Nos dias da minha infância,
No Morro do Caju, eu subia nos cajueiros,
Olhava pro céu, por cima dos coqueiros.
Rompia a copa do cajueiro.
Olhava para os horizontes
E via o mundo todo.
O mundo era aquilo,
Era o que os meus olhos conseguiam ver.
Nos caminhos da minha infância,
Eu via o verde em minhas mãos.
Nuvens de algodão
Realçavam as alegrias do céu azul,
Daquele mundo que existia em mim.
Quando o sol ia embora,
Vinha a lua com um sorriso sem fim.
Meus olhos viajavam
Apreciando a lua e as estrelas.
Para os meus olhos,
Não eram as nuvens que davam a sensação
De ver a lua e as estrelas em movimentação.
A inexistência de luz artificial
Iluminava a minha existência.
Essa luz esconderia a maioria das estrelas,
Enfraqueceria o elo,
Deixaria a lua com um sorriso amarelo.
Hoje quando vejo o céu ameaçado por nuvens sombrias,
Busco o céu da minha infância
Para seguir no meu caminho
Apreciando o sol que dá bom dia,
Os pássaros que cantam com alegria
E as árvores que bailam com o sopro do vento.
Fujo pra respirar aquele ar,
Corro para abraçar
O lago que me fazia saltitar.
Fecho os olhos para ver
As pedras que eu jogava,
Que faziam salto triplo na superfície da água.
Meus pés saíam do chão
E as minhas mãos socavam o ar.
No céu com a lua e as estrelas
O silêncio falava,
Os vagalumes iluminavam
E as pedras voltavam
A me transformar em um pássaro saltitante.
Agora não era a pedra na água,
Era a pedra na pedra.
Se a pedra para a água
Era magrinha e espalhada.
A pedra para pedra
Era cheinha e bem pesada.
No cenário da noite,
As pedras que saíam da minha mão
Beijavam pedras gigantes do sertão
E faíscas fascinantes iluminavam o coração.
Nos caminhos da minha infância
Eu corria olhando pro chão e o chão olhava pra mim
E passava sob os meus pés
Como se fosse uma esteira ergométrica.
Outras vezes eu olhava pro chão,
Mas não era para vê-lo ou ser visto.
Agora o chão era uma espécie de telão.
Isso em plena luz do dia
Com o sol em um céu de alegria.
Nesse cenário qual projetor conseguiria pôr
Uma imagem no chão
E nela a minha atenção?
Não, não, não!
Naquele campo que era o meu mundo
Ou no meu mundo que estava em campo
O chão era um telão para as sombras das nuvens.
Delas e atrás delas eu corria
E nelas eu via as graças do meu dia.
Hoje em dia, as crianças do meu lugar
Não estão no meu lugar,
Estão lá, mas não estão lá.
Estão no celular.
Não são livres para brincar, imaginar e enxergar.