Abrir os olhos não é apenas acordar.
É permitir que a luz atravesse
As ruínas que carregamos.
Tem dias em que tudo parece um campo de escombros:
Sonhos quebrados, planos que não chegaram,
Palavras que ficaram presas no ar
Como pássaros feridos.
Mas mesmo nas cidades destruídas
O vento ainda encontra caminhos entre as pedras.
Abrir os olhos é perceber isso.
Que entre as rachaduras do concreto
Sempre nasce alguma coisa verde.
E então abrimos os braços.
Não para vencer o mundo,
Mas para senti-lo.
O vento passa pelo corpo
Como se lembrasse à pele
Que estamos vivos.
O cheiro das flores não pergunta
Se merecemos beleza.
Elas simplesmente existem,
E nos alcançam.
Quem sabe viver seja isso:
Olhar além das ruínas
Sem negar que elas estão ali,
Mas também não esquecer
Que há céu acima delas.
Respirar fundo.
Sentir o vento.
Cheirar as flores.
Porque, no fim,
Antes de qualquer explicação do universo,
Nós estamos aqui.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense