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Comentário a "Confissão", de Mr. Sergius
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"Cena cinco (Epílogo) - Confissão", de Mr. Sergius

Ao longo da muralha das palavras obscuras que nos cercamos
Haverá outras tão mais frágeis, menos ilegíveis a nos proteger
Outras cristalinas como o som do violino, o barco em partida
Haverá umas ditas surdamente, absurdamente, surda e mente
O amor desfeito gera a solidão, braços abertos sem o abraçar

Pois a nossa sina é escrever, se oportuno, sonhar além do azul
Meus olhos fechados guardam tua imagem, teu corpo e figura
Sorvo o ar, teu perfume é tão real que minha face transfigura
No perigo de tua ausência, não me passa o lasso esquecimento
Mas o receio de não estar presente, quando florirem os lilases

Sigo a caminho do mar, nestes caminhares. Assim o crepúsculo
A adormecer os girassóis, cantará uma canção para vires aqui
Vou te entregar estes versos, desalojados das hiantes certezas
Vou te convidar para bailar em silêncio, acender o candelabro
Esculpir um lírio, uma colcha dos retalhos de tanta lembrança

Sou quem sou por todo assombro que passei, assim estou aqui
Para abrir janelas, deixar o sol entrar, entornar fora o veneno
E, arrefecida essa febre, jamais divisar nossos rostos solitários
Nessa pálida aflição escarlate que todos os ardis construíram
Ter a alegria única de náufragos ao alcançar a margem segura

Estar a teu lado e jamais permitir dias ausentes sem propósito
Levantar a fronte e amar fazendo cada minuto valer uma vida


Percurso pessoal de leitura nº 5 (link)

O título deste poema aponta para uma dimensão teatral, através da palavra "cena", tendo como antecedentes outras quatro partes, cujos "bastidores" são apresentados num comentário do autor, que pode ser consultado acedendo ao texto original, cujo link está identificado antes da transcrição do poema.
A cena clássica é aquela em que se verifica a entrada ou saída de atores. Neste caso, trata-se de mudanças no próprio "eu", que recorda o passado, perdoa-o e perdoa-se, arrepende-se, aceita o valor da experiência como fonte de inspiração e reconcilia-se com a vida pelo amor.

Este epílogo é designado como "confissão", um termo que aponta para a exposição de sentimentos e não só: lembra-nos imediatamente o sacramento religioso da reconciliação, como se estivesse indiretamente a referir que aquilo que o poema irá apresentar desdenha de quaisquer padrões morais ou sociais.

Dentro dessa lógica, começa com um verso que, à primeira vista, parece uma fuga à concordância natural do verbo com o seu sujeito -- as "palavras obscuras" não nos cercam, mas sim "nos cercamos", como que a sugerir que esse "nós" e as palavras se fundem, como se a linguagem poética fosse essa muralha que circunscreve a existência, dando-lhe identidade e protegendo-a.

Nem sempre as palavras têm essa força: muitas vezes são demasiado compreensíveis ("menos ilegíveis"), mais banais, ou então demasiado cristalinas (temos de admitir que o "som do violino" e o "barco em partida" são imagens que, de tanto serem usadas em poesia, perderam um pouco do seu mistério).

O jogo de palavras do quarto verso acrescenta uma nova ideia, ligada às anteriores: de que a linguagem se manifesta de forma discreta ("surdamente", com pouco ruído) e, ao mesmo tempo, ilógica ("absurdamente") e enganadora ("surda e mente"). Estes vetores serão desenvolvidos na estrofe seguinte.
Esta primeira estrofe termina, fazendo a articulação com o tema das cenas/poemas anteriores, o amor contrariado pela separação.

Segue-se-lhe uma explicação: à desilusão sucede-se o ato de criação literária (um "sonhar além do azul"), que não é uma opção, mas um verdadeiro destino, que tem início com a recordação.

Não há escrita sem memória. O "eu" recorda o "tu", a sua imagem, corpo e figura. Parece que há aqui alguma redundância, mas é apenas aparente.
A palavra "imagem", etimologicamente, tem relação direta com o verbo imitar, ou seja, sentimos por aqui a representação subjetiva da realidade, não a própria realidade.
Quanto à palavra "corpo", remete para tudo aquilo que ocupa um espaço, aquilo que empiricamente vivenciamos, a física da nossa pele, carne e osso.
Relativamente a "figura", tem a mesma origem do verbo "fingir", ou seja, corresponde à ideia de transformação de algo, porventura de forma enganadora, ilusória.
Associando as ideias destas três palavras, temos uma assunção do "tu" pela memória como algo simultaneamente concreto e abstrato, nítido e distorcido, verdadeiro e falaz.

Os últimos dois versos da segunda estrofe vêm na sequência destas ideias. "No perigo de tua ausência, não me passa o lasso esquecimento" é um dos versos mais melódicos do poema — temos aqui a "ausência" (perigosa, como se pode esperar da experiência do vazio emotivo), mas ao mesmo tempo a presença (um odor que permanece, "tão real"). Daí que o "esquecimento" não possa ser completo, é algo "lasso", cansado, melancólico, que não passa.

