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208. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - celitomedeiros.
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de celitomedeiros.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Quero uma boa poesia, ora se quero!
Como o quero-quero no arpão lhe cai
Peregrino das palavras qual ferro
Ou doces rimas que tanto sonho atrai

Não quero mudar meu amor de outrora
Mesmo alimentando um pássaro vivaz
Quero doce melodia que a palavra traz
Para encantar-me da noite à aurora

Quero rebuscar o canto das manhãs
Comer o doce das melhores maçãs
Sentir o embalo das sentenças nobres

Não quero alimentar as rimas pobres
Nem mesmo aplaudir meros acordes
Quero contemplar escritas de avelãs!

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=7464 © Luso-Poemas

Este poema assume desde o primeiro verso uma consciência metapoética clara: o sujeito não fala apenas de poesia, fala para a poesia, reivindica-a, exige-a, como quem convoca uma entidade viva. A abertura — “Quero uma boa poesia, ora se quero!” — instala um tom coloquial que contrasta com a ambição estética que se segue, criando um jogo interessante entre simplicidade e desejo de elevação. A imagem do “quero‑quero no arpão” é inesperada, quase agreste, e funciona como metáfora de captura: o poeta quer a poesia como o pássaro é colhido no instante fatal, numa tensão entre violência e necessidade. O verso “peregrino das palavras qual ferro” reforça essa dureza, aproximando o eu lírico de um artesão que trabalha o verbo como matéria bruta.

O segundo quarteto desloca o poema para um registo mais lírico, onde o amor de outrora e o “pássaro vivaz” convivem com a busca de melodia. Há aqui uma oscilação entre o concreto e o simbólico que dá ao texto uma textura híbrida: ora rústica, ora delicada. A “melodia que a palavra traz” é uma das imagens mais felizes do poema, porque sintetiza a sua intenção: a poesia como música, como alimento, como encantamento que atravessa a noite e chega à aurora. O ritmo acompanha essa intenção, com versos que fluem sem tropeços, sustentados por rimas simples mas eficazes.

O terceto seguinte amplia o campo sensorial: “rebuscar o canto das manhãs”, “comer o doce das melhores maçãs”, “sentir o embalo das sentenças nobres”. A poesia torna‑se experiência física, gustativa, quase táctil. É um dos momentos mais fortes do texto, porque o poeta abandona a abstração e mergulha no corpo, no sabor, no gesto. A associação entre fruta e palavra é antiga, mas aqui ganha frescura pela forma como é integrada no movimento do poema.

O fecho retoma o tom exigente do início: o eu lírico recusa “rimas pobres” e “meros acordes”, reivindicando uma escrita de “avelãs”. Esta imagem final é curiosa: a avelã é pequena, dura, protegida por casca — uma metáfora interessante para a poesia que se quer densa, saborosa, mas que exige trabalho para ser aberta. É um final que condensa bem o espírito do poema: a poesia como fruto raro, que não se entrega ao primeiro toque.

Tecnicamente, o texto é coeso, com rimas bem distribuídas e um ritmo que se mantém estável. Há um ou outro verso que poderia ganhar maior precisão (“peregrino das palavras qual ferro” é forte, mas talvez demasiado abrupto no contexto), mas nada que comprometa o conjunto. O poema vive da tensão entre o desejo e a exigência, entre o coloquial e o sublime, e é precisamente nessa oscilação que encontra a sua força.

Criado em: Ontem 8:20:03
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207. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - niltonmoreira.
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de niltonmoreira.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Quando numa tarde furtiva do calendário
Teu abraço ansioso me alcançar,
E eu, guerreiro vencido e sem itinerário,
Em teu coração me refugiar...
Quando teu olhar me fizer de novo respirar
O ar puro dos caminhos teus...
Quando me conduzires pelos corredores
Dos sonhos meus...
E deles me deres, enfim,
O mapa, a posse, o destino, o sim...
Quando fatalmente então me seduzires,
Envolvendo-me como ingênuo menino,
Nos laços do teu corpo quente,
Eis que inventaremos um amor
Tão exagerado e indecente,
Que talvez até se apague,
Envergonhada,
A luz do sol poente...

Mas Deus, numa benção,
Imediatamente,
Nos dará um luar e um ceu estrelado,
De PRESENTE...

