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Comentário a "aos caídos da guerra", de RoqueSilveira
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2/10/2021 13:11
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"aos caídos da guerra", de RoqueSilveira

há no ar uma boca
com hálito de purga
que não escolhe quem levar
ao poço interior do pranto

entre quatro paredes
o linho acaricia mais um corpo nu
e as sombras somam-se
nas dunas dos dias repetidos

do ontem recortamos flores
às cegas e sem qualquer cor
como algo que ávidos colamos
(ninguém é santo)
entre a febre e um cálice de dor.

seguimos
recusando da realidade, o fim
do verso, do tom, do canto

procura-se a máscara que ajuste
o olho da providência
para tantos enganos, perdições

venham
Hórus, ou a Santíssima Trindade
porque andais, hoje
tão longe da humanidade?

-----------------------------

Percurso de leitura nº 14 (se quiser conhecer os anteriores, fica aqui o link)

Estou a acabar de ler "A guerra não tem rosto de mulher", de Svetlana Alexievich (nobel da literatura em 2015), uma obra monumental que tem como cenário a II Guerra Mundial abordada sob uma perspetiva feminina. Trata-se de um texto "coral", ou seja, uma combinação de vários testemunhos recolhidos pela autora, jornalista bielorussa, que também inclui páginas do diário que escreveu enquanto recolhia as memórias de mulheres que participaram ativamente neste conflito. Os relatos são o retrato do que o ser humano tem de mais tenebroso e, ao mesmo tempo, mais sublime. Ao lado de descrições avassaladoras da crueldade no campo de batalha e fora dele, temos momentos de grande coragem, tenacidade e ternura.

Foi por estar ainda perturbado com esta leitura que escolhi comentar este poema de Roque Silveira, sobretudo pelo título, "aos caídos da guerra". Para além do tema óbvio da guerra, há um outro elemento comum entre o poema de Roque Silveira e o livro de Alexievich. O ponto de vista não é o dos vitoriosos nas batalhas, o objetivo não é fazer o louvor dos vencedores, mas sim a procura da alma humana, que existe mesmo nos lugares mais inesperados, como um cenário de conflito militar.

A metáfora da queda tem uma longa tradição e é usada em muitos contextos diferentes. Escolhi dois deles. Por um lado, remete para os anjos caídos bíblicos, condenados eternamente pelo desafio a Deus. Por outro, também encontramos a imagem da queda na expressão "estrela cadente", referente aos astros que, penetrando na atmosfera terrestre, entram em combustão. Em ambas as situações, há implícita a ideia de condenação, como resultado de uma ousadia, da tentativa de ultrapassar limites. Veremos que, neste poema, está presente a ideia de recusa do que é material, da aparência, para se abraçar algo que vai além da mera natureza física, desejo personificado na poesia.

O poema começa com uma "boca" que apenas se revela pelo seu "hálito de purga". As palavras desapareceram, os gritos silenciaram-se. Ficou apenas a exalação de um sacrifício, de uma imolação. Agora só existe esse odor purificador, como um espírito indiferente a quem com ele se encontra, que nos envolve e arrasta "ao poço interior do pranto". A morte ronda estes versos, ou melhor dizendo, as mortes: a dos que fisicamente perderam a vida e a dos que a mantêm, mas estão presos dentro de seu próprio sofrimento.

Esse encarceramento íntimo tem continuidade na segunda estrofe. Num compartimento fechado, vemos um sudário sobre o corpo despojado de tudo o que foi e teve, numa sensualidade fria e absurda ("o linho acaricia mais um corpo nu"). A expressão "mais um" aproxima-o dos demais, a sua individualidade perdeu-se na soma das "sombras", nos "dias repetidos", associados à metáfora nítida e rigorosa das "dunas": um local desértico, sem vida, que -- permanecendo estático -- simula movimento devido à forma ondulatória da areia.

Esta simulação da existência será a memória, que aparece na terceira estrofe. Do passado, restam "flores" falsas, de papel, recortadas e coladas "às cegas", com avidez, referência porventura ao desejo amoroso, que se experimenta como uma doença que nos devora e que nos condena ao sofrimento ("entre a febre e um cálice de dor"). A palavra "cálice" ganha aqui especial expressividade, ela que tanto significado tem para o cristianismo, como metáfora da resignação a um destino superior, cujos desígnios são imperscrutáveis.

Assim sendo, a "realidade" não pode deixar de ser algo que desilude e que se recusa. Ela é o "fim / do verso, do tom, do canto". A palavra "fim" tem, neste contexto, particular ambiguidade, podendo ser interpretado como o desfecho de algo ou como o seu objetivo. No primeiro caso, o mundo exterior, na sua aparente realidade, só existe com o desaparecimento da poesia, como seu oponente; no segundo, é a sua finalidade, apontando o poder transformador da palavra poética na experiência empírica do mundo.

Na minha perspetiva, será este último o significado mais coerente com a forma como o poema termina. As duas últimas estrofes convocam o conceito do divino, associado às expressões "providência", "Hórus" e "Santíssima Trindade", que terão abandonado a humanidade -- à semelhança do grito de Cristo "Eli, Eli, lama sabactani?". Restaria ao Homem, como único meio de autodeterminação, o verbo poético (bem como a "máscara" ou "persona" que lhe está associada), o único meio com a capacidade de eternizar esta criatura frágil e transitória, através da arte.

Deixo-vos ainda duas curiosidades.
Primeiro, em "olho da providência", parece haver uma menção subtil ao "olho de Hórus" [cf. ilustração], uma imagem que ao longo de séculos foi uma espécie de amuleto, por se acreditar que teria o poder de estreitar a ligação entre o corpo e a alma.

