51. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - JB.
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24/12/2006 19:19
De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de JB.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Já não me dói o corpo, e ainda ontem jurava não sair da cama. Os meus olhos febris, vermelhos, alumiam-se como duas candeias, a chama crepitando, desafiando o vento. Vem, digo-te outra vez, desafiando o meu corpo que jura não querer mais. Sinto o teu corpo chegar, teu cheiro baila nos teus cabelos - desalinhados, lindos; e são já mãos que rolam, bocas coladas, como se a primeira vez fosse agora. Inventamo-nos, como se nunca tivesse havido princípio, e por fim, ofegantes, doridos, extenuados do prazer, olhamo-nos no prazer da espera, de querermos esperar, porque enquanto a paixão viver, haverá sempre recomeço.
Levantas-te da cama, não como nos filmes de classe A, onde vestes sempre a minha camisa, ou te enrolas num lençol fino de cetim. O teu corpo rola magnífico quarto a fora, as tuas coxas enfrentam a penumbra que a janela deixa entrar, e sinto-te em passos pequenos, cansados. Deixo-me ficar, quieto e mudo. Não pergunto onde vais, ou o que irás fazer. A tua nudez é a resposta que já tenho, que irás voltar aos nossos lençóis, e o frio da madrugada te fará procurar o meu corpo para te aqueceres. Grito de longe: - Traz-me um copo de água. Não respondes, apenas vens, teus seios salpicados de gotas de água, do copo cheio em excesso, ou talvez no tropeço da roupa amassada, estendida pelo quarto. Afagas a minha cabeça, quase como de um doente que necessita de ajuda, e dessedento-me em ti. Depois deitas-te, como esperava, procurando-me para te aqueceres, puxando o lençol, e oferecendo tuas costas, tuas coxas, à minha vontade. Quando me mexo, dizes baixinho - pára, vamos ficar quietos, estamos tão bem...
Agarro-te, sem angústias, com o à vontade que a ternura e o carinho me ditam, sinto-te serena, doce. Como dois adolescentes, as nossas mãos brincam, percorrem-se. Murmuro um poema, esperando que a memória não voe, e te possa entregar depois. Quase adormeço, meus lábios embaraçam-se nos teus cabelos, beijam teus ombros, e voltas-te, num movimento lento, deitando teus olhos em mim, sorrindo. Resgatamos os sentidos, como se nunca antes tivessem despertado – Acordamos. E somos corpo incendiado, labirintos de novos gestos inventados, searas de trigo fresco pedindo para ser colhidos, marés de Setembro cheirando a solstício, vagas rebentando em espuma branca, chegando ao areal onde nos amamos. Depois, como em qualquer Abril, derramamo-nos em chuva quente, arrefecendo nossos corpos, permanecendo amantes para o resto desta paixão.

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=1483 © Luso-Poemas

Este é um daqueles textos que se instala logo no corpo do leitor: não pela subtileza, mas pela intensidade física e emocional que o autor escolhe assumir desde a primeira frase. A abertura — “Já não me dói o corpo, e ainda ontem jurava não sair da cama” — coloca-nos num território de fragilidade que é imediatamente contrariado pelo desejo. Há aqui um jogo entre exaustão e impulso vital que funciona bem: o corpo que dizia não querer mais é o mesmo que se reacende, quase contra si próprio.

O texto tem uma cadência narrativa, não poética, e isso dá-lhe força: não depende de metáforas ornamentais, mas de imagens concretas, sensoriais, que constroem uma intimidade vivida, não idealizada. A descrição do encontro físico é intensa, mas não cai no erotismo explícito; mantém-se num registo de proximidade emocional, onde o toque e o gesto são mais importantes do que a descrição anatómica. O autor trabalha bem essa fronteira.

A primeira grande virtude do texto é a naturalidade. O autor não tenta embelezar a cena: o quarto está desarrumado, o copo transborda, o corpo cruza a penumbra sem coreografias cinematográficas. A referência aos “filmes de classe A” é um golpe inteligente — desmonta o cliché e afirma a autenticidade da cena. É um momento de lucidez narrativa que impede o texto de se tornar kitsch.

A segunda virtude é a gestão do tempo emocional. O texto alterna entre o ímpeto do desejo e a quietude do pós-encontro, entre o corpo incendiado e o corpo que pede apenas repouso. Essa oscilação é bem construída e culmina num dos melhores momentos: “pára, vamos ficar quietos, estamos tão bem”. É uma frase simples, mas que revela maturidade afectiva — o prazer não está apenas no clímax, mas na permanência.

O final, porém, é onde o texto mais arrisca. A enumeração metafórica — “searas de trigo fresco”, “marés de Setembro”, “vagas rebentando em espuma branca” — aproxima-se perigosamente do excesso. São imagens belas, mas demasiado numerosas, quase competindo entre si. Uma escolha mais contida teria dado mais impacto. Ainda assim, a intenção é clara: traduzir o renascimento do desejo numa linguagem que ultrapassa o quotidiano.

O fecho — “permanecendo amantes para o resto desta paixão” — é feliz. Não promete eternidade, promete duração enquanto houver chama. É uma honestidade rara.

Em síntese:
Um texto vigoroso, sensorial, com momentos de grande autenticidade e um domínio eficaz da intimidade narrativa. Peca apenas por algum excesso imagético no final, mas mantém coerência emocional e uma voz madura.

Criado em: Hoje 7:32:07
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A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma
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