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Comentário a "Sede", de Katz
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2/10/2021 13:11
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"Sede", de Katz

O Dia Foi duro.
Ardido.
Acredito em mágica. Ou em páginas em branco?

Choveu e não houve café.
Nem cafuné.
Tão pouco sorrisos.

Apenas escureceu.

E nublou toda uma busca.
Feito o rio diante da moça.
Que seca e a deixa com sede.




Percurso de leitura nº 7 (se quiser conhecer os anteriores, fica aqui o link).

O poema tem início com uma afirmação simples que ganha destaque com a utilização de maiúsculas, a lembrar os textos de Emily Dickinson, semelhança que não se esgota neste recurso: a ausência e a solidão são alguns dos tópicos da poesia da autora norte-americana, que iremos também encontrar no poema de Katz.

"O Dia Foi duro. / Ardido." -- como se a substância real, palpável, de um momento particular, se imolasse pelo fogo e ganhasse uma outra natureza. Assim se pode fazer a transição para os versos seguintes: "Acredito em mágica. Ou em páginas em branco?" O poeta, transformado em feiticeiro, contempla a folha de papel e nela pressente o poema a nascer, como o escultor que consegue vislumbrar a sua obra na rocha prestes a ser moldada.

Passamos à segunda estrofe e encontramos aquilo a que poderíamos chamar a "exaltação do mínimo", expressão roubada ao poema "Magnólia", de Luiza Neto Jorge. Refiro-me à atenção dada aos pequenos pormenores da vida íntima pessoal, que mais ninguém vê -- e aos quais, se alguém os visse, não daria qualquer importância. Todavia, são esses pormenores que detêm muita da luminosidade do poema, são eles o rasto das emoções do "eu", a envolver o leitor na sua misteriosa aura.

Um momento de chuva, melancólico na ausência do "café", do "cafuné" e dos "sorrisos" -- são estes os símbolos singelos de um "alguém" ou de um "algo" desaparecido. Referir-se-á a uma pessoa que se amou ou por quem se foi amado? Haverá aqui a saudade de uma circunstância temporal específica que desapareceu? Ou haverá neste ponto a referência ao prazer da escrita, que se furta ao poeta, num jogo de sedução semelhante ao do enamoramento?

Os versos seguintes constituem o momento de ir à procura das razões dessa privação. Talvez o termo "privação" seja mesmo o mais adequado por permitir a dupla aceção de carência e de experiência do que é privativo, sigiloso, interior. Algo que só se pode realizar na noite, na névoa ("Apenas escureceu. // E nublou toda uma busca"), como se a sujeito reconhecesse a impossibilidade da descoberta dos motivos para a sua solidão -- ou haverá da sua parte a vontade de manter esse mistério, esse lado mágico de que se falava no início do poema?

Ao ler a comparação do "rio diante da moça" não pude deixar de lembrar a "Menina e Moça", de Bernardim Ribeiro, no episódio em que a narradora se aproxima de um rio, onde costumava "deixar as lágrimas", e observa as águas impedidas de seguir o seu curso tranquilo por causa de uma rocha, que as obriga a separarem-se, o que recorda à donzela aquilo que as suas "desventuras noutro tempo soíam fazer a tudo o que mais queria".

O verso termina com as palavras "seca" e "sede", ambas polissémicas. Quem ou o que está a secar? A busca do sujeito poético? O rio da sua comparação? A própria moça? O mais importante é o efeito, a secura que sente, a ânsia por algo que lhe dá vida -- não esquecendo que a palavra "sede" também pode querer dizer o centro de algo, um espaço que é a base de tudo, o lugar onde nos perdemos nas nossas carências e ausências, mas onde se torna possível a transfiguração graças à palavra poética.

Criado em: 10/3 16:40
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Re: Comentário a "Sede", de Katz
Colaborador
Membro desde:
6/11/2007 14:11
Mensagens: 2118
O 7 é o algarismo que mais gosto e um número que me define.
O teu comentário fez prestar atenção ao texto e à autora.
Acho que essa é a principal utilidade deste fórum que criaste.

Sobre o percurso de leitura que fizeste gostaria de salientar o rigor quase científico, as citações e fontes, duma riqueza que engrandece o poema e quem o lê.
Além de, claro, não saberes escrever mal, quer em poesia, quer em prosa.

Da "Sede" começo por sublinhar o terceiro verso.

"...Acredito em mágica. Ou em páginas em branco?..."
Como se ao referir-se ao contrário das "...páginas em branco..." (que são as páginas sem ser em branco, ou as escritas) serem "...mágica...".
Cai muito bem.
Porque há magia na poesia, na prosa poética, nos contos, nas novelas, nos romances, nas enciclopédias...
A tinta em si é um invento. Coisa de engenhocas.

Na segunda estrofe, a chuva é um mau presságio clássico. E lê-se que foram removidos os pequenos prazeres da vida. Uma vida sem os mais pequenos prazeres o que é?

No monóstico "...escureceu..." a continuação do ambiente soturno é clara.
Precisamente é uma metamorfose do claro para o breu. Do menino para o velho, do sábio para o ignoto, da liberdade para a prisão.

