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Comentário a "Curso de Estenografia", de Rogério Beça
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2/10/2021 13:11
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"Curso de Estenografia", de Rogério Beça

Atalho
percorro a geografia da pressa
e
na vez da aceleração
corto esquinas
como letras
uso a fala do bom-entendedor
de serra na mão

espero chegar ao lugar
antes de outro eu
que for em linha recta

mais do que o caminho
abrevio
o passo.

Tenho a sede do cedo
uma fome esfomeada da madrugada
um medo inefável do atraso

e de nada.



Um texto literário é sempre um espaço de aprendizagem e, por isso, faz todo o sentido o título deste poema, a lembrar o "Manual de Pintura e Caligrafia", de Saramago. Todavia, todos sabemos que essa aprendizagem é feita de forma indireta, através de sugestões e impressões pessoais que nascem uma e outra vez, graças à ambiguidade do texto.

A palavra "curso" é o primeiro exemplo das muitas ambiguidades que encontramos aqui. Se, por um lado, designa um itinerário académico, por outro, designa qualquer trajeto em termos gerais. Quanto à "estenografia", é a técnica de reproduzir por escrito algo que se escutou, de uma forma mais rápida que a escrita convencional. Estamos no domínio do desenhar da caneta pelo papel, à procura de se apropriar do real fugidio, que desaparece nas ondas sonoras.

Essa ideia de percorrer, em emergência, algo ou algum lugar está presente logo na primeira palavra do poema, "Atalho". Como nome, "atalho" indica um trilho, muitas vezes acidentado e pouco conhecido com que tentamos chegar mais rapidamente a algum lugar. Como verbo, "atalho" pode estar relacionado com o encurtamento do caminho, mas também interromper algo, fazer calar alguém. No final do poema, talvez se consiga perceber melhor esta palavra. As ideias de abreviar, de encurtar o caminho estão presentes ao longo de todo texto: "pressa", "aceleração", "abrevio", "cedo" são talvez as palavras mais óbvias neste campo lexical.

"Corto esquinas / como letras / uso a fala do bom-entendedor / de serra na mão". Nestes versos, centrar-me-ia na expressão "como letras", uma construção muito engenhosa que permite várias interpretações.

A primeira -- talvez mais óbvia -- será a de que o "eu" devora os sons e os sentidos, talvez pela sua avidez de atingir algo, talvez porque necessita deles para sobreviver, como "alimento" intelectual e onírico.

A segunda é aceitar que "como letras" se trata de um dos termos de uma comparação. Mas relativo a quê? Terá a ver talvez com as esquinas cortadas (não dobradas, como habitualmente se diz)? Ou então com a fala do bom-entendedor (para quem, diz o ditado, "meia palavra basta")? A mensagem poética será então reduzida ao mínimo, num corte custoso e certamente doloroso, di-lo a "serra na mão". Será o "eu" poético a descobrir na contenção das palavras o caminho para aquilo que persegue, para aquilo que ouve, que tem urgência em reproduzir, mas que sente fugir?

Essa ânsia irrompe na segunda estrofe, que me parece influenciada por Pessoa (a "linha recta" é uma das pistas para essa sensação, dando título a um dos seus poemas). O "eu" pressente que há algo oculto, uma "outra coisa ainda", sabendo que "essa coisa é que é linda", como noutro poema de Pessoa, intitulado "Isto". Como se esse pressentimento lhe estivesse a dizer que, noutros hemisférios do seu interior (um "outro eu"), já conhecesse esse indefinido.

Na terceira estrofe, diz-nos que não é o caminho que é encurtado, mas o passo pessoal (muito curiosa a simulação do abreviar pela interrupção do verso com enjambement no seguinte). Termina com ponto final a primeira parte do poema e seguem-se as motivações dessa urgência interior: a "sede do cedo".

"Sede" enquanto local ou enquanto secura? As duas aceções: o "cedo" (complemento de um jogo de palavras particularmente feliz) é um lugar de emergência e de desejo (assinale-se o pleonasmo "fome esfomeada"), que olha para o mundo com a inocência da primeira vez, a "madrugada" das coisas, a luminosidade que traz o "medo inefável" de que algo continue a atrasar a chegada dos seus anseios ou que traga apenas o vazio, o "nada". O espaço antes do monóstico final dá a ideia de uma hesitação (como se houvesse reticências), antes do "eu" admitir a falta de sentido, que o adjetivo "inefável" já sugerira. A este propósito, é possível sentir aqui algo de Antero de Quental que, mais de uma vez, termina os seus poemas com a referência ao nada, como nos célebres sonetos "O palácio da Ventura" ou "Oceano Nox", em que a ilusão, o entusiasmo de um ideal, rapidamente dá lugar ao vazio.

Deste ponto de vista, o "atalho" do início do poema -- entendido enquanto interrupção, silêncio forçado -- poderia ser agora lido como a premonição dessa corrida do "eu", através da poesia, em busca de um sentido que o atrai apesar de ou porque lhe foge. O poema será, então, o registo vívido dessa aventura, narrando-a com o entusiasmo amargo de quem sabe que a realidade existe, que é algo deslumbrante, que é o segredo para uma vida verdadeira, mas não está ao seu alcance.

Criado em: 30/10/2021 15:27
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