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=7412 © Luso-Poemas

Este poema instala-se num território declaradamente romântico, onde o tempo deixa de ser cronologia e passa a ser expectativa. A “tarde furtiva do calendário” é uma imagem feliz porque suspende o quotidiano e cria um espaço clandestino para o encontro, como se o amor precisasse de escapar às horas oficiais para existir plenamente. O abraço que “alcança” o eu lírico funciona como força motriz do poema, e a figura do “guerreiro vencido e sem itinerário” introduz uma vulnerabilidade que contrasta com a solenidade épica da metáfora, tornando-a mais humana. O texto avança por encadeamento, sempre impulsionado pelo “quando”, que aqui funciona como um mecanismo de acumulação emocional: cada verso abre uma porta para o seguinte, como se o desejo fosse um corredor interminável que conduz ao centro do outro. A secção em que o sujeito é guiado pelos “corredores dos sonhos” é particularmente eficaz, porque transforma o imaginário interior em espaço físico, quase arquitetónico, e a entrega do “mapa, a posse, o destino, o sim” cria um crescendo que mistura erotismo, confiança e destino numa enumeração bem ritmada. A passagem para o corpo é suave, sem brusquidão, e a imagem do “ingênuo menino” envolvido nos “laços do teu corpo quente” devolve ao poema uma inocência que contrasta com a intensidade do desejo, equilibrando-o. O amor “exagerado e indecente” é assumidamente hiperbólico, e a ideia de que o sol poente se apaga “envergonhado” abraça esse exagero com naturalidade, sem cair no ridículo, porque o poema já preparou o leitor para um universo onde o sentimento é maior do que o mundo. O fecho com a intervenção divina é coerente com o tom geral: Deus não surge como figura moralizante, mas como cúmplice, oferecendo o cenário ideal para que o amor se cumpra. A imagem do luar e do céu estrelado “de presente” é simples, mas eficaz, e encerra o poema com uma nota luminosa que contrasta com a clandestinidade inicial. Tecnicamente, o texto é fluido, musical, com um uso natural das reticências que prolongam a respiração e reforçam a expectativa. Apenas duas pequenas correções ortográficas se impõem: “céu” com acento, e “bênção” na grafia atual. No conjunto, é um poema que assume sem pudor o romantismo, o excesso, a idealização, e que encontra precisamente aí a sua força: não teme ser grande, não teme ser luminoso, não teme ser sentimental. É coerente, imagético e emocionalmente contínuo, cumprindo plenamente a estética que propõe.

Criado em: Ontem 8:17:40
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206. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - pauloroberto.
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de pauloroberto.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Não venho rogar a Deus misericórdia em perder-te
Nem implorar a ti algum resquício de amor.
Se intumescido saio do meu ócio aos ares de pavor,
Não e por falta sua, menos muito por querer-te.

Se hora ergo os olhos, é sem intenção de ver-te,
Em que juntos deles caminham com total palor
Os passos meus enegrecidos nas visões de horror
A caminho do trágico destino de não ter-te!

Se, impávido desisto desse tédio de viver,
Quando a coragem de secar os olhos me toma,
Não creia nos atos descabidos que ainda podes ver,

Conquanto me despeço já do futuro que tiver!
Quando salto da janela e do medo que me doma,
Não é pra te encontrar, mas pra morrer!

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=7390 © Luso-Poemas

Este soneto trabalha a dor amorosa através de uma retórica clássica, com ecos evidentes da lírica portuguesa dos séculos XVI–XVIII, mas filtrada por uma sensibilidade contemporânea que intensifica o desespero até ao limite da autodestruição. A estrutura formal — dois quartetos e dois tercetos — é respeitada, e o poema sustenta um tom elevado, quase declamatório, que combina bem com o vocabulário arcaizante (“intumescido”, “palor”, “impávido”, “descabidos”). Há aqui uma intenção clara de recuperar a solenidade trágica da poesia antiga, mas aplicada a um sujeito moderno, emocionalmente exausto.

O primeiro quarteto estabelece a recusa: não há súplica a Deus nem ao amado. A força está precisamente nesse paradoxo — o eu lírico afirma não implorar, mas todo o poema é uma implosão emocional que desmente essa contenção. O verso “Se intumescido saio do meu ócio aos ares de pavor” é dos mais expressivos: a imagem do corpo que incha, que se deforma, traduz fisicamente o impacto da perda. É uma imagem ousada, quase grotesca, mas eficaz dentro do tom dramático.

