Comentários a "Papel parede", de Beatrix (B. Pó e R. Beça)
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2/10/2021 14:11
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"Papel parede", de Beatrix

Santa Rita de Cássia acordou
no dia em que nasci frente ao papel
minha madrinha deu o que agora sou
um corpo ambulante preso na pele

os santos não querem saber se vou
na minha hora num caixão de dossel
não vão proteger carcaça que dou
tampouco chorar minha morte fel

cresci na metade dos gases nobres
entre símbolos imperiais sóbrios
com ares e mares de letras nuas

desconheço quem sabe o que tu cobres
nas meias teias de nobres opróbrios
nas luas cheias que são vénus cruas

e deus sabe as minhas provações soltas
ignora a história da minha mente
o passado das pequenas revoltas
aquilo que mexe, esquilo, no presente
o que se pode aproveitar dum pente
rejeitar moedas de sedas caras
enjeitar crentes crendo diferente
enquanto choro e coso plantas raras
sei agora do paraíso onde paras
do coberto quente que tu fizeste
das estrelas que roubaste e separas
apenas uma amparas e me deste

..mas da luz fugiu e fiquei com sem nada
..afinal é normal: papel parada

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Percurso de leitura nº 24 (se quiser conhecer os anteriores, fica aqui o link)

É sempre emocionante ver nascer novas formas poéticas, neste caso, uma combinação do soneto italiano com o soneto inglês. Perverter, no bom sentido, os formatos clássicos é algo que permite ampliar a sua dimensão, ganhando-se espaço onde experimentar novos ritmos e harmonias. Veja-se, a título de exemplo, a qualidade das rimas internas e das assonâncias que pontuam todo o texto ("ares"/"mares", "meias"/"teias"/"cheias", "crentes"/"crendo", "rejeitar"/"enjeitar").

Independentemente da mestria na construção do poema (dispenso-me de explicar a complexidade técnica que envolve estas formas fixas), o que me seduz verdadeiramente enquanto leitor é a evolução do tema, que discorre sobre o crescimento do "eu", enquanto sensibilidade e enquanto intérprete poético dessa sensibilidade.
A santa dos impossíveis e das causas perdidas acordou — terá despertado ou terá estabelecido um acordo, um pacto, com o sujeito lírico? O certo é que foi ela a responsável pela revelação surpreendente do destino do "eu": encontrar a redenção pela criação poética.

Esta libertação não se dá sem constrangimentos e desilusões. Os contrastes que vão surgindo ("caixão de dossel", "nobres opróbrios", "com sem nada") são sinais das "pequenas revoltas" que se vão experimentando ao longo de uma biografia que tanto se constitui de mediocridade como ascende ao sublime. Essa sensação de estar quase (que Mário de Sá Carneiro tão bem descreveu) aparece de forma mais evidente no primeiro terceto (a referência a "metade dos gases nobres" será talvez o melhor exemplo), sugerindo talvez uma dívida do "eu" em relação a outros textos de outros autores que o terão inspirado ou influenciado, esses "ares e mares de letras nuas" que lhe deram a conhecer a arte da escrita.

No segundo terceto, surge pela primeira vez um "tu", que há de regressar na parte final do poema. Quem será? Dele não sabemos quase nada, apenas que será alguém que "cobre" algo desconhecido. O verbo "cobrir" também aparecerá mais à frente e é extremamente sugestivo pela dupla aceção em que pode ser utilizado: por um lado, aponta para a defesa ou proteção de alguém ou de alguma coisa; por outro, para a cópula animal, para o abandono irracional ao instinto. Será por isso que se associam "luas cheias" a "vénus cruas"?

Não só por aqui (mas também) se vê que as referências a santos e ao próprio deus, que fazem parte do imaginário habitual da autora, não têm nada de reverencial, pelo contrário: são apresentados com as mesmas imperfeições que os seres humanos, tantas vezes ignorantes, tantas vezes egoístas e desinteressados pelos destinos das criaturas que conceberam. Talvez se sugira aqui a solidão que é inerente à condição humana e que a invenção de mitos sempre procurou, em vão, atenuar.

Esse lado irreverente, que ousa desafiar os imortais, manifesta-se em pequenos apontamentos, diríamos nós, triviais (como as imagens do esquilo e do pente), que contrastam com uma certa solenidade de outras partes do poema. São imagens que permitem retratos de um simples traço sobre esse caráter irrequieto e gracejador que a poesia também apresenta e que já parece ser uma das características do estilo desta poetisa.

Encaminhamo-nos para o final: retorna a segunda pessoa, que rouba uma estrela e que a oferece ao "eu". Mas essa oferta é um tudo que é nada: a luz desapareceu (e a estrela apagada, terá ficado?) O certo é que o sujeito poético resigna-se e aceita essa circunstância como normal. Será que está a referir-se a alguém que o terá abandonado? Terá havido um lugar ou um tempo que brilhava e que se apagou, como ocorreu com a estrela?

