360. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Toze Ribeiro. |
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24/12/2006 19:19 De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Toze Ribeiro.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele. Dizem que normal, o natural, é ouvir gente viva. Eu considero que o normal e natural, é ouvir gente viva e Almas mortas. As Almas mortas são mais sossegadas, falam mais devagar. Falam suavemente. Não levantam a voz, não viram as costas quando não são ouvidas e raramente se zangam. Só quando levadas ao extremo, e esse extremo quase não existe, aliás, não existe mesmo! Por isso são Almas maiores. Almas pequenas são as nossas, as dos vivos. Regra geral ninguém liga aos mortos. Mas eles também se sentem sozinhos, também têm sentimentos como todas as pessoas. Mas ninguém repara neles ou lhes presta atenção. E é para chamar a atenção que começam a habitar as casas e a mexer nas coisas durante a noite. Não é para assustar, mas sim para que lhes prestem atenção, para que os ouçam. Não querem meter medo, apenas querem companhia. Tenho umas quantas Almas mortas a viver cá em casa. Só me irrito quando me escondem as chaves ou o comando da Tv, ou então quando começam com cantorias. Ao princípio atravessavam paredes e assustavam o papagaio, mas como nunca lhes dei grande importância deixaram de fazer isso. Querem, a todo o momento, a minha atenção. Habituei-os mal, julgam que tenho a vida deles. Três deles conheço-os porque fizeram parte da minha vida enquanto vivos, os outros foram chegando sem serem convidados.(Só podem ter sido convidados pelo Zé Pedro, já em vida aparecia lá em casa com gente que eu não conhecia de lado algum, e sem terem sido convidados. Enfim... Sempre que convidava o Zé P. tinha que contar com mais cinco ou seis pessoas) . Como são boas Almas, não me incomodo, mas também convém não os incomodar, por isso uso apenas o candeeiro com a luz regulada no mínimo, para não tropeçar na sala, as Almas não gostam de muita luz. Sei, que se a Alma passar muito tempo na eternidade, triste, na solidão, constantemente ignorada, quando só o que quer é ser ouvida, ou que lhe resolvam um qualquer assunto inacabado, acaba, mais tarde ou mais cedo, por se tornar mal-humorada, e nessa altura, o melhor é sair-lhe da frente, melhor ainda é sair mesmo de lá para fora!, não vá alguma coisa cair-nos em cima da cabeça. Alguns são pura e simplesmente maus, mas não tanto como os vivos. Ouço gente viva, mas sobretudo Almas mortas... Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=16139 © Luso-Poemas O texto organiza-se como uma narrativa poética em prosa, sustentada por uma voz que oscila entre ironia, intimidade e fantasia, construindo um universo onde mortos e vivos coexistem de forma quotidiana. A abertura — “Dizem que normal, o natural, é ouvir gente viva. Eu considero que o normal e natural, é ouvir gente viva e Almas mortas.” — estabelece de imediato uma inversão conceptual que define o tom do texto: aquilo que seria estranho torna-se norma, e o que é norma torna-se insuficiente. A distinção entre “gente viva” e “Almas mortas” é construída com simplicidade sintática, mas com intenção metafórica clara: os mortos são apresentados como mais pacíficos, mais atentos, mais contidos, numa oposição que funciona como crítica subtil ao comportamento dos vivos. A ortografia é, no geral, correta, embora surjam pequenas inconsistências de capitalização (“Almas mortas”, “Almas maiores”), que parecem mais estilísticas do que erros. A descrição das “Almas mortas” como seres que falam devagar, não levantam a voz e raramente se zangam cria uma personificação que aproxima o texto do fantástico, mas sem abandonar o registo coloquial. A frase “Por isso são Almas maiores. Almas pequenas são as nossas, as dos vivos.” reforça a inversão moral: os mortos, normalmente associados à ausência, são aqui apresentados como superiores em serenidade e equilíbrio. A construção é simples, mas eficaz na criação de contraste. A ideia de que os mortos se sentem sozinhos e procuram atenção introduz uma dimensão emocional que humaniza o sobrenatural, aproximando-o do quotidiano. A secção em que o narrador afirma ter “umas quantas Almas mortas a viver cá em casa” desloca o texto para um registo quase humorístico, onde o fantástico é tratado com naturalidade doméstica. A enumeração de pequenos incómodos — esconder chaves, mexer no comando da televisão, cantar — reforça o tom irónico, enquanto a referência ao papagaio assustado acrescenta uma nota de comicidade. A construção sintática é fluida, e o ritmo narrativo mantém-se consistente. A menção ao “Zé Pedro” introduz uma memória pessoal que liga vivos e mortos, criando continuidade entre passado e presente. A frase parentética é longa, mas bem estruturada, e contribui para o tom confessional. A descrição das preferências das Almas — não gostarem de muita luz, precisarem de atenção, tornarem-se mal-humoradas quando ignoradas — aproxima o texto de uma alegoria sobre carência emocional e abandono. A frase “acaba, mais tarde ou mais cedo, por se tornar mal-humorada, e nessa altura, o melhor é sair-lhe da frente” articula humor e ameaça de forma equilibrada, sem perder a coerência interna. A construção mantém correção gramatical, e o vocabulário é acessível, embora algumas expressões (“sair mesmo de lá para fora!”) reforcem o tom oral. O fecho — “Ouço gente viva, mas sobretudo Almas mortas...” — sintetiza o percurso do texto, encerrando-o com a mesma inversão conceptual que o abriu. A frase funciona como conclusão temática, reforçando a ideia de que o narrador vive num limiar entre mundos, onde o sobrenatural é tratado com familiaridade e sem dramatização. A estrutura narrativa é coerente, e o tom mantém-se constante ao longo do texto. O texto inscreve-se num estilo de prosa poética fantástica contemporânea, marcado pela fusão entre quotidiano e sobrenatural, pela utilização de humor subtil e pela construção de uma voz narrativa que trata o extraordinário com naturalidade. A linguagem é simples, mas expressiva, e a estrutura em parágrafos longos reforça o caráter confessional. A força do texto reside na capacidade de transformar o convívio com mortos numa metáfora sobre atenção, abandono e convivência humana, sem recorrer a excessos retóricos ou dramatizações.
Criado em: Hoje 7:06:50
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