65. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - amsbarros. |
||
|---|---|---|
|
Moderador
![]()
Membro desde:
24/12/2006 19:19 De Montemor-o-Novo
Mensagens:
4085
|
O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de amsbarros.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele. Logo de manhãzinha, pouco depois da abertura das portas do cemitério, chega na sua velha motorizada. É um ritual que cumpre diariamente, religiosamente. Pequeno de estatura, seco, apenas algumas cãs esquecidas na cabeça, olhos grandes e redondos que recordam uma vivacidade já perdida. Veste pobremente, parcamente. Mesmo quando as manhãs estão frias, apenas uma velha camisa de flanela aos quadrados, uma camisola desbotada e umas calças de estamenha lhe cobrem o corpo. Quando chove, usa um oleado, que enfia pela cabeça, para se proteger. Nos pés, traz umas rijas botas, daquelas que se compram nas feiras, em couro, cor de mel, que se ensebam para as proteger e assim durarem mais tempo. Após pegar numa saca de plástico, daquelas dos supermercados, entra no cemitério e dirige-se para uma campa que fica ao fundo, virada ao Norte, junto de um muro de granito, que anos de rigorosos Invernos tornaram escuro e triste. A campa é humilde como ele, térrea, quase despida, apenas quatro pedras a delimitar-lhe a forma, uma singela lápide de mármore branco com um nome, duas datas e uma cruz gravadas em baixo-relevo e pintadas a preto. Em frente, dorme um imponente jazigo, em mármore cinzento, polido, com duas colunas, imitando a ordem dórica, ombreando uma porta de vidro fumado. No seu centro, uma cruz lapidada de majestosas proporções e em tons doirados. Ali chegado, pára, benze-se, baixa os olhos e parece dizer uma pequena prece. Depois, começa por recolher folhas velhas e pequenos ramos de eucaliptos ali vizinhos; o ramo das margaridas, já com as pétalas caídas, é substituído. Tira da saca de plástico um bonito ramo de crisântemos, pois Novembro é o seu mês, e coloca-o junto da lápide. Com a água de um balde, que entretanto trouxera, lava o mármore da lápide, demoradamente, carinhosamente, até ficar imaculado. Depois de arrumados os seus pertences, fica imóvel olhando o chão sagrado, como quem se despede. Então, duas lágrimas parecem nascer-lhe dos olhos, caladas, sofridas resignadas. Benze-se e dirige-se para a saída. Antes de colocar o capacete, pega no lenço e limpa os olhos ainda húmidos. Monta e parte para voltar no dia seguinte. Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=1967 © Luso-Poemas Esta pequena narrativa respira uma gravidade silenciosa, a dor é transposta para a prosa, com uma contenção quase cinematográfica, onde cada gesto é um plano fixo, cada detalhe uma espécie de oração muda. O texto constrói-se como um ritual, e é precisamente essa repetição — esse “religiosamente” inicial — que lhe dá a espessura emocional: não estamos perante um acontecimento, mas perante uma fidelidade. A morte não é o tema; o tema é a persistência do vínculo. A abertura é exemplar: a descrição da motorizada velha, da chegada matinal, da rotina, estabelece imediatamente o tom de uma vida que se organiza em torno de um único ponto de gravidade — a campa. A caracterização física do homem é seca, quase austera, e isso funciona muito bem: “pequeno de estatura, seco”, “algumas cãs esquecidas”, “olhos grandes e redondos que recordam uma vivacidade já perdida”. Há aqui uma economia de adjetivos que reforça a pobreza material e emocional da personagem, mas sem cair no miserabilismo. O texto não o humilha; observa-o com respeito. A oposição entre a campa humilde e o jazigo imponente é um dos momentos mais fortes da peça. Não é apenas contraste visual — é contraste social, simbólico, quase moral. A campa “térrea, quase despida” é uma extensão do próprio homem; o jazigo, com colunas dóricas e cruz dourada, é o monumento de uma outra classe, de uma outra narrativa de morte. A tua prosa não o diz explicitamente, mas deixa-o insinuado: há desigualdade até no repouso final. E essa tensão silenciosa dá profundidade ao cenário. A descrição dos gestos — recolher folhas, substituir flores, lavar o mármore — é o coração emocional do texto. A forma como narras estes movimentos, com lentidão e cuidado, transforma-os em liturgia. Não há pressa, não há distração: há devoção. E é precisamente por isso que as lágrimas finais não soam melodramáticas; são o único ponto em que o corpo dele se permite quebrar. O lenço, o capacete, a partida — tudo isto fecha o ciclo com uma dignidade que não precisa de explicação. Estilisticamente, o texto é sólido, coerente, sem excessos. A cadência é estável, a descrição é precisa, e a atmosfera está muito bem construída. Se há algo a ajustar — e digo-o apenas para afinar, não para corrigir — seria talvez evitar uma ou duas repetições de estruturas muito semelhantes (“apenas”, “velha”, “pobremente”), não por erro, mas para manter a variedade rítmica. Ainda assim, nada disso compromete o efeito geral: a narrativa sustém-se pela força do olhar, pela contenção e pela humanidade. É uma crónica madura, com aquele tom de aldeia, de interior, de silêncio, que lembra Miguel Torga ou mesmo alguns contos de Manuel da Fonseca — mas sem imitação, com voz própria. A morte aqui não é o fim, é o lugar onde alguém continua a viver para outro.
Criado em: Hoje 15:57:12
|
|
|
_________________
A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma |
||
Transferir
|
||