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Carta Aberta a um Filho

 
Entregar um filho a Deus
Meu querido Manel,

Faz hoje um mês que partiste, e ainda não sabemos como se aprende a viver com uma ausência tão profunda. O mundo continua a girar, os dias sucedem-se, as manhãs chegam, mas dentro de nós ficou um silêncio que nenhuma palavra consegue preencher. Há dores que não cabem no peito, e a de perder um filho é, talvez, a mais profunda de todas. Sentimos que uma parte da nossa própria vida partiu contigo, deixando-nos a difícil tarefa de continuar a respirar quando o coração só deseja voltar atrás.

Partiste cedo demais, Manel. Tinhas ainda tantos caminhos por percorrer, tantos sonhos por realizar, tantos abraços por dar. Ficou para trás a tua infância, com as suas descobertas e brincadeiras, a escola, os amigos, as gargalhadas da juventude e todos os projectos que o futuro ainda guardava para ti. Ficou a possibilidade de um casamento, de uma família, de filhos que talvez um dia te chamassem pai. Ficaram os dias que não vivemos contigo, as palavras que ainda gostaríamos de te dizer e os momentos que sonhávamos partilhar. Ficou um futuro inteiro por acontecer, e essa é uma das mais dolorosas faces da tua partida.

A morte, esse negro cortejo de sombras, chegou sem pedir licença e interrompeu a tua caminhada quando ainda havia tanta vida à tua espera. E nós, teus pais, ficámos diante do mistério mais difícil de compreender: como aceitar que um filho parta antes daqueles que lhe deram a vida? Como encontrar sentido numa despedida que chega quando o amor ainda tem tanto para oferecer?

Mas a morte não levou tudo, meu filho. Não levou os teus abraços, os teus carinhos, o som da tua voz, o teu sorriso, nem a memória dos dias em que fomos felizes contigo. Tudo isso permanece guardado na nossa alma, num lugar onde o tempo não envelhece as lembranças e onde a morte não tem poder. Podemos já não tocar-te, mas continuamos a sentir-te. Podemos já não ouvir a tua voz, mas há palavras tuas que permanecerão para sempre dentro de nós.

A saudade é a presença da ausência. É o amor que fica quando os braços já não podem abraçar, quando os olhos já não podem ver e o coração continua a procurar quem partiu. É olhar para um lugar vazio e senti-lo cheio de ti. É querer contar-te uma novidade, ouvir a tua opinião, receber o teu carinho e perceber, com lágrimas nos olhos, que o amor continua a procurar o caminho para chegar até ti.

A saudade dói porque fomos felizes. Porque tivemos a bênção de te ter como filho, de acompanhar os teus passos e de fazer parte da tua história. E, apesar da crueldade da despedida, ninguém nos poderá roubar essa felicidade. Tu és muito mais do que a tua partida, Manel. És a tua infância, as tuas amizades, a tua juventude, os teus afectos e a marca profunda que deixaste em todos aqueles que tiveram a felicidade de te conhecer.

Hoje choramos o que perdemos, mas agradecemos o que vivemos. E queremos acreditar que o amor não termina quando a vida se extingue, que existe uma dimensão onde os laços verdadeiros permanecem e onde a separação não tem a última palavra.

Olhamos para Nossa Senhora e pedimos-Lhe a coragem de permanecer de pé, mesmo com o coração trespassado. Também Ela conheceu a dor de entregar um Filho. Também Ela sentiu o peso de uma ausência que parecia impossível de suportar. E é junto d'Ela que procuramos aprender a mais difícil das lições: entregar-te a Deus sem deixar de te amar, aceitar o mistério sem deixar de chorar e continuar a viver sem sentir que te abandonamos.

Porque o mais alto e doloroso patamar de ser mãe e de ser pai é, à semelhança de Nossa Senhora, saber entregar um filho a Deus e, mesmo com a alma despedaçada, escolher continuar a viver. É abrir as mãos quando o coração deseja agarrar, confiar ao Céu aquele que já não podemos proteger na Terra e compreender que seguir em frente não significa esquecer. Significa levar o filho dentro de nós, transformando a dor em coragem, a saudade em amor e a memória numa luz que nos acompanha.

E guardamos, Manel, a esperança de que a morte não seja o fim, mas apenas a fronteira entre dois mundos. Acreditamos num outro céu, onde o tempo não separa, onde as lágrimas já não são de sofrimento e onde os abraços não conhecem despedida. Imaginamos esse reencontro como uma manhã eterna, cheia de luz, em que caminharemos na tua direcção e voltaremos a sentir os teus braços à nossa volta.

Nesse dia, não haverá perguntas nem palavras por dizer. Haverá apenas o abraço que a Terra nos negou e que esperamos que Deus nos permita viver na eternidade.

Até lá, viverás em nós, meu querido Manel. Nas nossas orações, nas nossas lágrimas, nas nossas recordações e em cada gesto de amor que continuarmos a oferecer ao mundo. Pronunciaremos o teu nome, contaremos a tua história e guardaremos a tua memória, porque um filho não deixa de ser filho quando parte. Continua a sê-lo em cada batida do coração dos seus pais.


Entregamos-te a Deus, Manel, com as mãos vazias, os olhos cheios de lágrimas e o coração inteiro de amor. E depois levantamo-nos, enxugamos o rosto e continuamos a caminhar. Não porque a dor tenha terminado, nem porque a tua ausência se tenha tornado menor, mas porque o amor que nos une a ti merece continuar a iluminar os nossos dias.

Caminharemos contigo dentro de nós, sustentados pela fé e pela esperança de que, um dia, a saudade se transforme em reencontro e a distância desapareça para sempre.

Até esse dia, meu filho, serás sempre o nosso amor, a nossa saudade e a nossa eterna esperança.

Sissa e Raul Sousa Dias,
Os teus pais feridos mas Esperançosos em Deus.

(Carta escrita por Ricardo Maria Louro a pedido de Raul Sousa Dias para ser lida ma mussa de mês do filho Jovem Manuel Sousa Dias na Igreja do Espírito Santo em Évora em 22 de Outro de 2026)


Ricardo Maria Louro

 
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Ricky
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