As palavras não nos pertencem.
Atravessam a pele
como aves que transportam no bico
fragmentos de incêndio
e de neblina.
Debaixo das pálpebras
guardamos pequenos estilhaços de horizonte
a luz incompleta das coisas perdidas
a paciência das pedras voltadas para o mar.
E
quando o silêncio regressa
regressa vestido de raízes.
Então percebemos
que ninguém transporta memórias.
São as memórias que nos transportam
através daquilo que fomos
para esse lugar sem mapa
onde a esperança e o desencanto
ainda dormem sob o mesmo rumor de folhas.