O segundo quarteto aprofunda a alienação: “ergo os olhos, é sem intenção de ver-te”, e os passos “enegrecidos” caminham para um destino trágico. A cor escura, o horror, o palor — tudo converge para um campo semântico de morte e dissolução. A métrica aqui é fluida, mas há momentos em que o ritmo se torna mais pesado, como se imitasse o arrastar do corpo rumo ao fim.

Nos tercetos, o poema abandona qualquer contenção e assume a vertigem suicidária. A frase “desisto desse tédio de viver” é brutal na sua simplicidade, e contrasta com o vocabulário mais elaborado do resto do texto. A imagem final — o salto da janela — é construída com precisão: não há romantização, não há reencontro, apenas a afirmação seca de que o gesto não é para encontrar o outro, mas para morrer. A quebra sintática do último verso reforça o impacto.

Do ponto de vista técnico, há alguns pontos a considerar:

– “Não e por falta sua”: falta acento em “é”.
– “Se hora ergo os olhos”: “hora” deveria ser “agora” ou “se ora”, dependendo da intenção. “Hora” não funciona semanticamente.
– A métrica oscila bastante; não é um problema se não houver intenção de regularidade clássica, mas vale notar que o tom do poema sugere que talvez a regularidade fosse desejável.
– O vocabulário elevado funciona, mas por vezes aproxima-se do excesso (“intumescido”, “palor”, “impávido”, “descabidos”, “conquanto”). A densidade é coerente, mas convém vigiar para não cair no barroquismo involuntário.

No conjunto, é um soneto forte, com uma teatralidade bem construída e um desfecho que não cede ao sentimentalismo. A morte não é metáfora: é literal, seca, final. O poema assume essa violência sem hesitação, e isso dá-lhe uma autenticidade rara dentro do registo clássico.

Criado em: Ontem 8:14:20
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205. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - teresacuco.
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de teresacuco.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

O relógio da cozinha
há muito que gastou a hora de chegares
e a comida arrefeceu
e a gata cansou-se de esperar
e adormeceu na cadeira
(e tu que não vens!)
Já são horas meu amor
olhei para a mesa dez vezes
para ver o que faltava
e já gastei a rua à força de a olhar
(e ia jurar que eras tu que vinhas lá…)
mas tu não vens
é hoje que tu não vens…
e a noite já escorreu e tapou as casas
e eu sei amor eu sei
que não são teus estes passos que ouço
porque a esses eu conheço de cor
(são pausados e leves)
mas mesmo assim não resisto
e atento nesse andar
mas não …tu já não vens…
é hoje que já não vens…
e um frio gélido cai como uma nódoa
no vestido que eu ia usar…
e a pele envelhece cem anos
e todos os pensamentos me cegam
e todas as veias se secam
e todos os rios me morrem na garganta
quando os passos param
e alguém me bate à porta
e me diz que nunca mais vais voltar!

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=7330 © Luso-Poemas

Este poema trabalha a espera como corrosão — não apenas temporal, mas física, doméstica, corporal. A força do texto reside na forma como a casa se torna organismo: o relógio “gastou a hora”, a comida “arrefeceu”, a gata “cansou‑se de esperar”. Há aqui uma progressão de desgaste que começa no inanimado, passa pelo quotidiano e termina no corpo da própria narradora. A estrutura é circular, com repetições que funcionam como pulsações de ansiedade (“e tu que não vens!”, “é hoje que tu não vens…”), e que criam um crescendo emocional até ao golpe final.

A pontuação mínima e o uso de parênteses são escolhas eficazes: os parênteses funcionam como murmúrios interiores, quase confissões que a narradora não ousa dizer em voz alta. Esse recurso dá ao poema uma camada de intimidade e fragilidade que o fortalece. O verso “e ia jurar que eras tu que vinhas lá…” é exemplar: a suspensão final prolonga a ilusão, e o leitor sente o desmoronar dessa esperança.

O poema trabalha bem o campo semântico do frio e da morte: “a noite já escorreu”, “um frio gélido cai como uma nódoa”, “a pele envelhece cem anos”, “todos os rios me morrem na garganta”. São imagens fortes, coerentes entre si, que traduzem a passagem abrupta da expectativa para o luto. A imagem da nódoa no vestido é particularmente feliz — mancha o que seria um momento de encontro, transformando o desejo em luto antecipado.

Há também um domínio rítmico interessante: versos curtos, sincopados, que imitam o andar que a narradora tenta reconhecer. A quebra final — “e me diz que nunca mais vais voltar!” — é abrupta, quase brutal, e cumpre a função de rasgar o poema, como se a linguagem já não pudesse sustentar a espera.