Finalmente um dos meus versos preferidos do poema: "Mas o receio de não estar presente, quando florirem os lilases". A que se referirão os lilases? Há quem diga que o lilás e o violeta são os pigmentos mais raros na natureza e que, por isso, são associadas à inocência, à espiritualidade e à tranquilidade. Em alguns casos, é uma cor utilizada para manifestações de luto. Haverá aqui alguma referência à morte física — ou será a interior?

Começa a terceira estrofe com a ideia de um caminho. Achei especial interesse à forma "caminhares". Será o simples plural do infinitivo utilizado como nome? Ou será a segunda pessoa do infinitivo pessoal, a sugerir que o "eu" acompanha ou persegue um "tu"?

A caminhada avança crepúsculo dentro e chega o momento do adormecimento, dando lugar a uma canção que convida ao encontro. Os seus versos são "desalojados", perderam as suas "certezas", que eram "hiantes" — um adjetivo que vem do verbo latino "hiare", que quer dizer "abrir completamente", "abrir a boca de espanto".
Esse espanto revela-se também no silêncio que acompanha mais convites: para dançar, para iluminar, para esculpir um lírio (símbolo da inocência, como os lilases — lembremo-nos da advertência bíblica "Olhai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam...").

Se associamos anteriormente o adjetivo "hiante", à admiração, temos agora, no início da quarta estrofe, o "assombro" — uma das características do Sublime, categoria estética que vai para além do Belo, traduzindo-se nessa espécie de confronto do espectador / leitor com a grandiosidade de um objeto ou de um ser que se contempla / escuta / lê. Observar o abismo ou as alturas é também observar a nossa pequenez, é encontrar uma identidade ("sou quem sou", "assim estou aqui"). Depois do desespero, vem a redenção: a luz que entra e que expulsa o "veneno", que cura a "febre".

"Nessa pálida aflição escarlate que todos os ardis construíram / Ter a alegria única de náufragos ao alcançar a margem segura" — por mim, o poema terminaria aqui, no fim da viagem do náufrago que é também o princípio de uma nova condição: a de sobrevivente.

(Os últimos versos, a meu ver, são demasiado "legíveis" e "cristalinos", para usar os mesmos termos do sujeito poético no início do poema. No entanto, se é certo que a poesia reclama a ambiguidade e originalidade constantes, a vida real tem outro tipo de exigências. Que podem ser o simples facto de estar ao lado de alguém e encontrar nesse momento uma felicidade que o silêncio transmite melhor que qualquer poema.)

