294. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Jose Carlos Freixo.
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Jose Carlos Freixo.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

06: 21 Hora de Saturno

1

O quê?!,
Sou eu, uma hora, um erguer compassivo
um punhado de relâmpagos
A vida toda num instante, e mais outro tanto de noite
Eu, um acelerador de partículas e uma coisa acelerada,
o abismo adentro e um vinco mal amado nas calças

Eu, numa hora que se faz instante
num instante que o perde

2
Levanto-me estremunhado, parece ser o meu turno,
E ateio o sol habitualmente,
trago à luz um novo dia-
-a-dia
Sob um farol de anúncio;
Estavas deitada junto ao Vesúvio semi nua, na companhia de um
caderno verde de poemas ilegíveis
Trazias nos braços as marcas de um erro atroz,
um erro atroz, a rima com voz
e uma ferida esgotada de sangue
Estiveste sempre certa pela hora de Saturno
Apetecia-te a iluminação de natal da avenida, dentro do quarto
nunca te habituaste à ideia das enxaquecas que acarretaria

Mas foram tantas as manhãs em que acordei contigo
Que sem ti já não sei como acordar sem medo
de te velar morta, em mim




3
Latente é hoje a maldição aluada
a criação das palavras, os toldos coloridos
os apêndices
duma praça primeiro mundista
Latente o vislumbre alaranjado sobre o caos,
a suspeita descarnada, ensurdecida
O fim passageiro,
O jardim descuidado
A facada de meio punhal
E Um arrepio prateado

4
diletante nas linhas, nas pontas dos dedos
a plenos pulmões
sou pela odisseia submarina, de pulsar ofegante
vazio-propulsor dum quarto-periscópio,
a cidade-hepilepsia
um cigarro-poeta
o matiz plural e a lâmina imberbe
o mergulho transeunte,
uma velocidade de rio
a solidão amovível,
um oceano que a toma
uma nudez esquiva
e mãos vasculhantes,
um irmão amanhecido no asfalto
a valsa cósmica
sirenes, alarmes
solidez mortal
esluvial, oxidante
o colar-guilhotina
uma cabeça com asas incrustadas
o voo, a escala na lua
à galáxia mais próxima
historiar um crime
indiscutível
ditar um romance suicida

5

há muito que não te posso escrever...
há muito que não há por que esperar
ou por que partir
o amor e a sua toalha de rosto
secreta;
num fogo de palha
Onde acontecem as mãos dadas
O amor desce as calçadas
E Nada faz senão morrer,
Por nada
Jovial-incendário
homicida passional

desabou sobre tudo
Abismo abaixo
perdeu os óculos de ler
Os sinais do céu

Diz-me, afinal ao que viemos todos?
Estive demasiado ocupado
A despir-me, do mundo
A entalhá-lo, absorto
Incontactável,

Quis salvar um só verso
Da tua fome, fazer tempo
Escrever-te, ultimamente

6

Tu, que não tens pátria, junta-te a mim
há lugar para ti, nesta galera setentrional
mulheres, promessas, rosas
e ventres de roseira
tu, que não tens nada a perder, junta-te a mim
há desespero por cá, novos sabores,
poemas matutinos
tu, que não sabes nada, junta-te a mim
aprende a esquecer
e a desferir golpes mortais
tu, que não encontras por que nascer, junta-te a mim
engorda as fileiras dos que a si próprios se abraçam
aluados, errantes...
tu que não encontras ninguém, vem comigo
há descaminho para ti, uma chuva gentil
páginas em branco
tu, que amas a vertigem, chega-te a mim
tenho um plano por aí, um espectáculo infindo,
Tu que não escutas ninguém, canta comigo
Existe um lugar para nós.

7
Começa com uma descompostura divina,
Engorda na pastelaria da esquina
Concretifica-se num ribombo crédulo
Silencia o filho, pródigo
Entrevirgulado,
Dissimula-se e mente furiosamente

Começa com rimas e acaba em branco
Descura o enlevo e embarca a mais longa
e desaconselhada viajem
Nós não precisamos de ajuda
oferecemo-nos há escassos segundos um ao outro
e nenhum de nós percebeu como
é que os mandriões se tornaram poetas;
A pergunta é uma só
E Preserva o pensamento fora dos eixos,
Estarei a enlouquecer?
Os psicanalistas alegam:
...devemos conhecê-lo melhor por dentro
O que traz reprimido num esquema de sobrevivência,
Sabemos ser perito em balões de ar quente
E que vive do que pode fotografar da tempestade
Acima das nuvens,
Partindo surdo e de noite apesar das ameaças da meteorologia

Começa com uma explosão e depois implode
Insustentando a pressão externa
mais pequeno, na contramão de si mesmo
menos razoável
arrasta um regimento de cavalaria
que fará actuar assim se divise o tédio
Ataca: Viva a Praça-mundis-intergalática!

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=11923 © Luso-Poemas

“Hora de Saturno” organiza-se como um corpo fragmentado em sete movimentos, cada qual com a sua própria respiração. A abertura apresenta uma voz que se define não como sujeito, mas como tempo: uma hora, um instante, um punhado de relâmpagos. A imagem do “acelerador de partículas” é particularmente eficaz, porque condensa simultaneamente energia, desintegração e velocidade. O contraste com o “vinco mal amado nas calças” introduz uma nota de quotidiano que quebra a altitude metafórica, criando um efeito de choque deliberado.

A segunda secção é o núcleo emocional do poema. A cena junto ao Vesúvio, a nudez, o caderno verde, as marcas nos braços — tudo compõe uma iconografia de intimidade ferida. A repetição de “um erro atroz” reforça a obsessão e cria uma cadência que se cola ao ritmo interno da secção. O fecho, com o medo de acordar e encontrar a ausência transformada em morte simbólica, é um dos momentos mais fortes do texto: a dor não é exterior, é interiorizada, alojada no próprio sujeito.

A terceira secção desloca o poema para uma paisagem urbana e emocional onde tudo é latente, suspenso, à beira de acontecer. As imagens surgem como fragmentos de um mundo que perdeu o seu centro: toldos, apêndices, jardins descuidados, punhais incompletos. A enumeração cria uma sensação de inventário do caos, e o “arrepio prateado” finaliza a secção com uma nota de estranheza luminosa.

A quarta secção é uma torrente de imagens, quase um catálogo febril. A criação de compósitos — cidade‑epilepsia, cigarro‑poeta, colar‑guilhotina — dá ao texto uma energia de colagem surrealista. É uma secção arriscada, porque a acumulação pode saturar, mas o ritmo interno mantém a coerência. A enumeração funciona como mantra, e a respiração do poema sustenta a intensidade. O fecho, com o “romance suicida”, é mais explícito do que o tom simbólico que domina a secção, mas não compromete o conjunto.

A quinta secção é uma das mais equilibradas. O amor surge como ruína, como incêndio, como força destrutiva. A imagem da “toalha de rosto secreta” é inesperada e íntima, criando um contraste eficaz com a violência emocional que se segue. O fecho, ao tentar salvar um verso da fome da outra figura, transforma a escrita em gesto de resistência — uma tentativa de preservar algo quando tudo o resto já se desmoronou.

A sexta secção assume um tom de convocação. A repetição de “tu, que…” cria um ritmo litúrgico, como se a voz chamasse os errantes, os aluados, os sem‑pátria. Há aqui uma construção de comunidade, mas uma comunidade de desamparados, de náufragos. O fecho — “Existe um lugar para nós” — funciona como respiro, oferecendo uma promessa mínima depois da exaustão acumulada.

A última secção é uma implosão. Começa com descompostura divina e termina num grito intergaláctico. A sintaxe torna‑se mais dispersa, as imagens mais erráticas, mas essa desordem é coerente com o arco do poema: depois de atravessar o íntimo, o cósmico, o urbano, o amor, o caos, o texto só podia terminar num gesto de explosão e contra‑explosão. O último verso devolve ao poema a energia inicial, fechando o ciclo.

“Hora de Saturno” é um poema ambicioso, convulso, marcado por uma tensão constante entre o íntimo e o cósmico. A fragmentação não é defeito: é método. Há excessos, sim, mas são excessos férteis, que contribuem para a identidade do texto enquanto objeto poético.

Criado em: Hoje 10:30:33
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