Do ponto de vista técnico, o texto está sólido. Apenas sugeriria atenção a duas pequenas questões:
– “um frio gélido” é redundante; a força da imagem mantém‑se se escolher apenas um dos termos.
– “a pele envelhece cem anos” é eficaz, mas talvez demasiado literal dentro de um poema que trabalha tão bem imagens mais subtis; ainda assim, não compromete o conjunto.

No todo, é um poema de grande intensidade emocional, com um domínio claro da progressão dramática e da construção imagética. A espera transforma‑se em narrativa, e a narrativa em perda — sem melodrama, apenas com a precisão de quem sabe que a tragédia está no quotidiano.

Criado em: Ontem 8:11:36
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204. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - In_Loko.
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24/12/2006 19:19
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de In_Loko.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Sempre que posso vou até ao mar ao fim da tarde,
Ver o sol a deitar-se, enorme, resplandecente de brilhos a nadar,
Nas águas curvadas que fazem de tela às suas cores galantes,
Em danças de mímica que me embalam o olhar…

E se perguntar ao mar se gosta dos flocos de átomos,
Quem em si se deitam embelezando-o,
Ouço nos ruídos das ondas beijando as rochas,
A afirmação plena do sim batendo no paredão salpicando-o…

E no último olhar e aceno de despedida do sol,
Ficam lençóis de cores espalhados na água e no céu,
Tricotados pela ondulação mais calada e suave,
Que pressagia o entardecer do meu sentir de ave…

E no esbater do colorido pelo horizonte,
Os silêncios do meu pensar,
Até então muito activos,
Juntam-se às ondas que se estendem pela areia,
Em preguiça e sorrisos mansos.
Que acompanham meu andar,
Calmo e sereno do que ali deixei dos meus sentidos!...

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=7298 © Luso-Poemas

O poema constrói-se como uma contemplação prolongada do entardecer junto ao mar, e a sua força está na cadência calma, quase respiratória, que acompanha o movimento das ondas. A abertura — “Sempre que posso vou até ao mar ao fim da tarde, / Ver o sol a deitar-se, enorme, resplandecente de brilhos a nadar” — estabelece logo um cenário visual muito claro: o sol não se põe, “deita-se”, e essa escolha humaniza o gesto, tornando-o íntimo. A imagem dos “brilhos a nadar / Nas águas curvadas” funciona bem porque cria continuidade entre luz e movimento; nada é estático, tudo se dobra, se mistura, se prolonga.

A segunda estrofe introduz um diálogo subtil com o mar: “E se perguntar ao mar se gosta dos flocos de átomos / Quem em si se deitam embelezando-o”. A expressão “flocos de átomos” é curiosa — mistura ciência e poesia, e dá ao corpo humano uma dimensão quase microscópica. A resposta do mar surge não em palavras, mas no som das ondas “beijando as rochas”, o que reforça a ideia de que a natureza responde, mas à sua maneira. O verso final desta estrofe — “A afirmação plena do sim batendo no paredão salpicando-o…” — é eficaz porque transforma o impacto da onda numa espécie de linguagem física.

A terceira estrofe é talvez a mais conseguida. O “último olhar e aceno de despedida do sol” deixa “lençóis de cores espalhados na água e no céu”, e a metáfora dos lençóis funciona muito bem: é doméstica, suave, íntima, e contrasta com a vastidão do cenário. O verbo “tricotados” dá textura ao movimento da ondulação, como se o mar fosse uma artesã silenciosa. O fecho da estrofe — “Que pressagia o entardecer do meu sentir de ave…” — é mais arriscado, porque introduz uma subjetividade mais abstrata. Ainda assim, a imagem da ave sugere leveza, deslocação, talvez melancolia.

A última estrofe recolhe tudo para dentro: “E no esbater do colorido pelo horizonte, / Os silêncios do meu pensar, / Até então muito activos, / Juntam-se às ondas que se estendem pela areia”. Aqui o poema abandona a descrição e entra num registo mais meditativo. A ideia de que os pensamentos se juntam às ondas é simples, mas eficaz: dissolve-se a fronteira entre interior e exterior. O final — “Em preguiça e sorrisos mansos. / Que acompanham meu andar, / Calmo e sereno do que ali deixei dos meus sentidos!...” — fecha o poema num tom de serenidade, quase de purificação. Há um ligeiro excesso de elipse emocional, mas o ritmo lento sustenta o efeito.

