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O mundo do sr. Con - quarta-feira, 04/11/2026

 
Quarta-feira, 04/11/2026
O café com leite nosso de todas as manhãs, graças a Deus e ao bom samaritano Gordilho – o pão aumentou vinte cents. A lingueta do trinco da porta da rua na pensão emperrou. As leves pontadas que sinto na região pélvica é da próstata inchando, depois que passei uma semana nessa fuleragem etílica e suspendi o genérico do Tanduo – segundo o DR. Hall (IA).
- Bom dia, poeta – saudou o serio Paulinho, o palhaço Pirulito com sua bebezinha no braço.
- Olha, pilantra é dez pilas – advertiu-o o cumpadre a caminho da lojinha no mercado, mas primeiro deixará o rango de sua madrecita na rua 23.
E se o juiz federal indeferi o meu pedido do BPC, a quem devo recorrer? Aos meios ilícitos? Uma conhecida da sra. Vince a aposentou depois de anos de recusa pelo INSS. E ainda ganharam uma bolaça do retroativo.
Dezão nas aguas desde o feriado – duas gorotinhas por dia conforme o nosso merceeiro, o bom samaritano Gordilho me confidenciou quando fui pegar o café e aproveitei para pedir-lhe uma cartela de Dortrirelax@ - e a conta aumentando exponencialmente.
Um pouco de detergente para amainar o bodum forte de urina que vinha lá do fundo.
O galo do Pet Shop clarinou na calçada e sendo desafiado pelos galos dos quintais vizinhos. A visita inesperada do Nozira, o mestre do hip-hop.
- Juvan sênior só tem um defeito – confidenciou – é muito bom, não sabe dizer não – É igual a mim.
As onze da manhã finalmente concluiu a leitura de “Alguma Coisa Mudou” de Joseph Heller – que vinha procrastinado desde junho. “Talvez agora encaro Clarice Lispector “Perto do Coração Selvagem” – será que consigo encontra-la no meio da multidão de livros confinados nas duas meias estantes."
O irmãozinho de álcool empurrando a bicicleta e chorando a perda da sua querida mãezinha no domingo. Um pombo gordo morto na beira da calçada da Praça das Sete Palmeiras, Vila Embratel – em frente no Frigo Lucio a funcionária lavava o estabelecimento.
Na pensão, um bom almoço, galinha cozida com arroz temperado e feijão branco. Achou a mestra Clarice e não perdeu tempo e voltou ao mundo de Joana. Também releu o mestre Tosto “O senhor e o servo” – um belo conto.


 
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Enviado por Tópico
efemero25
Publicado: 04/11/2026 19:54  Atualizado: 04/11/2026 19:54
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 Re: O mundo do sr. Con - quarta-feira, 04/11/2026
O cotidiano áspero da pensão ganha contornos de poesia urbana sob o olhar atento e a escrita fluida de Juvan sênior. Entre o aumento de vinte centavos no pão, o trinco emperrado da porta e o bodum que exige detergente, a vida pulsa em sua crueza e em seus pequenos milagres diários — como o café com leite garantido pela solidariedade.
O texto equilibra com maestria o peso das dores físicas e das angústias burocráticas (o temor pelo indeferimento do BPC) com a leveza do refúgio literário. A transição exata das onze da manhã, quando se fecha o denso universo de Joseph Heller para desbravá-lo em Clarice Lispector e relesse Tolstói, mostra que, mesmo confinado entre duas meias estantes, o espírito permanece livre e em constante busca. Uma crônica cirúrgica, profundamente humana e realista.

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