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Poemas : 

Silvestre e o idioma (Mia Couto)

 
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Silvestre quer saber
porque razão eu estrago o português
escrevendo palavras que nem há.
Não é a pessoa que escolhe a palavra.

É o inverso.
Isso eu podia ter respondido.
Mas não.

O tudo que disse foi:
é um crime passional, Silvestre.
É que eu amo tanto a Vida
que ela não tem
cabimento em nenhum idioma.

Silvestre sorriu.
Afinal, também ele já cometera
o idêntico crime:
todas as mulheres que amara
ele as rebaptizara, vezes sem fim.

Amor se parece com a Vida:
ambos nascem na sede da palavra,
ambos morrem na palavra bebida.


MIA COUTO, escritor de Moçambique, no livro "Cidades, idades, divindades"

Fotografia: Flavio Brandão
 
Autor
AjAraujo
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