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Comentário a "utopias", de Transversal
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2/10/2021 13:11
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"utopias", de Transversal

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existem estranhos amiúde
esparzindo ócios imarcescíveis
símiles aos domingos nas cidades.

amo e odeio estas calmarias.

marulhares por perto
levam e trazem
utopias da alma hiperbórea. o mar lá está

afaga imagens aleatórias
que nada de novo escondem. fixam-me.

[enquanto se entranham]

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Percurso de leitura nº 11 (se quiser conhecer os anteriores, fica aqui o link)

Como se explica que estejamos perdidos se não somos de lado nenhum?

"Utopia" é um composto grego de dois radicais: "ou" ('não') e "topos" ('lugar'). Uma interpretação literal aponta, portanto, para um não-lugar, para uma ausência de espaço.
Se se trata de um lugar que não existe, podemos autorizar-lhe o plural? Talvez, se admitirmos uma geometria da ausência total, em que há um "lá fora" radical, a ausência de todas as presenças e até da própria ausência, uma forma particular e singular de exílio, em relação aos outros e a cada um de nós.
Um título promissor...

Antes das palavras, percorremos vários sinais gráficos, traçando manchas semelhantes a versos. Rastos de palavras que desapareceram, permanecendo apenas as pausas, os silêncios, as ausências.

"existem estranhos amiúde". Quem são estes "estranhos"? O poema não esclarece. Ou se calhar até esclarece, através sua própria essência – pois não será o texto poético o lugar (ou não-lugar, se quisermos começar a estabelecer relações com o título) onde o estranhamento, como rompimento de todas as regras, é afinal a única regra?
Etimologicamente, estranho nasceu como "extraneus", significando 'o que é de fora, o desconhecido, o não-familiar'. Novamente a ideia de um exterior a algo, que não sabemos precisamente o que é.
O que podemos já antecipar é que o poema termina com o termo que se encontra no ponto oposto – "entranhar", isto é, a ação de algo que penetra, que se impregna, que se torna parte integrante do seu objeto. E o poema é esse percurso, esse processo, de fora para dentro.

"esparzindo ócios imarcescíveis / símiles aos domingos nas cidades". Associado à palavra "domingo", o verbo "esparzir" tem qualquer coisa de religioso: lembra-nos o pároco nas cerimónias da nossa infância, com o gesto memorável de levar o hissope à caldeira e espalhar a água benta pelos fiéis. Não é difícil encontrar aqui paralelo com as palavras tornadas metáforas, esses "ócios imarcescíveis", que não perecem, que vivem em permanente ressurreição, pela exegese sempre nova que suscitam.

"amo e odeio estas calmarias" confessa o "eu" poético. Momentos de ausência, mudos, na expectativa de algo desconhecido e novo, que está "por perto", como o espírito a pairar sobre as águas, a "marulhar" antes da explosão da criação. A "calmaria" como prenúncio da "alma", como presságio do "mar" – as similitudes de som não serão certamente aleatórias...

Eis que chega a hora do movimento, hesitando entre a aproximação e distanciamento ("levam e trazem") de um lugar que não existe – as "utopias" do título – questionando a existência de um sentido, o norte que o adjetivo "hiperbóreo" parece apontar. Um mar que "lá está" – na sua evidência e também no seu mistério.

Esse mar "afaga imagens aleatórias / que nada de novo escondem. fixam-me." Pressentimos aqui uma ligação afetiva a essas "imagens aleatórias", que não escondem "nada de novo" – ambiguidade que se pode referir a uma novidade que não existe ou à repetição da própria inexistência. No entanto, são essas imagens que fixam o sujeito poético, que o observam ou que o seguram a um lugar, pela primeira vez no poema. Paradoxalmente, será esse lado arbitrário, fortuito, a tornar-se o habitat da voz poética, a sua identidade. O percurso da utopia e do vazio dá lugar ao imo secreto (entre parênteses retos) do "eu".

Como se explica que estejamos perdidos se não somos de lado nenhum?

Pela consciência de que perdermo-nos não é uma circunstância: é um estado permanente que nos dá forma e conteúdo. Que nasce pela expulsão da norma, do que é comum e natural – para, do lado de fora, como a um proscrito, nos revelar quem somos por dentro. A condição humana transfigurada em palavra.

Criado em: 29/5 14:33
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Re: Comentário a "utopias", para benjamin
Colaborador
Membro desde:
2/1/2011 20:31
De Lisboa (a bombordo do Rio Tejo)
Mensagens: 3769
Só tenho de agradecer, até porque as tuas observações deram-me que pensar.
O poema, em minha opinião é o momento em que se escreve, o segundo, o minuto, a hora, o dia, o local, entre outros, pois se o mesmo fosse escrito passados 2 segundos de certeza que teria outras palavra e claro outras interpretações. (nem imagino se fosse no dia seguinte, ou no ano seguinte…).

Apenas tenho a fazer 3 observações, a saber:

utopias e não utopia – não como sociedade imaginária (utopia), mais como algo irrealizável, sonhos (utopias)

amo e odeio – na altura despertou-me a atenção o poeta Caio Valério Catulo (Gaius Valerius Catullus, 87 ou 84 a.C. – 57 ou 54 a.C.) que vale a pena ler, fez parte dos poetas novus romanos, direi modernos, na altura, e este texto:
“Odeio e amo
Porque o faço, talvez perguntes.
Não sei.
Mas sinto que é assim, e sofro com isso.”, fez-me pensar, alterando a sequência das palavras, pois acredito que o amar vem quase sempre antes (diz-me a memória)
Aqui só tenho a agradecer à Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o futuro (pág.455 “Gozar a vida”) que me deu a conhecer o poeta Catulo e depois a ler mais alguns textos.

o mar – geralmente entra sempre nos meus textos.

Repetindo-me, acho o teu trabalho de análise aos textos, os que já li, são de excelente qualidade, explicativos e que tenho a certeza bastante apreciados pelos seus escritores/poetas.

Muito obrigado e continua.

Abraço

Ricardo Pocinho - Transversal


Criado em: 1/6 19:29
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"Floriram por engano as rosas bravas
No inverno:veio o vento desfolha las..."
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Re: Comentário a "utopias", p/ Transversal
Super Participativo
Membro desde:
2/10/2021 13:11
Mensagens: 161
Muito obrigado pelo feedback, meu caro.

Efetivamente, gostei muito do seu poema e agradeço as observações.

Cruzei-me com Catulo há muitos anos e já me tinha esquecido do "Odeio e amo". Tenho de fazer revisões da matéria dada :)

O "Rosa do Mundo" é uma obra monumental.
Há dias, folheei uma outra antologia extraordinária, mas apenas com poesia portuguesa:
https://www.wook.pt/livro/poemas-portugueses/1456867

Um abraço e continuação de boa inspiração

Criado em: 6/6 7:25
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