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Poemas : 

Viagem no vento

 
Em silêncio,
esperando pela porta fechada
que abrirá os braços para os receber,
aguardam pela passagem de um vento tubular
que os levará para onde não querem ir.

Estes olhos, conformados, realistas,
desistiram de sonhar os sonhos da infância
onde eles se perdiam no imenso mar da imaginação,
em que a alma navegava de ilha em ilha,
procurando os segredos particulares
que cada uma delas guardava
nos tesouros enterrados pelos piratas do sentir.

Em cada tesouro havia sempre um mundo novo
pleno de cores e de cheiros desconhecidos,
habitado por gente que era bonita e interessante
e de onde não apetecia sair nunca.

Por lá encontraram estes olhos outros olhos,
que procuravam olhos amigos para partilhar
estes mundos novos e alegres.

E naquele momento, o mundo foi feliz.

Mas estes olhos não estavam destinados
a ver os outros olhos a envelhecer...

Separaram-se encharcados nas lágrimas dos olhos
que se julgavam juntos para sempre e que sem querer aumentaram o tamanho do mar que um dia os uniu.

Estes olhos juraram nunca mais esquecer os olhos que partiram...

Agora, estes olhos desfocados aguardam
pelo vento metálico tubular que os levará
como folhas varridas num jardim,
sem vontade de encararem outros olhos
igualmente deslavados que estão no rosto cansado
que habita o vulto imóvel à sua frente que lhe sorri.

Com esforço reconhecem naqueles olhos que o miram,
os olhos perdidos no antigo mar das emoções.

Reconhecem os contornos ovais e a cor de avelãs
torradas pelo sol do verão, reconhecem o brilho da determinação que sempre fascinou estes olhos que olham os outros que lhe sorriem.

Mas estão diferentes, tais como estes olhos, os outros perderama inocência e a doçura que os caracterizavam tão vincadamente.
O tempo, a vida e a distância encarregaram-se de as apagar destes olhos que se olham espantados e reencontrados.

Lágrimas correm destes olhos que durante muito tempo correram como loucos procurando os olhos que agora os foram encontrar sem que eles estivem a procurá-los.

Agora é tarde para voltarem a procurarem tesouros escondidos em ilhas imaginárias, no antigo mar das brincadeiras de crianças.

O mar já não separa os olhos que sempre se quiseram encontrar...

Esse mar já não existe...


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nunorita
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 06/06/2007 16:04  Atualizado: 06/06/2007 16:04
 Re: Viagem no vento
olá,
Adorei esta viagem alucinante
jinhos


Enviado por Tópico
Vera Sousa
Publicado: 06/06/2007 16:08  Atualizado: 06/06/2007 16:08
Membro de honra
Usuário desde: 04/10/2006
Localidade: Amadora
Mensagens: 4100
 Re: Viagem no vento
Gostei imenso, está profundo.
Mas talvez nunca seja tarde... Embora o tempo passe e o mar por vezes se dilua...

Beijinhos



Enviado por Tópico
Tytta
Publicado: 06/06/2007 17:36  Atualizado: 06/06/2007 17:36
Colaborador
Usuário desde: 22/02/2007
Localidade: Portugal
Mensagens: 790
 Re: Viagem no vento
Amigo Nuno,
amei em tudo as tuas palavras!
Hoje, desculpem-me os outros poetas, este é para mim o melhor poema.
A descrição dos olhares, as lágrimas, o mar, o passado que já não volta, está mais do que prefeita!
Jinhos, Tytta



Enviado por Tópico
MariaSousa
Publicado: 06/06/2007 21:40  Atualizado: 06/06/2007 21:40
Membro de honra
Usuário desde: 03/03/2007
Localidade: Lisboa
Mensagens: 4096
 Re: Viagem no vento
Achei lindo este poema/conto.

Voltarei para reler.

Bjs


Enviado por Tópico
cleo
Publicado: 07/06/2007 13:20  Atualizado: 07/06/2007 13:20
Luso de Ouro
Usuário desde: 02/03/2007
Localidade: Queluz
Mensagens: 3857
 Re: Viagem no vento
Nem sei bem o que dizer... tenho medo de estragar!

Esses olhos que vejo
São meigos
Trazem na lembrança
Memórias de tempos idos
Da infância...
Onde o mundo dos sonhos
Era ali...naquele momento
Havia outros olhos
Que também partilhavam
O mesmo mundo
De sonhos... de encantamento
Mas o mar veio
E os olhos levou
Para outros mundos
Para outros lugares
Bem longe dos primeiros
Olhares de crianças
Que não mais se encontraram...

Beijo