https://www.poetris.com/
Poemas : 

Encontros e desencontros nos tempos atuais

 
Das coisas que ocorrem em dias cinzas, numa segunda de dolorosos mistérios...
Era sol e há muito que não se encontravam dessa maneira. Sempre evitaram encontros, ela principalmente. Entreolharam-se.
Nuvens se fizeram presentes e a ameaça súbita de chuva veio em forma de lágrimas.
E já não era o mesmo olhar de outrora, ela observou. Mesmo evitando o olho no olho, sentiam quando o olhar um do outro deitava-se e se deixava permanecer ali, percorrendo as mudanças, à princípio sutis, um do outro. Sem cumprimentos casuais ou efusivos. Somente um boa tarde, sem toque, sem emoção. Houve silêncio.
Chegou o mistério gozoso de uma terça-feira e as preces de todos os anjos deram continuidade.
Ah, a moça! Ela não era de esperar, detestava esperas. Só aguardava algo se houvesse um belo tesouro no fim do arco-íris. Então, de súbito, resolveu desatar os nós como numa oração. Solicitou a libertação.
Nada mais justo iniciar o discurso de si mesma, pensou. Lembrou da insônia atravessando a madrugada, do medo antecipado, o desespero sobre o inesperado... Mas naquele momento, aquele determinado momento, não sentiu-se desconfortável como no dia anterior.
Algo mudou, ela pensou.
Então desabafou todas as dores, os medos e até as mágoas do passado que ainda faziam chagas em seu coração. Esvaziou-se da tristeza que a incomodava, desaguou nele as expectativas frustradas. Sem acusá-lo, mas denotando os erros que ele necessitava enxergar. Talvez ele enxergasse. Talvez, lá no fundo, sabia-se errado, mas nunca iria admitir.
"-Eu fui tudo: início, namorada, noiva, mulher, amante, fim. Tudo e nada. Não quero ser um caso. Vê, mereço mais que isso..." Não era cobrança, era conclusão.
Ele refletia em silêncio, sem interrupções. Apenas analisando tudo que a moça falava. Ouviu pacientemente as cruzes carregadas, a entrega, o não-recíproco.
Então houve a redenção, o mistério das glórias alcançadas. Um abraço acolhedor, mas o toque tornou-se em prática do braille corporal. Ela não imaginava, mas estava se despedindo. Se permitiu ao último adeus.
Sentiu, algo havia mudado nela não importando se ele havia mudado ou não. Ela não sentia que ele a entendia, nunca a compreendeu, apenas a sentia, apenas a queria, só. Imaginou mais dele, mas sabia que a coragem era algo que à ele não pertencia. Ela queria mais, sempre queria, gostava de transbordar! Enfim... já não importava mais o passado, o presente, o futuro ou ele, ela queria viver. Terminou o que ele não tinha coragem de finalizar e despediu-se. Sentia-se cansada. Porém, havia paz.

Rooziee Oliver 2017, 28 de Janeiro


Rozana Oliver

Rooziee Oliver

 
Autor
Rooziee Oliver
 
Texto
Data
Leituras
146
Favoritos
0
Licença
Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
4 pontos
2
1
0
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
Jmattos
Publicado: 28/04/2019 20:20  Atualizado: 28/04/2019 20:20
Colaborador
Usuário desde: 03/09/2012
Localidade:
Mensagens: 16667
 Re: Encontros e desencontros nos tempos atuais
Poetisa
Ela fez o que devia ter feito! Colocou na balança os sentimentos e teve atitude!
Adorei a prosa!
Beijos!
Janna