Os dois últimos versos também são perturbadores porque colocam o sujeito poético junto a um "...rio..." (será do verbo rir?) sem que o possa beber, como o "...seca..." parece sugerir.

Abraço aos dois

Criado em: 11/3 5:19
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Re: Comentário a "Sede", de Katz
Super Participativo
Membro desde:
2/10/2021 13:11
Mensagens: 161
O meu número da sorte é o 14, com o qual me cruzei muitas vezes ao longo da vida.
Obrigado por te juntares a mim neste espaço -- que eu não criei, atenção: ele já existia e nele se falava de coisas interessantíssimas como "tusas" e outras "pérolas".

Criado em: 12/3 16:21
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Re: Comentário a "Sede", de Katz
Colaborador
Membro desde:
6/11/2007 14:11
Mensagens: 2118
Não há que desvalorizar a tusa... lol
Como um edifício abandonado que tinha uns delinquentezinhos em forma de Okupa (cheguei quase a fazer parte do movimento "Okupa e resiste" há certa de 26 anos atrás) este espaço crítico foi revitalizado.
Fez-se uma limpezazinha e agora está bem mais arrumadinho.
Parece quase um centro de saúde. Ou uma biblioteca.
Não é bem uma obra do estado, mas é mais um semi-privado. Falta o resto do estado aparecer.
É importante que se cheguem vozes diferente da tua e da minha e façam, por escrito um percurso de leitura também, por aqui.
E arrisquem um pouco.
Arrisquem a fazer mal, como certamente fizemos no início. E nunca o será, verdadeiramente.
Pode ser que as pérolas tenham uma coloração diferente...

Abraço.

Criado em: 12/3 20:28
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Re: Comentário a "Sede", de Katz
Muito Participativo
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12/2 15:52
Mensagens: 63
Queridos Benjamin e Rogério Beça.

Eu espero que encontrem este recado.

Eu sou uma pessoa que sinto muito, e por sentir demais, vivo a sonhar. Escrevo muito raramente e choro demais. Não entendo muito bem sobre poesia, mas escrevo o que de mim extravasa.

Quero dizer Benjamin e Rogério, que de mim, e do meu poema vocês fizeram a leitura perfeita. Não sei, ou sabia, que eu carrego um pouco de poesia no que tento levar ao outro, para que ele possa também sentir.

Sou tão mar, oceanando por ai... pouco sei definir algumas coisas que você escreveu, mas olha: sinto o desejo de aprender e se por ventura este fórum me der o prazer e o encantamento de aprender, prometo-vos, serei sua melhor aprendiz!

Chorei e choro ao escrever este agradecimento, aos dois por me pegarem no colo e oferecerem este cafuné.

Beijos aos dois!

Katz

Criado em: 13/3 3:24
_________________
Sou Mundos!


Chris
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Re: Comentário a "Sede", de Katz
Super Participativo
Membro desde:
2/10/2021 13:11
Mensagens: 161
Cara Katz,

Você tem uma voz bonita e nota-se que escrever é algo que a entusiasma. Isso é o suficiente, não precisa de lições :)

Mas, sim, é verdade que podemos aprender uns com os outros.
Num poema, vemos uma construção original e experimentamos adaptá-la num texto nosso. Noutro, há uma imagem que nos impressiona e usamo-la como tema.

Enfim, vamos arriscando ser um pouco diferentes de poema para poema e, às vezes, sai qualquer coisa que nos ajuda a irmos conhecendo melhor quem verdadeiramente somos, enquanto poetas e enquanto pessoas.

Desejo-lhe boa sorte nessa aventura.
Um abraço.

Criado em: 13/3 9:25
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Re: Comentário a "Sede", de Katz
Colaborador
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6/11/2007 14:11
Mensagens: 2118
Minha cara,

Bem-vinda ao mundo dos que sentem demais e escrevem.
Como nova utilizadora, vais encontrar, neste espaço, leitores, comentadores e outros utilizadores que escrevem pior ou melhor do que tu.
É que é isso mesmo. Ninguém vai escrever como tu, isso seria plágio e quem o faz é banido daqui.
Já frequento o luso-poemas quase há quinze anos. Passei por muitas batalhas, perdi quase todas.
A única que ganhei foi a resiliência, a de nunca ter desistido ou abandonado quando aconteceu o pior.

A aprendizagem aqui é dinâmica. Obviamente que vai depender essencialmente de ti.

Prepara-te também para a maldade humana. Este sítio é tão humano que até a sua maldade vem agarrada a ele.

Sobre não entender muito de poesia, bem-vinda ao meu mundo.
A poesia é um código, uma língua (gosto de pensar), que necessita de uso frequente para dominar com alguma qualidade.
Ler, ler muito (ou muito mais), certamente ajuda.
Arriscar o erro, escrever mal, muitas vezes, também.
O meu poeta favorito, hoje em dia é Eugénio de Andrade, o homem é um tratado!
Se pegares em Fernando Pessoa, nem se fala.

Gostei muito desta mensagem, que me faz afastar alguns fantasmas.
E talvez acreditar que o site possa ter salvação.

Abraço

Ps.
Esta frase que escreveste seria um verso bem poético:

"...Sou tão mar, oceanando por aí..."

Criado em: 14/3 4:43
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