Marcha Fúnebre a uma Dita Musa
Dilacerada por um ciúme louco,
Marcada pela incerteza mórbida,
Jaz a infeliz musa em urna
De pinho nu, vestida de borel.
Perdeu-se na voragem d’ emoções,
Baniu sentimentos mais puros,
Cortejou, cortesã, poetas loucos,
Disse e desdisse versos impuros.
À vida, que lhe dizer? Teimar? Negar?
Viver? Morrer? Melhor nada! Agir…
Armar o mutismo cavaleiro de raiva
Transubstanciar sonhos em pesadelos.
E perpetuamente s’ afasta cobarde,
Imaginando suicídios espectaculares,
Perante a galhofa geral da multidão,
Culpando de loucura os amantes.
Ah, Musa! Nem o Outono te deseja
Como folha da sua ceifa renovadora,
Ofertando-te á vida nova, nutrindo-a.
Não trairá o manto invernoso protector.
Resta-te o exílio do total esquecimento,
Nenhum jazigo, sequer uma louça lápide;
Liberta-te de compromissos indesejados
De palavras, actos e juras d’ amor falsos.
Nem despeito, nem vilania, nem ódio,
(eram ais rudes tentando-te a sensatez),
Terás de quem errou na esperança vã
De poder amar e ser amado, sem tramas.
Ah, Musa! Que culto t’ aceita sacerdotisa
Se nem alma tens, sequer um coração,
Que possas ofertar em altar de Eros?
Terás, sim. Meu jurado esquecimento.
E jamais - ouve bem – matarás o amor
E a paixão, o desejo, o sorriso, o olhar,
Dos amantes eternos ligados aos dons
Da sua doação professada. Não! Jamais!
Jaz, sim, finada musa, na indiferença
Que ousaste erguer pelo tédio de ti.
Jaz musa do nada, de nenhum poeta,
Na tua profunda ignorância inspiradora!
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