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História de um sonho (Parte 1 de 2)

 
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Todos encerraram em si próprios um sonho. O sonho é indispensável à vida, na medida em que nos incumbe de alcançar um pretexto para a sua existência. Mas este sonho, não sobrevive mediante a temporária morte do nosso ser. O sonho forma e abraça a linha da vida, de olhos cravados para o dia, construindo com suas pedras o caminho a pisar. Segue-o como equilibrista. Partilho um amor narciso pelo sonho que me lidera e ofusca. O nascimento é a abertura da contagem decrescente para o paralelo com a morte. O início do fim do sonho. Vivemos para sonhar e eu sigo vigilante, no meu sonho de ser poeta. Escrevi outrora algo que soava como o seguinte:

“Sonhei. Peguei nos flocos de sonho, distintos no Inverno da minha vida e pensei. Em cada um guardo um segredo que não contei. Guardo um beijo que não dei. Guardo um sonho que não concretizei. Por isso neva, no Inverno da minha vida, nevam sonhos na neve fria e despida. Por isso permaneço, permaneço a ver nevar, por vezes paro e abdico, abdico de sonhar”.

Cada um de nós guarda um sonho, e se o guarda carrega-lhe importância. Eu costumo por várias vezes, viver num mundo mágico que apelido de fantasia. Nesse mundo, assim que fecho os olhos para a realidade, torno-me poeta. Na realidade em que vivo, apenas escrevo. Na realidade somente sou o que da fantasia não trespassa. A realidade é para mim a consciência da nossa passagem pela vida, a constatação de que estamos efectivamente vivos. A vida não é mais do que um resguardo mental, que edificamos mediante os tijolos e cimento disponível. O tijolo é todo o artifício físico necessário a uma boa e forte estruturação da vida humana e do sonho. O cimento é a força necessária para arrastar esses sonhos a bom rumo. Como o rio teima em cair no mar, o meu sonho despenha-se na meta.

O sol dourava o horizonte com tanto vigor, que parecia pairar no céu pequenas barras de ouro. Olhando pela janela, tudo parecia ganhar vigor, com a esplêndida cor, que o sol dourava. Eu perdido em pensamentos tingia o meu caderno com versos de esquecimento. Ponderei que tudo o que escrevera ninguém iria ler, tudo aquilo era efémero demais e acabaria por desaparecer. Mesmo assim escrevia, sobre um sonho que devorava a minha existência. Mesmo assim escrevia em grande o que em pequeno tinha de experiência. Continha um sonho.

Existe quem sonhe em grande, mas lute em pequeno, pela concretização do que pensa ser impossível. Pobres que desconhecem que a possibilidade apenas é impossível mediante duas letras. Nada é impossível a partir do momento em que nos comprometemos à sua concretização. A impossibilidade apenas reside na mente de quem a engorda. Eu não alimento o impossível, porque o alimento só lhe dá eficácia na sua afirmação e força para destruir o que delimitamos como sonho. O que espaça a impossibilidade da possibilidade são apenas duas letras que simbolizam respectivamente, coragem e medo.

Todos sonham. Mas sonhamos de forma insuficiente para recrutar coragem para transformar esse mesmo sonho em realidade. Falta coragem para provocar a fantasia dentro de cada ser e arrebata-la para o exterior com uma porção de realismo. A cascata da coragem não ascende no momento em que o sangue bombeia o cérebro e nos faz sonhar em grande. A cascata da coragem, apenas corre, sente e por fim morre, na pele de quem não a tem. E assim se desvanece o sonho.

Todos sonham. Mas o medo que designam de fracasso, cega-os ao ponto, de desconhecerem a proporção de sucesso. Entram assim numa teia de deduções pessimistas e de sorrisos minguados, transformam o sol negro e obscurecem o sonho. Pudesse ao menos a coragem pegar em seus braços o medo e marcharem anexos no curso da luta. Pudessem ao menos estes dois se fundir e no final dessa luta conhecer o sucesso. Pudessem ainda existir como entidade viva e fazerem brotar uma alma morta que mora dentro de um indivíduo enclausurado nos seus medos.

Aprendi a mensurar meu sonho e a impingir limites que facultam um afastamento mímico do que apelido de decepção. Sofremos porque tencionamos. Sofremos pelo facto de alimentarmos uma reprodução magnificente que se traduz no produto diminuto que colhemos. Cessa o que outrora se assemelhava grandioso, perdura somente a desilusão do pequeno que obtemos. Mas o que seria a vida sem um sonho? Ou vários?

 
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 09/07/2011 00:08  Atualizado: 09/07/2011 00:08
 Re: História de um sonho (Parte 1 de 2)
Bonito texto!
Quem deixa de sonhar, deixa de viver.

Um grande abraço e parabéns!!!


Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 09/07/2011 00:31  Atualizado: 09/07/2011 00:31
 Re: História de um sonho (Parte 1 de 2)
Um belo texto...profundo e bem construído. Uma análise / um incentivo/um desafio... Costumo chamar o sonho de possibilidade...está logo ali esperando/suplicando para se concretizar...

Gostei muito, meus parabéns.

Abraços ,ALICE