134. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - ribeiro_de_almeida.
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24/12/2006 19:19
De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de ribeiro_de_almeida.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

silêncio corre solto pelas bocas abertas do tempo
saliva
saliva que em coágulos gerais
de lágrimas antes
mas silêncio solto
e as pernas que desabam de um lado do outro
correm que em silêncio
param
antes do tempo e sempre
tão antes do tempo
que silêncio corre solto pelas bocas
daí coágulos memória viscosa antes
também solta mas não
prende assim à carne com o tempo tão solto
tão extraordinária tão
rigorosamente solto
que milhares de passos são o cieiro do tempo
estes que calcam ainda
no outro lado mas
parou
pára sempre antes
que atrás
silêncio corre solto
pelas bocas
pelo tempo

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=4470 © Luso-Poemas

O poema apresenta-se como um fluxo descontínuo, fragmentado, onde o silêncio não é apenas tema, mas matéria estrutural. A repetição insistente de “silêncio corre solto” funciona como eixo rítmico, quase como um refrão quebrado, mas a ausência de pontuação e a irregularidade sintáctica criam uma respiração entrecortada que reforça a sensação de desagregação temporal. A linguagem é deliberadamente minimalista, mas a economia verbal não impede a densidade: pelo contrário, a escassez de verbos e a predominância de substantivos isolados (“saliva”, “coágulos”, “memória viscosa”) produzem uma atmosfera de suspensão, como se o poema estivesse sempre prestes a fixar-se e nunca o fizesse.

Há, no entanto, um conjunto de problemas formais que interferem com a leitura. A ausência sistemática de maiúsculas pode ser uma escolha estética, mas a falta de acentuação em palavras como “pelo tempo#” (onde o símbolo final parece erro de digitação), ou a grafia de “cieiro” — que existe, mas é semanticamente estranha no contexto — introduzem ruído. A expressão “que milhares de passos são o cieiro do tempo” é imageticamente interessante, mas a palavra “cieiro”, associada a ferida, gretamento, dor física, cria uma metáfora abrupta que exige mais ancoragem para não soar gratuita. A frase “correm que em silêncio” contém uma construção sintáctica defeituosa: o “que” não desempenha função clara, e a frase perde precisão. O mesmo acontece em “daí coágulos memória viscosa antes”, onde a elipse é tão radical que a imagem se torna opaca, mais próxima de um erro do que de uma experimentação controlada.

Apesar disso, o poema tem uma coerência interna: o tempo é corpo, saliva, coágulo, passo, cieiro — tudo elementos orgânicos, viscosos, que se acumulam e se desfazem. A repetição de “antes” cria uma temporalidade regressiva, como se o poema tentasse sempre voltar ao ponto anterior ao próprio acontecimento. A imagem das “pernas que desabam de um lado do outro” é eficaz na sua fisicalidade, mas a sequência “param / antes do tempo e sempre / tão antes do tempo” reforça a ideia de um tempo que falha, que chega demasiado cedo, que impede o movimento. O poema vive dessa tensão entre o correr e o parar, entre o solto e o coagulado, entre o antes e o sempre.

A ausência de pontuação, embora coerente com o tom, cria momentos de ambiguidade excessiva, onde a leitura se torna mais esforço do que descoberta. A repetição final — “silêncio corre solto / pelas bocas / pelo tempo” — fecha o poema com circularidade, mas a falta de variação sintáctica reduz o impacto da repetição, que poderia ser mais incisiva se houvesse contraste ou deslocamento semântico.

No conjunto, o poema tem força imagética e uma intenção clara de trabalhar o silêncio como matéria orgânica, mas a execução sofre com erros de digitação, elipses demasiado radicais e construções sintácticas que parecem involuntárias. Com revisão mínima — não para polir o experimentalismo, mas para eliminar o ruído — o texto ganharia nitidez e permitiria que a sua densidade conceptual emergisse com mais autoridade.

Criado em: Hoje 7:17:37
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A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma
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