Poemas : 

O substituto

 
Subiu ao palco o actor substituto,
levava consigo a trouxa dos seus haveres
e sem ninguém contar começou a declamar:

Sou quem não devia pisar este estrado velho e poeirento

(é o que há, ripostou alguém incomodado)

E há com honra, senhor director,

que agora declamarei as últimas palavras da civilização ocidental, rica, sábia e poderosa, legítima representante de nosso senhor Jesus Cristo na Terra.

declame, homem, declame, deixe-se de outras conversas.

Pois aqui vai, exmo director da nobre companhia de teatro da excelsa cidade do Porto
Eis:
Não sou ninguém, aguardo nesta noite fria, o regresso do morto para me servir de ponto,
não porque não saiba a fala da frente para trás e de trás para a frente, mas teatro sem ponto é peça sem rumor, o velho palavreado que diz o essencial.
Sem rumor não há teatro, só mera exibição de individualidades,

vaidades vaidades, ouviu-se alguém na voz de ponto

sou a voz que impedirá que entre a vulgaridade no teatro.

sou a voz da ave morta de tanto voar.

sou a voz dos mortos que exigem água escorrendo nas sombras abrigam os animais cansados

sou o vento que me inspirará com o sopro da virtude

que o morto aqui se esqueceu
ainda quente...

 
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gillesdeferre
 
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