Subiu ao palco o actor substituto,
levava consigo a trouxa dos seus haveres
e sem ninguém contar começou a declamar:
Sou quem não devia pisar este estrado velho e poeirento
(é o que há, ripostou alguém incomodado)
E há com honra, senhor director,
que agora declamarei as últimas palavras da civilização ocidental, rica, sábia e poderosa, legítima representante de nosso senhor Jesus Cristo na Terra.
declame, homem, declame, deixe-se de outras conversas.
Pois aqui vai, exmo director da nobre companhia de teatro da excelsa cidade do Porto
Eis:
Não sou ninguém, aguardo nesta noite fria, o regresso do morto para me servir de ponto,
não porque não saiba a fala da frente para trás e de trás para a frente, mas teatro sem ponto é peça sem rumor, o velho palavreado que diz o essencial.
Sem rumor não há teatro, só mera exibição de individualidades,
vaidades vaidades, ouviu-se alguém na voz de ponto
sou a voz que impedirá que entre a vulgaridade no teatro.
sou a voz da ave morta de tanto voar.
sou a voz dos mortos que exigem água escorrendo nas sombras abrigam os animais cansados
sou o vento que me inspirará com o sopro da virtude
que o morto aqui se esqueceu
ainda quente...