Uma das propriedades definidoras do texto poético é essa ambiguidade, que dá ao leitor a liberdade para viver o poema como uma construção conjunta, em que ele próprio participa com tudo aquilo que sente e que imagina. Assim sendo, interpreto esse "tu" como a inspiração poética, essa espécie de espírito que parece descer sobre o poeta e que lhe permite chegar a um universo paralelo ao racional. É essa inspiração que o "eu" invoca.

O momento da génese do poema é, ao mesmo tempo, intenso e frágil e, na expressão "papel parada" com que se encerra o texto, vejo o instante em que o criador constata que terminou a sua criação, em que se defronta com o nada de uma nova folha em branco, que pode ser um obstáculo (como a parede do título) ou simplesmente a espera de uma nova luz, que não tardará em despontar novamente. Como dizia o outro, "there is a light that never goes out"...




Criado em: 4/6 11:19
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Re: Comentário a "Papel parede", de Beatrix / Benjamin Pó
Muito Participativo
Membro desde:
23/5 2:48
Mensagens: 75
Olá.

Começo pelo final e a escolha da música. "There is a light that never goes out". Otimista até para o Morrissey, talvez?

Não vou comentar o comentário, naturalmente. Apenas agradecer tamanha honra que é ver o meu texto assim dissecado, e como o fez tão bem! Se dá as respostas certas ou não, julgo que não será o que está em causa. Antes "passear" pelo texto, pelo poema e suas palavras, pela forma, e o restante que faz.

Termino com o início e a Santa Rita de Cássia; deverá ser a santa que menos trabalho tem, atendendo a que aos santos se pedem "coisas" boas, felizes, agradáveis, tornando possível o impossível. Como é que ela fará?


Obrigada, Benjamin Pó.

Beatrix

Criado em: 10/6 21:46
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Re: Comentário a "Papel parede", de Beatrix

Membro desde:
6/11/2007 15:11
Mensagens: 2029
Este poema começa e acaba com um "de" omisso.

Com alguma facilidade penso no título e o "Papel..." é DE "...Parede".
Assim como no último verso ma parece que o "...papel..." é DE "...parada."
No primeiro caso ainda consegue passar a expressão incólume. O objeto Papel de Parede pode ser convertido em papel parede sem perder o significado.
Este autor contudo não parece dada a lapsos.
"...papel parada." perde o sentido sem DE.
Parada pode ser um nome. Como na parada militar. Ou pode ser um adjectivo a caracterizar o nome Parede, tendo por sinónimo, por exemplo, quieta.
As duas palavras, muito próxima na escrita, têm momentos de oposição.
O "Papel de Parede" é uma forma desusada de decoração de uma superfície vertical que é usada na separação e construção de espaços. Entre quatro paredes tudo é possível.
O "papel de parada" (as minúsculas) é uma acção que determina inacção.

Com isto, somos obrigados a ler o poema, a ver se há mais paredes, ou se conseguimos descobrir outro papel.

Do ponto de vista formal há particularidades, também.
Este poema podia estar categorizado como Sonetos.
E o plural é factual. Para os mais distraídos, após o soneto tradicional (talvez seja um erro chamar assim) ou italiano, o que é escrito depois é a versão inglesa.
Sobrepostos desta maneira, ficamos a pensar, ou a imaginar, qual teria sido a intenção do autor.
Podemos sempre ser criativos e ver no italiano uma simetria, um emparelhamento de quadras e tercetos, e dentro dos tercetos uma tendência para serem a conclusão duma história que começou nas quadras.
No inglês não é assim. O começo, por assim dizer, é mais longo, com uma esparsa de 12 versos, e 1 dístico, que tem, obviamente, menos versos. Terá menos impacto?

A relação dos dois sonetos não é muito pacífica.

O primeiro conta uma história mais amarga.
A alusão ao acordar da santa padroeira dos impossíveis ao nascer do sujeito poético "... frente ao papel..." não é inocente.
Será o nascimento para a escrita?
Nele, o verso que se revela mais positivo é o primeiro verso do primeiro terceto. A nobreza, lá constante, traz o conjunto para uma forma mais suave que não existe até aí.
"... opróbrios..." à parte...
O segundo soneto, apesar da linguagem crua e dura, tem um travo mais doce, de espera.
Ficar "...com sem nada...", ainda que aparente ser uma dupla negação, é além de um exemplo dos inúmeros versos com criatividade e audácia, é um contratempo ao resto do soneto, em tons iluminados.

Resta-me salientar a riqueza vocabular, as aliterações de fino recorte, mais do que as rimas, as semelhanças entre palavras, as repetições de consoantes; as metáforas, e um esquilo no meio... Nomeio.

Entre "parede" e "parada" acho que a imagética do poema ganha.
O poema, é pleno de movimento. Haja papel.

A minha maior dúvida, é sobre "...o que se pode aproveitar num pente...", sinceramente, não sei.

Criado em: Ontem 7:10:06
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