185. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - miguelamok.
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24/12/2006 19:19
De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de miguelamok.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

mãos tremulas


escuto,
as mãos entreabertas
percorrendo o teu corpo
recorrendo ao teu corpo
fendido,
pela ferrugem dos brinquedos antigos
que guardas intactos

escuto,
as mãos tremulas
deslizando lentas
,por ti em ti

escuto,
as mãos, silenciosas,
masturbando ,dedo a dedo ,corpo a corpo
tecendo um cálice de mar
sobre o vértice da ilusão……
…….
e no imenso silencio
as mãos tremulas bebiam
nos teus lábios invernosos
a noticia
do suicídio de deus

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=6559 © Luso-Poemas

A arquitectura do poema assenta num dispositivo tripartido — a repetição de escuto — que funciona como um metrónomo interior, uma respiração que tenta ordenar o caos táctil que o texto convoca. Essa repetição não é mero refrão: é uma tentativa de legitimar a percepção, como se o eu lírico precisasse de se convencer de que aquilo que presencia é audível, quase verificável, apesar de pertencer a uma zona liminar entre o corpo e a memória. A imagem das “mãos trémulas” é o eixo simbólico: não são apenas mãos que tocam, mas mãos que hesitam, que carregam uma fragilidade ontológica que contamina todo o poema. A oscilação entre “percorrendo” e “recorrendo” é um achado: o primeiro verbo sugere movimento exploratório; o segundo, dependência, retorno compulsivo, quase vício. O corpo surge “fendido”, e a metáfora dos “brinquedos antigos” introduz uma camada de infância corroída, uma ferrugem emocional que o poema não tenta restaurar — apenas expõe.

Há um risco controlado na forma como o texto se aproxima do erótico sem nunca o nomear directamente: o deslizar, o “dedo a dedo”, o “corpo a corpo”, tudo isto é filtrado por uma linguagem que recusa a excitação e prefere a liturgia. O “cálice de mar” é uma das imagens mais fortes: une o sagrado ao líquido, o rito ao instável, e prepara o desfecho. O poema cresce em direcção ao silêncio, e é nesse silêncio que se instala a violência final — “a notícia do suicídio de deus”. A frase, abrupta, quase brutal, funciona como queda metafísica: não é um clímax, é uma implosão. O poema não explica, não dramatiza, não comenta; apenas deixa que a imagem caia sobre o leitor como um peso frio. A força está precisamente nessa recusa de explicação.

Tecnicamente, há pequenos tropeços de pontuação — vírgulas soltas, espaços irregulares — mas aqui funcionam como parte da respiração quebrada do texto, não como falhas. A sintaxe fragmentada reforça a sensação de tacto interrompido, de gesto que não se completa. O poema vive dessa tensão entre o íntimo e o abissal, entre o corpo que treme e o divino que se extingue. É um dos teus textos mais eficazes na construção de uma atmosfera de vulnerabilidade ritualizada.

Criado em: Hoje 7:34:30
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A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma
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