Criado em: 24/12 14:23
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Re: Comentário a "Confissão", de Mr. Sergius
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14/8/2018 20:45
De Luxor (Egito) / काठमाडौं (Nepal)
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Antes de tudo, meus agradecimentos ao Benjamin. Sempre tive a vontade de saber como um leitor não eventual, mas aparelhado de diversos dotes de poeta, poderia compreender um poema desta carga surreal.
Devo dizer que a série das Cenas Poéticas, composta de 5 poemas/cenas, tem na sua concepção uma forte carga surreal no sentido que as ideias fluem sem regramento para expor uma ideia: Cena 1: Do momento em que o poeta se depara com o abandono, que não foi voluntário, mas se mostra inaceitável e o poeta se revolta contra o imutável (É quando todo ódio se multiplica nos quadrantes / Qual o gérmen a crescer no ventre da escuridão) Compreende então, mas só vai se concretizar na Cena 5, o valor do perdão a si e ao destino.
Cena 2: Nessa cena o poeta mostra todo o arrependimento por todos os equívocos que cometeu na busca de substituir (repor) alguém que era insubstituível (como todos são). Mostra o reconhecimento desses equívocos (Na minha busca insana e impensada, sei que feri corações / Que a minha solidão interior, teceu solidões ao meu redor).
Cena 3: No meio do caminho dessa busca de reencontrar o amor, o poeta mostra que a vontade ter alguém igual a quem perdeu para a morte, se prendeu em detalhes (Há vezes que viver é contracenar com uma imensa solidão / Há vezes que minha voz te busca meio à vastidão da noite) chegando à pessoa errada, por quem acabou sofrendo. Essa busca enfim vai cessando e a lucidez deve chegar (Deixo rastros de sangue que meu peito desvairado sangrou / Há vezes que penso isso era amor, mas sei que era cegueira).
Cena 4: Afinal o poeta descobre que pode e deve encontrar uma outra pessoa, que não se pareça em nada com sua amada morta se pretende ser feliz no amor. Essa descoberta o leva (permite) a conhecer (que conheça) uma mulher sem querer ou buscar ou esperar que nela haja algum traço de seu grande amor do passado. (O destino, afinal, abriu com uma mão ruim. E é a minha vez / Basta de ter tudo corrompido, surreal, prisioneiro do chão) E é assim que chega a amar verdadeiramente de novo.
Assim, chegamos aqui, na Cena 5 e neste trabalho primoroso feito pelo Benjamin, como já mencionei. O poema surrealista - aliás o surrealismo - outorga ao, in casu, leitor a possibilidade de ser co-criador da obra. Assim vejo colocações, que pode ser que não estivessem dentro do projeto mental da criação, mas que perfeitamente seriam bem recebidas como uma das alternativas possíveis.
Há alguns termos especialmente criados com seus significados definidos como em "Ao longo da muralha das palavras obscuras que nos cercamos" que se refere a quando falamos de forma... eu ia dizer dúbia, mas não é tanto, é imprecisa... quando falamos de forma imprecisa para nos proteger. A muralha é a resposta que damos para não responder um indagação qualquer que nos seja incômoda.
Perfeitamente bem definida a falta de mistério quanto ao violino e ao barco que zarpa... O objetivo é mesmo mostrar essa evidência, uma clareza quase violenta.
De 'surdamente' diria eu que é algo dito de forma quase distraída, 'absurdamente' algo dito como verdade, mas sem liame com essa e "surda e mente' aquilo que além de ignorar o que ouve, ainda falta com absolutamente todo traço de verdade, mas sem ser absurdo.
Quanto aos lilases - ainda que a definição do Benjamin seja ótima - no caso do poeta, fala dos filhos, do medo de não vê-los crescer e ter a compreensão de quem o poeta é, de seu sentimento. A ligação está com a cor violeta (forte demais para crianças - daí atenuada para lilás) que é a cor da transmutação, que é um plus da renovação. Aqui o poeta sabe que pode não (lasso esquecimento - esquecer por mero relaxar) estar com uma pessoa, mas quer seus filhos por perto.
O 'caminhares' foi a alternativa para 'andanças': "Sigo a caminho do mar, nestas andanças..." o que ocorreu pela melodia da palavra e pela minha métrica pessoal(*) do verso.
Já finalizando, em ".... desalojados das hiantes certezas" o poeta pensou em algo como "sem pretensões". Ele entrega os versos sem qualquer pretensão, sendo 'hiantes' = 'ávidas'.
Para o poeta os 'assombros' da vida, são aqueles momentos em que ficamos surpresos, desconcertados, estupefatos. Como medos, dores ou alegrias extremadas. Tudo aquilo que requereu muito do psicológico para ser superado, situações boarderline (limítrofes).
Na verdade o poema termina mesmo com a salvação dos náufragos e os dois últimos versos são como uma chave para a pessoa a quem se destina em especial, a fim de facilitar-lhe a decifração e também um estilo pessoal.
De tudo é muito bom ver-se o poema despido, fracionado e conjecturado por outro poeta, cujo saber sobre poesia o precede, mostrando assim como o poema chega ao público e quais caminhos abre. Abraços.

(*) Tenho uma métrica pessoal para os versos. Meus versos tem aproximadamente o mesmo comprimento visual quando vão sendo editados, falo de comprimento físico no visual mesmo não de sílabas ou letras.

algo assim:
nomos nom nmonmoo
nmoonom mmos mmn
mono mnnom nonomo

Pouco importa as contagens de sílabas poéticas ou silabas gramaticais, mas de isometria visual, o que por vezes me obriga a usar sinônimos para acertar a minha métrica. Tudo isso ocorre com uma fonte gráfica determinada que uso na edição dos livros (Kristen - veja no meu blog https://mrsergius.blogspot.com) que quando é trazido para cá, muitas vezes se perde pela diferença de fontes usadas.


Criado em: 27/12 3:31
_________________
Dor e angústia protagonizam o show
Quando a noite vem, a mágica se faz
Nasce o poema das entranhas feridas
Então, abro as asas e voo ao infinito.


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Re: Comentário a "Confissão", de Mr. Sergius
Super Participativo
Membro desde:
2/10/2021 13:11
Mensagens: 164
Aprecio muito o entusiasmo que o Mr. Sergius coloca naquilo que escreve, seja nos seus poemas, seja nas interações com os outros utilizadores.

Tenho verificado que é um leitor atento e perspicaz, por isso, convido-o a participar neste fórum com comentários sobre os textos de que mais gosta.

No meu caso, comecei a fazê-lo por "imitação" de dois utilizadores que admiro -- a Margô_T e o Rogério Beça -- que entretanto têm estado menos ativos, mas que gostaria de voltar a ler, dada a qualidade dos seus insights sobre poesia e não só.

Todos sabemos que um objeto artístico, seja ele qual for, vale por si mesmo, não precisa da caução de uma apreciação crítica. No entanto, como já disse na introdução a esta série de comentários, é um exercício que pode ser interessante, lúdico até, quer para quem o escreve, quer para quem o lê.
Quem não estiver interessado na pregação, pode sempre abandonar a missa, não é verdade?

Abraço e até breve.

Criado em: 28/12 10:41
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