142. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - danielcandeias.
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24/12/2006 19:19
De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de danielcandeias.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Quando me fizeram partiram a forma
Lá no não-ser de onde fui criado
Volvi à terra arejando a proa
Para aqui tentar ser achado

E dessa forma que não há
E desse pensamento refractado
Foi meu vidro juntando bocado
a bocado para fazer gente

mas se mentindo só na mente
for enterrando o arado
talvez o sol m’alimente
e dê espaço p’r’à semente
crescer o seu bocado

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=4757 © Luso-Poemas

O poema apresenta uma ambição ontológica interessante, mas nem sempre a linguagem acompanha a profundidade que tenta convocar. A abertura, com a forma partida e o “não-ser”, tem força conceptual, embora o verso “lá no não-ser de onde fui criado” escorregue para uma abstração algo difusa; a expressão funciona mais como intenção filosófica do que como imagem poética concreta, e isso retira-lhe impacto. Ainda assim, a ideia de um sujeito que nasce sem molde é sugestiva e cria um bom ponto de partida.

A passagem para a navegação — “arejando a proa” — é uma das escolhas mais felizes do texto. A imagem é inesperada, fresca, e dá movimento ao poema. Contudo, “Volvi à terra” introduz um arcaísmo que não parece totalmente integrado no resto da linguagem; não é erro, mas cria uma oscilação estilística que pode soar a indecisão entre o clássico e o contemporâneo.

A secção do vidro é, sem dúvida, o ponto mais sólido do poema. “Foi meu vidro juntando bocado a bocado” tem uma limpidez imagética que falta a outras partes do texto. A metáfora é eficaz, visual, e carrega uma fragilidade humana bem construída. O problema surge no fecho “para fazer gente”, que é demasiado literal e quebra a subtileza que vinha a ser construída. A imagem pedia um desfecho menos explicativo, mais insinuado.

No plano ortográfico, há alguns deslizes que merecem correção. “p’r’à” não existe como forma válida e cria ruído; a contracção aceitável seria “p’ra” ou simplesmente “para a”. O uso de apóstrofos como “m’alimente” é legítimo, mas aqui parece mais um adorno do que uma necessidade rítmica, e o poema não tem um registo suficientemente arcaizante para justificar essa escolha. Não são erros graves, mas perturbam a fluidez.

A parte final, com o sol e a semente, tem uma doçura discreta, mas também uma previsibilidade que empobrece o fecho. A metáfora agrícola é eficaz, mas demasiado comum na poesia portuguesa; falta-lhe um pequeno desvio, um detalhe inesperado que lhe desse singularidade. Ainda assim, o tom é honesto e encerra o poema com serenidade, sem pretensões excessivas.

No conjunto, o texto tem momentos de brilho — sobretudo o vidro recomposto — e outros onde a linguagem se torna demasiado explicativa ou convencional. A voz poética parece mais forte quando se aproxima do concreto e do táctil, e menos convincente quando tenta elevar-se para o plano metafísico sem o suporte imagético necessário. Com alguns ajustes de precisão verbal e uma maior coerência estilística, o poema poderia ganhar uma força mais contínua e uma identidade mais nítida.

Criado em: Hoje 7:00:22
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