294. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Jose Carlos Freixo. |
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24/12/2006 19:19 De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Jose Carlos Freixo.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele. 06: 21 Hora de Saturno 1 O quê?!, Sou eu, uma hora, um erguer compassivo um punhado de relâmpagos A vida toda num instante, e mais outro tanto de noite Eu, um acelerador de partículas e uma coisa acelerada, o abismo adentro e um vinco mal amado nas calças Eu, numa hora que se faz instante num instante que o perde 2 Levanto-me estremunhado, parece ser o meu turno, E ateio o sol habitualmente, trago à luz um novo dia- -a-dia Sob um farol de anúncio; Estavas deitada junto ao Vesúvio semi nua, na companhia de um caderno verde de poemas ilegíveis Trazias nos braços as marcas de um erro atroz, um erro atroz, a rima com voz e uma ferida esgotada de sangue Estiveste sempre certa pela hora de Saturno Apetecia-te a iluminação de natal da avenida, dentro do quarto nunca te habituaste à ideia das enxaquecas que acarretaria Mas foram tantas as manhãs em que acordei contigo Que sem ti já não sei como acordar sem medo de te velar morta, em mim 3 Latente é hoje a maldição aluada a criação das palavras, os toldos coloridos os apêndices duma praça primeiro mundista Latente o vislumbre alaranjado sobre o caos, a suspeita descarnada, ensurdecida O fim passageiro, O jardim descuidado A facada de meio punhal E Um arrepio prateado 4 diletante nas linhas, nas pontas dos dedos a plenos pulmões sou pela odisseia submarina, de pulsar ofegante vazio-propulsor dum quarto-periscópio, a cidade-hepilepsia um cigarro-poeta o matiz plural e a lâmina imberbe o mergulho transeunte, uma velocidade de rio a solidão amovível, um oceano que a toma uma nudez esquiva e mãos vasculhantes, um irmão amanhecido no asfalto a valsa cósmica sirenes, alarmes solidez mortal esluvial, oxidante o colar-guilhotina uma cabeça com asas incrustadas o voo, a escala na lua à galáxia mais próxima historiar um crime indiscutível ditar um romance suicida 5 há muito que não te posso escrever... há muito que não há por que esperar ou por que partir o amor e a sua toalha de rosto secreta; num fogo de palha Onde acontecem as mãos dadas O amor desce as calçadas E Nada faz senão morrer, Por nada Jovial-incendário homicida passional desabou sobre tudo Abismo abaixo perdeu os óculos de ler Os sinais do céu Diz-me, afinal ao que viemos todos? Estive demasiado ocupado A despir-me, do mundo A entalhá-lo, absorto Incontactável, Quis salvar um só verso Da tua fome, fazer tempo Escrever-te, ultimamente 6 Tu, que não tens pátria, junta-te a mim há lugar para ti, nesta galera setentrional mulheres, promessas, rosas e ventres de roseira tu, que não tens nada a perder, junta-te a mim há desespero por cá, novos sabores, poemas matutinos tu, que não sabes nada, junta-te a mim aprende a esquecer e a desferir golpes mortais tu, que não encontras por que nascer, junta-te a mim engorda as fileiras dos que a si próprios se abraçam aluados, errantes... tu que não encontras ninguém, vem comigo há descaminho para ti, uma chuva gentil páginas em branco tu, que amas a vertigem, chega-te a mim tenho um plano por aí, um espectáculo infindo, Tu que não escutas ninguém, canta comigo Existe um lugar para nós. 7 Começa com uma descompostura divina, Engorda na pastelaria da esquina Concretifica-se num ribombo crédulo Silencia o filho, pródigo Entrevirgulado, Dissimula-se e mente furiosamente Começa com rimas e acaba em branco Descura o enlevo e embarca a mais longa e desaconselhada viajem Nós não precisamos de ajuda oferecemo-nos há escassos segundos um ao outro e nenhum de nós percebeu como é que os mandriões se tornaram poetas; A pergunta é uma só E Preserva o pensamento fora dos eixos, Estarei a enlouquecer? Os psicanalistas alegam: ...devemos conhecê-lo melhor por dentro O que traz reprimido num esquema de sobrevivência, Sabemos ser perito em balões de ar quente E que vive do que pode fotografar da tempestade Acima das nuvens, Partindo surdo e de noite apesar das ameaças da meteorologia Começa com uma explosão e depois implode Insustentando a pressão externa mais pequeno, na contramão de si mesmo menos razoável arrasta um regimento de cavalaria que fará actuar assim se divise o tédio Ataca: Viva a Praça-mundis-intergalática! Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=11923 © Luso-Poemas “Hora de Saturno” organiza-se como um corpo fragmentado em sete movimentos, cada qual com a sua própria respiração. A abertura apresenta uma voz que se define não como sujeito, mas como tempo: uma hora, um instante, um punhado de relâmpagos. A imagem do “acelerador de partículas” é particularmente eficaz, porque condensa simultaneamente energia, desintegração e velocidade. O contraste com o “vinco mal amado nas calças” introduz uma nota de quotidiano que quebra a altitude metafórica, criando um efeito de choque deliberado. A segunda secção é o núcleo emocional do poema. A cena junto ao Vesúvio, a nudez, o caderno verde, as marcas nos braços — tudo compõe uma iconografia de intimidade ferida. A repetição de “um erro atroz” reforça a obsessão e cria uma cadência que se cola ao ritmo interno da secção. O fecho, com o medo de acordar e encontrar a ausência transformada em morte simbólica, é um dos momentos mais fortes do texto: a dor não é exterior, é interiorizada, alojada no próprio sujeito. A terceira secção desloca o poema para uma paisagem urbana e emocional onde tudo é latente, suspenso, à beira de acontecer. As imagens surgem como fragmentos de um mundo que perdeu o seu centro: toldos, apêndices, jardins descuidados, punhais incompletos. A enumeração cria uma sensação de inventário do caos, e o “arrepio prateado” finaliza a secção com uma nota de estranheza luminosa. A quarta secção é uma torrente de imagens, quase um catálogo febril. A criação de compósitos — cidade‑epilepsia, cigarro‑poeta, colar‑guilhotina — dá ao texto uma energia de colagem surrealista. É uma secção arriscada, porque a acumulação pode saturar, mas o ritmo interno mantém a coerência. A enumeração funciona como mantra, e a respiração do poema sustenta a intensidade. O fecho, com o “romance suicida”, é mais explícito do que o tom simbólico que domina a secção, mas não compromete o conjunto. A quinta secção é uma das mais equilibradas. O amor surge como ruína, como incêndio, como força destrutiva. A imagem da “toalha de rosto secreta” é inesperada e íntima, criando um contraste eficaz com a violência emocional que se segue. O fecho, ao tentar salvar um verso da fome da outra figura, transforma a escrita em gesto de resistência — uma tentativa de preservar algo quando tudo o resto já se desmoronou. A sexta secção assume um tom de convocação. A repetição de “tu, que…” cria um ritmo litúrgico, como se a voz chamasse os errantes, os aluados, os sem‑pátria. Há aqui uma construção de comunidade, mas uma comunidade de desamparados, de náufragos. O fecho — “Existe um lugar para nós” — funciona como respiro, oferecendo uma promessa mínima depois da exaustão acumulada. A última secção é uma implosão. Começa com descompostura divina e termina num grito intergaláctico. A sintaxe torna‑se mais dispersa, as imagens mais erráticas, mas essa desordem é coerente com o arco do poema: depois de atravessar o íntimo, o cósmico, o urbano, o amor, o caos, o texto só podia terminar num gesto de explosão e contra‑explosão. O último verso devolve ao poema a energia inicial, fechando o ciclo. “Hora de Saturno” é um poema ambicioso, convulso, marcado por uma tensão constante entre o íntimo e o cósmico. A fragmentação não é defeito: é método. Há excessos, sim, mas são excessos férteis, que contribuem para a identidade do texto enquanto objeto poético.
Criado em: Hoje 10:30:33
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