Alguém bate à porta. Eu ignoro, feliz por permanecer só, no meu mundo.
Só meu, só eu.
Batem mais uma vez, desta vez mais alto. Irritado, vou espreitar quem é pelo buraco da porta.
É tarde, a luz da rua é escassa e deixa apenas a sombra do intruso visível. Mas eu não esperava ninguém...
Quem será, a esta hora ainda por cima?
De repente, a solidão que antes me confortava sufoca-me de uma vez, e, cuidadosamente, lentamente, abro a porta, à espera do pior.
Mas a solidão volta, e o entendimento do que se está a passar envolve-me. Estou sozinho há tanto tempo...
Pois, só podia ser.
Sou eu, a atravessar a fronteira da entrada. Eu, a olhar para mim. Só eu, como sempre.
/Texto para a aula de português acerca de um dos temas relacionados com Fernando Pessoa. Pensei em trocar "sombra" por "figura" e "visível" por "discernível", mas depois pensei que seria melhor manter a linguagem simples, tal como fazia Pessoa. Não sei como classificar este texto... se como conto ou como poema. Agradeço feedback.