No conjunto, o poema vive da harmonia entre descrição e sensação. Não procura rupturas formais nem metáforas inesperadas; aposta na continuidade, na suavidade, na fusão entre paisagem e estado de espírito. E essa coerência dá-lhe solidez.

Criado em: 18/6 7:39
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203. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - JSL.
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de JSL.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Na hora de lanchar atraquei
Meti a mão no cesto (violação)
E duas tristes palavras tirei:
O ele e o ela que poisei no chão

Misturaram-se os dois
Um e outro davam nó
Para um pouco depois
Um e outro ser um só

E o amor misturado na areia
E movediço até à exaustão
negava o mito da razão

Estavas embrulhada numa teia
De lua cheia molhada
Óh minha marmelada

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=7282 © Luso-Poemas

O poema abre com uma cena quase narrativa — “Na hora de lanchar atraquei” — que tem graça porque mistura o quotidiano com um verbo marítimo, criando logo um pequeno desvio irónico. A seguir, “Meti a mão no cesto (violação)” introduz um parêntesis inesperado, quase humorístico, que quebra a solenidade e prepara o terreno para o jogo que vem a seguir: “duas tristes palavras tirei: / O ele e o ela que poisei no chão”. Aqui o texto entra num registo mais simbólico, mas sem perder a leveza. “Ele” e “ela” tornam‑se objetos manipuláveis, quase peças de um jogo infantil, o que dá ao poema uma dimensão lúdica.

A estrofe seguinte trabalha essa ludicidade: “Misturaram‑se os dois / Um e outro davam nó / Para um pouco depois / Um e outro ser um só”. A simplicidade métrica e sintática funciona bem, porque o poema não pretende ser hermético; pretende ser direto, quase cantável. A fusão dos dois pronomes é previsível, mas eficaz, porque o texto assume a previsibilidade como parte do seu humor.

A terceira estrofe muda de textura: “E o amor misturado na areia / E movediço até à exaustão / negava o mito da razão”. Aqui o poema abandona o tom leve e entra num registo mais abstrato. A imagem da areia movediça é comum, mas encaixa no contraste com a leveza anterior: o amor que parecia brincadeira torna‑se instável, cansativo, irracional. O verso “negava o mito da razão” é o mais conceptual do poema, talvez o menos orgânico, porque se afasta da materialidade que vinha antes. Ainda assim, funciona como ponte para o fecho.

E o fecho é deliberadamente inesperado: “Estavas embrulhada numa teia / De lua cheia molhada / Óh minha marmelada”. A “teia de lua cheia molhada” é uma imagem curiosa, quase surreal, que mistura luz, água e aprisionamento. E depois surge “marmelada”, que quebra completamente o tom e devolve o poema ao humor inicial. É um fecho arriscado, porque troca a densidade simbólica por uma brincadeira sonora, mas essa quebra é coerente com o espírito do texto: um jogo entre o sério e o leve, entre o amor como mito e o amor como piada privada.

No conjunto, o poema vive dessa oscilação: começa com humor, mergulha num breve momento de densidade, e regressa ao humor. Não tenta ser mais do que é — e isso dá‑lhe autenticidade.

Criado em: 18/6 7:37
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202. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - tactos.
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de tactos.
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Sentir o vento a acariciar me a cara o corpo,
é o mesmo que sentir o frio amor que tens por mim.
Falo, escrevo e nao posso sentir mais o que vai na alma.
Pois isso irá reflectir no futuro.
Vento faca amor e palavra significados que vou sentir na pele uns tempos depois de partires.
fujo mas nao sei porque, corro mas nao sei para onde.
encurralado me irei sentir
e nao puderei fugir sem te dizer
Adoro te...

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=7214 © Luso-Poemas

O poema trabalha uma tensão entre o sensorial e o emocional, usando o vento como metáfora central. A abertura — “Sentir o vento a acariciar‑me a cara o corpo” — tem força porque começa num registo táctil, quase físico, e logo o desvia para o afectivo: “é o mesmo que sentir o frio amor que tens por mim”. A associação entre toque e frieza cria um contraste imediato que define o tom: há carinho, mas há distância; há presença, mas há desamparo.

