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Contos : 

A natureza do mal, da realidade e do homem

 
O homem necessita de conceitos. Ele não sabe analisar as coisas abstratamente. Poucos admiram uma obra de arte abstrata no museu, e mesmo os que admiram, no fundo, não são tocados por ela. Podem entender o conceito ali impresso, a noção de liberdade de expressão e de interpretação, a importância disso para a inovação, mas a obra mesmo em si, não os toca. Como ser tocado por algo que não se compreende? Algo que lhes escapa à definição?
Abstrato é algo separado de si mesmo, que se define além da forma ou de qualquer definição impressa a ele, faz-se por si mesmo, por si mesma se expressa, e em si mesma não se define. Abre-se à interpretação.
Ao contrário do que estás acostumado, a natureza maior da realidade é essa mesma. Abstrata. Nada se define, pois definir-se implica dar fim. E na natureza maior da existência, nada tem fim. Você está literalmente mergulhado num mundo de formas definidas, aparentemente para você, elas são bem concretas, firmes e decididas. Você está aprendendo que não é bem assim, mesmo você não é assim. Você munda, invariavelmente, todos os dias. De gosto, de opiniões, roupa e de corpo. Está acostumando-se aos poucos com esse fato.
Você já foi mau. Pior ainda, você atualmente pensa que é bom. Você julga o mundo do seu ponto de vista, e o mundo torna-se certo e errado a partir do seu olhar. Você acha que é bom, mas não exitaria em pegar um emprego de melhor salário do seu amigo, pelas costas deste. Salvar a sua pele num momento de desespero jogando alguém na frente de si como escudo, ou sorrir por dentro quando alguém de quem não gosta encontra uma desgraça, e coisas do gênero. A humanidade não gosta de verdades, óbvio isso, como pode se ver.
E, em verdade, o mal não existe. Assim como a sombra não existe. Ela é efeito causado pela luz. Você se choca ao ver uma aranha devorar uma mosca, e interpreta aquele ato como maldade e injustiça, mas você não compreende e nem vê as intrincadas ligações por trás daquele ato de um alimentar-se do outro. Você mesmo alimenta-se de esperanças e sonhos, e sãos eles que o sustentam, para você mesmo um dia dar esperanças a outrem. A mosca será a aranha um dia, e a caça o caçador. É preciso entender ambos os lados, e sentir a grande cooperação do universo. A mosca não sente dor, mesmo você não sente, se não quiser sentir.
Quando fora dito para dar a outra face ao receber a agressão, a intenção não era torná-lo um cordeiro tolo, mas fazê-lo entender que não se paga um mal pelo mal em sim. Porque essa é uma das suas missões aqui. Assistir o mal sem dele fazer parte ou sucumbir a ele. É manter-se integro apesar dos pesares. É não ser vencido pelas mazelas, e permanecer de pé sobre os escombros. É como viver numa caverna escura sem contudo acostumar-se a ela, e procurar sempre, aquela pequena fresta de luz que fez você permanecer até hoje.
Você escolheu ser saturado pelo mal, ser engolfado e até mesmo engolido, tudo isso apenas para resistir bravamente a ele, e ser melhor do que ele. Encare como um ritual de iniciação, você não atravessa o grande portão brilhante até merecê-lo. Isso não foi imposto, mas escolhido por você, como uma forma de honrar o chão que vais um dia pisar. Embora, por hora, tenha se esquecido disso.
Sabe, não é uma missão fácil. Você vai precisar abrir mão de muita coisa, em muitas vidas. Tudo vai ser oferecido a você, facilidades, coisas brilhantes, elevação do ego. Virar o rosto para isso e seguir humildemente a estrada, sem nada a embargar os seus passos, é equivalente àquela velha parábola de largar tudo e seguir...
Tenho contado algumas histórias aqui, sobre desapego, sobre a infância, sobre estoicismo frente as vicissitudes, sobre suportar as mazelas, sobre o mal e o bem... A história é sempre a mesma, muda apenas o contexto, e as páginas onde são escritas.


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London
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Enviado por Tópico
Jmattos
Publicado: 28/09/2017 21:49  Atualizado: 28/09/2017 21:49
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 Re: A natureza do mal, da realidade e do homem
London
Adorei a leitura!
Beijos!
Janna