poeta é um artista. Sua função é recriar a realidade e a si próprio com vias a lançar luzes, mais intuitivas que racionais, sob seus estados psíquico-mentais. Mais que compor frases de acordo com um certo metro e uma certa forma, no caso sonetos decassílabos e dodecassílabos, é preciso que o poeta escreva o que nem ele mesmo sabe o que é. Esta meta transcende o conhecer e o estabelecimento de limites ou rótulos pessoais, mesmo porque, a poesia não raro transfigura os seres a ponto de torná-los objetos que fogem a qualquer análise racional.

Bem, este intróito tem o objetivo de amarrar o sentido geral dos poemas que se seguem neste livro sétimo. Não são, ao contrário que o título faz pressupor, teses, modelos ou exemplos de uma tentativa de teoria poética particular. Se o leitor der sentido ao que os sonetos seguintes expõem não verá uma possibilidade de poética, mas múltiplas. O poetar se pensa enquanto sujeito e objeto, é ação reflexiva por excelência. Todavia, lança luzes, como já disse antes, com intenções diversas do filosofar ou do analisar os fatos e as coisas para lhes traduzir a essência. Estas luzes, tomando as artes plásticas por analogia, podem ter sentidos que jogam com as diversas aparências que algo iluminado tem - claro-escuro; podem buscar concretizar o abstrato, imaginar o imaterial - luz mística; ou ainda a natureza em cujos matizes de cor o homem se reconhece e se espelha - luz natural. Todas estas formas de iluminação artística são obviamente diversas da que - chamemos de luz artificial - se valem os que de forma analítica observam o ser, fragmentando-o.

A matéria-prima do poeta é a palavra. Mais que qualquer um é ele quem vibra com os sentidos e possibilidades que suas intenções adquirem. As palavras guardam em si histórias, línguas mortas, sentidos e subsentidos, sons, melodias, valores etc.. Há algo quase como que uma combinação numerológica nos vocábulos a decifrar o destino de fictícios ou suprarreais eus que se manifestam nestes poemas. As palavras são mágicas, são pedras-de-toque, não o próprio ouro. Creio ser neste ponto que os parnasianos se enganaram: viam na raridade ou hierarquia das palavras um valor intrínseco ao poema. Falam muito da perfeição formal que os parnasianos buscavam, qual seus pares arquitetos com as ordens clássicas. Sem embargo, todas as épocas lograram sonetistas de forma primorosa, e nem por isso podem eles ser chamados parnasianos. Eu, por exemplo, não tenho a menor pretensão de obter a perfeição formal como efeito em meus sonetos: meu ritmo segue uma linha melódica pessoal, e não os tratados de versificação. Fazendo novamente paralelo com os arquitetos e suas ordens clássicas, os poetas não devem seguir cegamente as normas do soneto se quiserem fazer verdadeira poesia. Devem, ao contrário, saber onde e como transgredi-las, ou como prefiro dizer, evoluí-las.

O leitor poderá ter, porfim, se assustado com os arcaísmos, neologismos, e por vezes até estrangeirismos galegos e castelhanos, e sobretudo, lusitanismos a nortear, inclusive, uma minha proposta alternativa de ortografia. Não considero, sem embargo, lusitanismos como corpos estranhos em meu escrever como o seriam em meu falar. Creio que ser lusófono é ser lusófilo outrossim, sobretudo na poesia, onde nossa Pátria não é outra senão a língua portuguesa, d’aquém e d’além-mar.


É isso.


Ricardo Cunha Costa, o autor.

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