A secção seguinte introduz uma espécie de bloqueio interior: “Falo, escrevo e não posso sentir mais o que vai na alma”. A frase é simples, mas eficaz, porque expõe a contradição entre expressão e silêncio emocional. O verso “Pois isso irá reflectir no futuro” é mais abstrato e menos poético — funciona como explicação, e explicações tendem a enfraquecer a intensidade lírica. Ainda assim, prepara o terreno para a imagem seguinte, que é mais interessante: “Vento, faca, amor e palavra significados que vou sentir na pele uns tempos depois de partires.” Aqui há uma enumeração que mistura elementos concretos e simbólicos, e a presença da “faca” ao lado do “amor” cria uma fricção produtiva. A frase poderia beneficiar de uma pontuação mais clara, mas a ideia está lá: o corpo como lugar onde o tempo deixa marcas.

A parte final aproxima-se de um registo mais confessional: “fujo mas não sei porque, corro mas não sei para onde”. A repetição funciona bem, porque reforça a sensação de desorientação. “Encurralado me irei sentir / e não poderei fugir sem te dizer / Adoro‑te…” fecha o poema num gesto de rendição emocional. É um fecho forte, embora previsível — mas a previsibilidade aqui não é defeito; é coerência com o percurso emocional que o texto constrói.

O poema, no conjunto, vive da oscilação entre o vento e o corpo, entre fuga e necessidade, entre frieza e desejo. Há imagens que poderiam ser mais lapidadas, mas a sinceridade emocional sustenta o texto e dá-lhe uma vibração própria.

Criado em: 18/6 7:35
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201. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - kyo.
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Ia perguntando por ti
às gaivotas
às palavras por escrever
aos gritos ondulados do rio
Como se não soubesse
como se não te soubesse
estavas lá
sempre
mas semana infinita
foi esta
com o tempo
escorrendo como fina areia
guerreiros exaustos
na guerra perdida

alinhando a espada
que o Dia já está
quase... quase

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=7195 © Luso-Poemas

O poema constrói-se sobre uma procura que é mais ritual do que real. O sujeito poético “ia perguntando” a entidades que não respondem — gaivotas, palavras por escrever, gritos do rio — e essa enumeração cria um arco de vozes exteriores que funcionam como espelhos da própria inquietação. Há um movimento ascendente‑descendente: céu, linguagem, água. Essa sequência dá ao início uma fluidez que prepara a entrada do verso “Como se não soubesse / como se não te soubesse”, que é o ponto de viragem. A repetição do verbo “saber” funciona como dobra semântica: não é desconhecimento, é insistência emocional, quase uma recusa em aceitar o óbvio.

A secção intermédia introduz a sensação de desgaste. “Semana infinita” é uma expressão simples, mas ganha densidade com a imagem do tempo como “fina areia”, que aqui não soa a cliché porque aparece depois de versos curtos, quase exaustos, que lhe dão contexto. A metáfora dos “guerreiros exaustos / na guerra perdida” é mais convencional, mas encaixa bem no tom geral: não pretende inovar, pretende transmitir a fadiga de forma direta, sem ornamento excessivo.

O fecho é o gesto mais interessante. “Alinhando a espada / que o Dia já está / quase… quase” desloca a espada do campo bélico para o campo da resistência quotidiana. Não é arma, é eixo. O uso das reticências, que muitas vezes pesa, aqui funciona porque prolonga o ritmo e deixa o poema suspenso num limiar — o dia que chega, mas ainda não. O poema termina no “quase”, e isso dá-lhe uma respiração aberta, uma espécie de promessa adiada.

Criado em: 18/6 7:31
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200. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - mjoao.
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Meu pequeno anjo de asa
vermelha
de salpicada tinta permanente
negra
que já libertas o guerreiro no
poema.
Nos poetas filhos do deus.
ateus.
Atroz o vôo.
Atrás vou eu.
Meu pequeno anjo de asa vermelha
que rasgas o arco na flecha, iris do mel.
Da abelha aflita.
Meu pequeno anjo
sem pena
na asa nua. tua
já vai alto o amanhã
meu pequeno anjo de asa pousada
que me desliza na mão
quente
de fósforo sem caixa
onde te guarde meu pequeno anjo
Voa
Voa meu pequeno anjo
que já não conto
os segundos seguidos que já não estão.
que já pressinto a hora.
lentamente. asinha na asa

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Este poema constrói-se como uma invocação fragmentada, quase litânica, dirigida a uma figura ambígua — o “pequeno anjo” — que oscila entre o sagrado, o bélico e o orgânico. A força do texto reside precisamente nessa oscilação: o anjo não é uma entidade estável, mas um símbolo em metamorfose constante. A repetição insistente de “meu pequeno anjo” funciona como refrão afectivo, mas também como âncora rítmica que organiza o poema em ondas sucessivas.

