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Crónicas : 

mas quem será o pai da criança

 
Não há memória de alguém assim. Homem com duas cabeças que nasceu lá na aldeia faz cinquenta e tantos anos. Dois velhos no mesmo corpo. Dois pescoços erguidos sobre um largo ombro. Duas vozes a responder diferente à mesma pergunta. A bem dizer, dois casmurros sem remédio que, se não fosse o pároco da freguesia a botar-lhes a mão não sei o que seria da vida deles.

Por serem assim, julgam as pessoas que eles já nasceram velhos, com as ideias meias enferrujadas, com talento para andarem à cabeçada um com o outro. Pois, senão esta, a melhor maneira de um mostrar a razão ao outro. Lá na aldeia todos conhecem o Micas e o Zicas. Um sortudo e um azarista. Um paciente o outro nem por isso.
O Micas desfaz a barba, o Zicas já não. O Micas espera arranjar namorada, já o Zicas quer é conhaques e utilizar a mão esquerda para escrever poemas e mais sei lá o quê. Se um diz preto o outro diz branco, se um quer ir a Coimbra o outro quer ir a Viseu. Já se está a ver a grande barracada que para ali existe naquele corpo. Duas pessoas a decidirem o que hão-de comer é complicado, complicadíssimo, sobretudo quando partilham o mesmo estômago, o mesmo fígado, o mesmo coração. O Zicas come de tudo e mais o que vier à boca, lambuza-se com pastéis de nata e toucinhos de porco, o Micas é o contrário, evita fritos, gorduras, e passa-lhe um raspanete, até porque, o que cada um come sai pelo mesmo escape e quando sai grosso, o aperto é dos dois.

Por isso é que por vezes se zangam, os cigarros que o Zicas fuma, fazem padecer o Micas, e a tosse é de ambos.
O Micas acorda cedo e quer-se pôr a mexer da cama, o Zicas é um tormento para se despregar da cama. Se houvesse uma motosserra que os separasse bem divididos, sem que haja coisa de maior, com certeza que o Micas, o comportadinho, seria o primeiro a dizer que sim.
Ter que conviver com uma cabeça que pensa exactamente o contrário de si, é obra. Mas, direitos ou tortos, lá vão andando pelos dias. Tantos que para se saberem terei de multiplicar os dias pelos anos que eles têm. O problema maior é quando a um vem um desejo daqueles de ir às raparigas. Está-se mesmo a ver o sacrifício, pois, dada a anormal a aparência, fica difícil arranjar uma mulher disposta a alinhar com os dois.

E foi precisamente a falta de uma namoradinha que começou a causar neles um tristemente amargurado sem fundo, sem literatura para a descrever. As duas cabeças aparentavam ares de terminal. Ainda virgens, sem nunca terem espetado o garfo, desconsoladíssimos da vida, quem é que aguentaria.

Mas um dia, um bendito dia, o próprio pároco, humanista como tudo, ao saber desta desgraça, encarregou-se ele próprio de fazer boas bondades ao Micas e ao Zicas onde, volta e meia, lá com as suas misericórdias, conseguiu arranjar uma moça que de vez em quando passeava lá pelos quintais.

Ela primeiro hesitou, mas depois achou a ideia brilhante. No fundo encarou como uma experiência, uma espécie de ménage a trois ou um 2 em 1, como lhe queiramos chamar. E foi no segredo dos deuses que o pároco, pelo denso da noite, meteu a mulher em casa deles. Apesar de serem duas bocas, quatro-olhos, quatro orelhas, dois pescoços, só havia um corpo dos ombros para baixo, logo, é fácil entender que só havia uma linha para enfiar na agulha. Fosse como fosse, eles lá se entenderam e a noite durou mais que o dia, dentro do quartinho onde o escurinho era tão bom, era tão bom. Aliás, única exigência da mulher para não levar tamanho susto ou arrepio.

Resultado: a coisa rolou dentro do que se pretendia: oferecer uma noite de sexo e prazer ao homem de duas cabeças.
Só que, ou por uma falha de cálculos ou por excesso de energia daquela, nove meses depois apareceu o imprevisto: a mulher deu à luz um rapaz, um fedelho bem feitinho. O problema estava agora em atribuir a paternidade.
Afinal, quem era o pai da criança, o Micas ou o Zicas? Quem é que tirou mais proveito? Certo é que o puto foi crescendo dentro desse ambiente, sem saber a quem chamar pai.
Os tribunais não sabiam como decidir a coisa. Adiamentos em cima de adiamentos.
Alguém tinha de dar colo ao puto e desembuchar o dinheiro para as fraldas.
O tempo foi passando e o processo arquivado. O homem de duas cabeças continuou a sua rotina dando ao badalo no sino da igreja e, quando o puto, já grande, de ranho no nariz, vinha a mando da mãe pedir algum para o sustento, tanto o Micas como o Zicas, que até ali discordavam e discordavam e discordavam, diziam bem alto a uma só voz: vai chamar pai a outro, pá!



nota desinteressante: como o puto era um irrequieto do caraças e com queda para carapau de corrida, facilmente se deduziu que era filho do Zicas, o atravessado, já que herdara um dom congénito. Não havia dúvida e assim foi. Mas, a dadas páginas da vida, o comportamento do puto mudou radicalmente. Tanto que mudou que acabou por entrar no seminário e em três tempos se fez padre. Enfim, suspeitas à parte, a hereditariedade já não é o que era dantes.
 
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flavio silver
 
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