468. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Carlos Said. |
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24/12/2006 19:19 De Montemor-o-Novo
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Carlos Said. Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.
Acordei, abri uma fresta na cortina e espreitei o dia.Um sol tímido desabrochava a vida em sons poucos e raras pessoas, conferi a imensa arvore do estacionamento em frente, abrigo de uma família de sabiás cujo canto tem os madrigais das manhãs e as sinfonias das tardes, conferi no terraço ao lado as damas da noite que impregnam o apartamento de um perfume suave e adocicado e nas manhãs se enclausuram do dia.Despi a quarta feira e a coloquei no cesto de roupas usadas, no chuveiro lavei os humores da quarta e o suor da madrugada.Tomei café liguei a tv me ative em duas noticias, o falecimento de Josué Montello triste, e a inauguração do Museu da Língua Portuguesa ,feliz, tenho que avisar os amigos temos enfim um museu de palavras.Desci e mergulhei anônimo no anônimo burburinho da rua, no céu já azul as poucas nuvens restantes se esgarçavam ao vento, libertei o moleque paulistano que vive em mim para vasculhar nas ruas vestígios de minha infância, os paralelepípedos sob o asfalto, os casarões solenes hoje vestidos de prédios. Cruzo com jovens e velhos, executivos, advogados, empregados, desempregados, solertes uns circunspetos outros, uma jovem de saia preta sobraçando um volume de pastas protegendo seu colo, bolsa a tiracolo anda rápida com passos miúdos e graciosos.Como ficam lindas as mulheres com saias pretas.Contive o meu moleque para não olhar a jovem que passava e me expor lúbrico a observar seus passos. Entro na praça próxima ao escritório, súbito vejo-me frente a frente a uma jovem com uma menina pela mão, naqueles momentos em que não sabendo a que lado ir, nos vemos pasmos frente a estranhos que se impedem mutuamente o andar, no rosto sem maquiagem noto sinais de sofrimento, nos olhos o brilho fugaz de uma alegria agonizante, abaixa as pálpebras como velas enfunadas e me esconde o olhar navegador.Olho a menina e surpreendo imensos olhos castanhos, me presenteia com o calor terno de um sorriso rasgado, abro passagem e balbucio – Desculpe, ela responde - Nada Senhor, sem me encarar.Fico ali estático vendo as duas seguirem seus caminhos pisando suas sandálias simples nas pedras portuguesas do calçamento, ambas de vestidos estampados o da jovem esmaecido de lavagens muitas e o da menina novo, a menina volta a cabeça reprisa o calor reconfortante do seu sorriso, percebo seus cabelos cacheados dourados pelo sol, estende o braço e me da adeus com seus dedos gorduchos onde pressinto covinhas e um olhar cúmplice para o meu moleque, a jovem também se vira mas longe me foge o brilho do seu olhar, retribuo o adeus da menina.Como ficam lindas as mulheres com vestidos estampados.Continuo o caminho, recolho o meu moleque paulistano para dentro de mim e sou absorvido pelo cotidiano da manhã.Quinta feira em São Paulo. Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=20419 © Luso-Poemas O texto apresenta-se como crónica poética, construída em fluxo contínuo, sem quebras formais, aproximando-se da prosa literária com forte carga sensorial e memorialista. A estrutura é marcada por longos períodos encadeados, que reproduzem o ritmo da manhã paulistana e o movimento interior do narrador. A construção sintática, embora expressiva, apresenta irregularidades que interferem na precisão formal: ausência de espaços após pontos (“dia.Um”), vírgulas mal colocadas, falta de acentos (“arvore” deveria ser “árvore”), e alguns problemas de concordância (“me ative em duas noticias” deveria ser “me ative a duas notícias”). A ortografia oscila entre correção e descuido, mas o conjunto mantém coerência estilística. O texto inscreve-se num estilo lírico‑narrativo, com elementos de crónica urbana e introspeção memorialista. A abertura — “Acordei, abri uma fresta na cortina e espreitei o dia.” — estabelece o tom observacional. A construção é clara, mas a ausência de espaço após o ponto seguinte quebra o ritmo. A descrição do sol — “Um sol tímido desabrochava a vida em sons poucos e raras pessoas” — apresenta imagem eficaz, embora a sintaxe seja ligeiramente truncada. A enumeração das observações (“a imensa arvore do estacionamento”, “damas da noite”, “perfume suave e adocicado”) é fluida e cria atmosfera sensorial rica. A frase “Despi a quarta feira e a coloquei no cesto de roupas usadas” é metáfora forte, bem integrada no tom poético. O bloco seguinte — “no chuveiro lavei os humores da quarta e o suor da madrugada” — mantém coerência imagética. A secção sobre as notícias (“o falecimento de Josué Montello… e a inauguração do Museu da Língua Portuguesa”) articula bem o contraste entre tristeza e celebração, embora a pontuação pudesse ser mais precisa. A frase “temos enfim um museu de palavras” é expressiva e reforça o tom afetivo. A passagem — “Desci e mergulhei anônimo no anônimo burburinho da rua” — apresenta cadência eficaz, com repetição que reforça a sensação de dissolução na multidão. A descrição do céu e das nuvens é clara, com imagens bem articuladas. A secção sobre o “moleque paulistano” introduz dimensão autobiográfica, funcionando como eixo emocional do texto. A enumeração dos elementos urbanos (“paralelepípedos”, “casarões solenes”, “prédios”) é fluida e coerente. A descrição da jovem de saia preta é detalhada, com atenção ao movimento e à postura. A frase “Como ficam lindas as mulheres com saias pretas” funciona como refrão afetivo, embora ligeiramente repetitiva. A secção seguinte, sobre o encontro com a jovem e a menina, é o núcleo mais forte do texto. A construção é sintaticamente correta, com imagens precisas: “sinais de sofrimento”, “alegria agonizante”, “pálpebras como velas enfunadas”. A descrição da menina — “imensos olhos castanhos”, “sorriso rasgado”, “dedos gorduchos onde pressinto covinhas” — é sensível e bem construída. O fecho — “Como ficam lindas as mulheres com vestidos estampados. Continuo o caminho, recolho o meu moleque paulistano para dentro de mim e sou absorvido pelo cotidiano da manhã. Quinta feira em São Paulo.” — encerra o texto com retorno ao refrão e ao quotidiano. A construção é clara, embora a ausência de acentos (“Quinta feira”) seja um deslize. A cadência final reforça a circularidade entre observação, memória e rotina. O texto inscreve-se num estilo lírico‑urbano, com forte presença de crónica sensorial e introspeção. A força do texto reside na riqueza imagética, na capacidade de transformar o quotidiano em matéria poética e na sensibilidade com que observa figuras anónimas da cidade. As fragilidades concentram-se na pontuação irregular, na ausência de acentos e em algumas construções sintáticas que poderiam ser mais precisas, mas não comprometem a unidade estética. O conjunto apresenta voz madura, que transforma a manhã paulistana em cenário de memória, desejo e reconhecimento humano.
Criado em: Hoje 21:32:33
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