Nesta campa, Avó, ficou minh’alma derradeira:
metade em mim, metade junto a ti ...
A que em teu corpo morto eu perdi
choro-a lentamente por ser a verdadeira!
A outra, que em mim vive prisioneira,
deambula sem ti, longe de si;
esperando o fim da vida, hoje aqui,
para se juntar à outra e ser inteira.
E só quando a morte vier, sem mais demora,
meu corpo serenamente dormirá junto ao teu,
unida a ti, minh'alma há-de erguer-se desse mausuléu
e aquilo que a saudade em vida nos devora
há-de encontrar no amor que não morreu
dois corpos numa campa e duas almas no céu.
(O neto que continua a caminhar pela vida, incompleto, até que a morte devolva à terra o seu corpo junto ao corpo da Avó e liberte a metade da alma que junto a ela fora sepultada e lhe faltava para a reunião eterna no céu.)
Ricardo Maria Louro