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By Jeff Dahl - Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3224752


Em segundo lugar, a escolha de Hórus para se colocar ao lado da Santíssima Trindade não é por acaso. Muitos egiptólogos e teólogos cristãos entendem que a história e iconografia do deus Hórus influenciou, em grande medida, o cristianismo. Em ambos os casos, temos a história de alguém que lutou contra o Mal, morreu às suas mãos e ressuscitou. E assim regressamos ao título: "aos caídos da guerra".

Não poderia terminar sem transcrever um excerto da obra que referi no início e de que recomendo a leitura:
"Não escrevo sobre a guerra, mas sobre o ser humano na guerra. Não escrevo a história da guerra, mas a história dos sentimentos. Sou historiadora da alma. Por um lado, estudo um homem concreto que vive num tempo concreto, tendo participado em acontecimentos concretos; por outro, preciso de descobrir nele um homem eterno. A trepidação da eternidade."
(in A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Alexievich, editora Elsinore, 2016, pp. 21-22)

Criado em: 19/8 20:27
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Re: Comentário a "aos caídos da guerra", de RoqueSilveira
Colaborador
Membro desde:
31/3/2008 16:45
De Braga
Mensagens: 8366
Não esperava ver aqui tão sabia e generosamente um poema meu comentado. Muito Obrigada

Criado em: 26/8 8:39
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Re: Comentário a "aos caídos da guerra", de RoqueSilveira
Super Participativo
Membro desde:
2/10/2021 13:11
Mensagens: 164
Revendo os tópicos antigos deste espaço do fórum, vi que houve incentivos de vários utilizadores -- inclusivamente da RoqueSilveira -- para a elaboração de comentários "tendo em conta apenas o texto e nunca o autor".
É o que tento fazer, escolhendo poemas que, a meu ver, têm potencial interpretativo. A crítica sincera de textos sem qualidade também pode ser útil (especialmente para o seu autor), mas é uma tarefa que não me agrada e deixo para outros mais qualificados do que eu.

Criado em: 27/8 7:59
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Re: Comentário a "aos caídos da guerra", de RoqueSilveira
sem nome
Não vou pedir perdão ou desculpas por esse comentário, não, até provar que estou errada, eu só peço licença por partilhar sua página.



A crítica pode ser considerada por mim como provocação quando não vem acompanhada por uma sugestão, um exemplo claro, sem achismo. Dizer que um poema é infantil é simplesmente uma opinião pessoal, gosto, cada um tem o seu e nisso concordo com você cada um tem sua habilidade, e falo que cada um tem seu objetivo e os meus poemas não precisa de uma análise de um profissional, eu preciso e desejo comentários que venha do coração.


Criado em: 27/8 10:28
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Re: Comentário a "aos caídos da guerra", de RoqueSilveira
Colaborador
Membro desde:
31/3/2008 16:45
De Braga
Mensagens: 8366
Erotides
Não percebo a razão de vir aqui comentar nesta página se não pretende ter nada a ver com literatura. O luso-poemas é por princípio
um site literário e iniciativas como as do benjamin são bem vindas. Nem sequer quer dizer que um comentario como o do benjamin não tenha a pegada do seu coração. E isto quer seja para dizer bem, mal, goste ou não do poema. O que importa é que o comentario seja dirigido ao texto e não à pessoa. Considero que quem quer comentarios elogiosos ou carinhosos mesmos que falsos devia ir para outro site ou consultar um psicólogo.

Criado em: 28/8 14:45
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Re: Comentário a "aos caídos da guerra", de RoqueSilveira
sem nome
também eu preciso dum psicólogo... os anos passam e tu continuas com esse olhos bonitos. ó... não me admira nada que o benjamim se derreta. tens uns olhos lindos. e logicamente que fico cheio de ciúmes, mesmo, mesmo mesmo. no entanto compreendo que alguém tenha olhos e dignifique quem merece. és uma miúda... muito bonita. mas não vou perdoar o meu amigo eheh chitla, bicla e tudo. eu sempre quis esses olhos para mim. enfim. não podemos ter o que queremos... mas sim, fico feliz poeta. qualquer dia roubo-te o coração. um beijinho aos três. erotides... perdoname

Criado em: 14/10 22:15
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Re: Comentário a "aos caídos da guerra", de RoqueSilveira
sem nome
a maria! matou-se outra vez! caramba... fui eu que a matei! foi sem querer. já não se pode dizer a verdade nesta terra que as pessoas parecem toros a cair. o meu beijinho não tinha veneno. enfim, eu bem digo para não me seguirem, mas, pensam que todos imortais como eu e... enfim. ó maria (erotides) bora lá ressuscitar. ó nossa senhora das camélias...

Criado em: 19/10 14:24
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Re: Comentário a "aos caídos da guerra", de RoqueSilveira
Super Participativo
Membro desde:
4/9 12:38
Mensagens: 149
.

Meu abraço vai para alguns amigos que mesmo sem merecer eu sei que tenho a simpatia deles, mas eu gosto de abrir novos caminhos pelo mesmo rio, é como se pudesse controlar minhas emoções e como sou pecadora adoro ver as reações, kkķk, eu até fico brava por momentos, mas adoro observar, é como uma novela real, e eu até sou a bruxa, e o bonito às vezes pega pesado em suas provocações e sai correndo e volta com outro nome.
Estou um pouco cansada, é como se tivesse tomando calmante e mesmo pensando não tenho força para escrever.

Para o Alberto, abraços.

Criado em: 19/10 16:13
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Re: Comentário a "aos caídos da guerra", de RoqueSilveira
sem nome
eheh ah.. maria, se reparar bem verá que eu nunca volto com outro nome, é sempre o mesmo nome, sempre a mesma cara. um grande abraço e tudo de bom. grato...

Criado em: 19/10 16:30
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