A abertura — “Meu pequeno anjo de asa / vermelha / de salpicada tinta permanente / negra” — é eficaz porque fragmenta a imagem em cortes verticais. Os enjambements criam uma sensação de desdobramento visual: a asa vermelha, depois a tinta negra, depois a permanência. A cor é aqui um elemento estrutural, e o contraste vermelho/negro instala desde cedo uma tensão simbólica entre vida e sombra, sangue e tinta, pureza e mancha. A expressão “que já libertas o guerreiro no / poema” introduz uma dimensão metapoética interessante: o anjo é também o agente que liberta o guerreiro, e o campo de batalha é o próprio poema. Esta autorreferencialidade é um dos pontos fortes do texto.

A sequência “Nos poetas filhos do deus. / ateus.” é um dos momentos mais ousados. A quebra abrupta entre “deus” e “ateus” cria um jogo fonético e semântico que desestabiliza o leitor. Há aqui ironia, mas também uma reflexão sobre a condição do poeta: filho de um deus que não reconhece, ou que não existe. A concisão destes dois versos é poderosa.

“Atroz o vôo. / Atrás vou eu.” é outro par bem conseguido. A aliteração entre “atroz” e “atrás” cria uma ligação sonora que reforça a relação simbólica entre o anjo e o sujeito poético: o anjo voa, o sujeito segue, mas sempre em atraso, sempre na sombra. A economia verbal é exemplar.

O bloco seguinte — “que rasgas o arco na flecha, iris do mel. / Da abelha aflita.” — introduz uma imagem inesperada. A “íris do mel” é uma metáfora original, embora ligeiramente hermética; a associação à abelha aflita cria uma tensão entre doçura e perigo, mas a ligação sintáctica é abrupta, quase brusca, o que pode ser intencional para reforçar a estranheza.

A secção “Meu pequeno anjo / sem pena / na asa nua. tua” trabalha bem a ambiguidade entre “pena” enquanto pluma e enquanto sentimento. A ausência de pena torna a asa nua, vulnerável, mas também mais crua. O deslizamento de “nua” para “tua” é um gesto sonoro interessante, embora arriscado: cria um eco íntimo, mas pode soar demasiado directo.

O verso “de fósforo sem caixa / onde te guarde” é um dos mais fortes do poema. A imagem é inesperada, quase surreal: guardar um anjo num fósforo sem caixa é impossível, e é precisamente essa impossibilidade que dá força ao verso. É uma metáfora de fragilidade extrema, de algo que se quer proteger mas que não tem lugar onde caber.

A repetição final — “Voa / Voa meu pequeno anjo” — funciona como clímax emocional, mas o poema ganha densidade sobretudo nos versos seguintes: “que já não conto / os segundos seguidos que já não estão.” Aqui há uma reflexão sobre o tempo perdido, o tempo que já não se mede porque já não existe. O fecho — “que já pressinto a hora. / lentamente. asinha na asa” — é enigmático e eficaz. “Asinha na asa” é uma expressão que cria um eco interno, quase infantil, mas que encerra o poema num sussurro, num gesto de diminuição, como se o anjo se recolhesse dentro da própria asa.

Formalmente, o poema aposta na fragmentação, no verso curto, na quebra sintáctica e na repetição. A irregularidade é intencional e serve o tom de invocação. Há momentos de grande força imagética e outros de opacidade, mas a opacidade aqui não é defeito: faz parte da atmosfera simbólica que o poema constrói.

Em síntese: trata-se de um texto que vive da tensão entre o sagrado e o terreno, entre o anjo e o poeta, entre a cor e a sombra. Os melhores momentos surgem nas imagens inesperadas e nos cortes abruptos. A linguagem é inventiva, por vezes hermética, mas sempre coerente com o universo simbólico que convoca.

Criado em: 17/6 7:43
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199. A Crítica Poética segundo a Inteligência Artificial - Hugo Cabelo.
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O texto que se segue foi o primeiro do Luso-Poemas (pelo menos o primeiro a constar das listas), de Hugo Cabelo.
Vamos ver o que nos diz a Inteligência Artificial acerca dele.

Em mim e no que me enleia
É tudo vivo, vermelho.
De um sangue tão vivo
Que tudo e todos permeia.

Um vermelho sujo de ira,
Preenchido de raiva
Que apanhei por aí.
Nasce em mim o Sol.

Põe-se em mim o Sol
E o vermelho é vivo,
Tudo é vivo aqui,
Em mim e ao meu redor.

De um vermelho tão doce!
E tão fogoso também!
Como se todo eu tivesse sido posto a arder
E todo eu sou, de repente,
Um sagrado coração.

Nada... Nada...
Nada!
Nada disto sou,
Sou tudo, menos isto!
Isto, emano, irradio.

Acabo por encontrar diminuto
Em evidência por se destacar de tudo
Um quase nada;

E um pouco mais de nada
Eu seria o vazio!

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Este poema organiza‑se em torno de um campo cromático único — o vermelho — que funciona como eixo simbólico, emocional e imagético. A repetição insistente do termo cria uma espécie de pulsação interna, como se o texto respirasse ao ritmo da cor. O vermelho aqui não é apenas cor: é sangue, ira, fogo, sacralidade e, finalmente, vazio. O percurso do poema é, portanto, um arco que vai do excesso ao quase‑nada.

A abertura — “Em mim e no que me enleia / É tudo vivo, vermelho.” — estabelece de imediato uma fusão entre sujeito e ambiente. O verbo “enleia” é uma escolha feliz: sugere enredamento, captura, mas também sedução. A frase “É tudo vivo, vermelho” tem força, mas a repetição de “vivo” ao longo do poema, embora coerente, corre o risco de perder impacto pela insistência. Ainda assim, a ideia de permeabilidade — “Que tudo e todos permeia” — reforça a expansão do vermelho como força invasiva.

O segundo bloco introduz a dimensão emocional: “vermelho sujo de ira”, “preenchido de raiva”. Aqui o poema aproxima‑se de um léxico mais previsível, mas recupera intensidade com a frase “Nasce em mim o Sol.” A imagem é forte, porque desloca o foco do sangue para a luz, mantendo a cor, mas alterando o símbolo. O verso seguinte — “Põe-se em mim o Sol” — cria um paralelismo eficaz, quase litúrgico, que dá ao poema um movimento de ciclo, de respiração cósmica.

O terceiro bloco é o mais imagético: “Como se todo eu tivesse sido posto a arder / E todo eu sou, de repente, / Um sagrado coração.” Aqui o poema atinge o seu ponto mais alto. A imagem do “sagrado coração” é carregada de tradição iconográfica, e a sua inserção num contexto de fogo e excesso dá-lhe uma força simbólica inesperada. É um momento de elevação, quase místico, que contrasta com a secura do bloco final.

A secção seguinte — “Nada... Nada... / Nada! / Nada disto sou” — introduz uma quebra abrupta, quase teatral. A repetição de “Nada” funciona como martelo rítmico, mas também como negação radical do que foi afirmado antes. Este contraste é eficaz: o poema desmonta a própria construção simbólica que vinha erguendo. A frase “Sou tudo, menos isto!” é forte, mas ligeiramente genérica; no entanto, o verso seguinte — “Isto, emano, irradio.” — recupera densidade ao transformar o vermelho numa energia emanada, não numa identidade.

O fecho — “Acabo por encontrar diminuto / Em evidência por se destacar de tudo / Um quase nada; / E um pouco mais de nada / Eu seria o vazio!” — é um dos momentos mais interessantes do poema. A ideia de “quase nada” como entidade que se destaca é paradoxal e eficaz. O ritmo desacelera, a sintaxe alonga-se, e o poema termina num ponto de rarefacção extrema: do excesso cromático ao vazio absoluto. Esta trajectória é coerente e bem construída.

Do ponto de vista formal, o poema alterna versos curtos e médios, com rimas ocasionais e discretas. A irregularidade métrica não prejudica o ritmo; pelo contrário, reforça a sensação de fluxo emocional. A repetição é usada como técnica de intensificação, embora por vezes se aproxime do excesso. O campo lexical é coeso, mas poderia beneficiar de maior variedade imagética em alguns momentos intermédios.

Em síntese: o poema é forte quando trabalha o vermelho como símbolo múltiplo e quando arrisca imagens de grande carga (o “sagrado coração”, o nascer e pôr‑se do sol dentro do sujeito). É menos eficaz quando recorre a expressões mais genéricas (“preenchido de raiva”, “sou tudo, menos isto”). O arco que vai do excesso ao vazio é bem conseguido e dá ao texto uma estrutura interna clara e expressiva.

Criado em: 17/6 7:41
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