O verso não é um simples corte de linha. É um princípio.
A distinção entre verso e prosa é a distinção mais elementar entre as quantidades: a contínua e a descontínua. A prosa é contínua como um rio. Ela flui e não volta, porque tende a conduzir. O verso é descontínuo como a chuva. Ele é gota, secção, periodicidade. Predomina nele algum princípio de interrupção, métrico, rítmico, sonoro, que quebra o escoamento da fala cotidiana.
Mas por que essa descontinuidade encanta? Porque cantus está no mesmo campo semântico de incantus, encanto. A palavra poética não é a palavra que passa, é a palavra que retorna. Retornar, em latim, é verto, cujo particípio é versus. O verso é, literalmente, o retorno. Recorrer, percorrer novamente, voltar para trás antes de seguir adiante. A prosa avança, o verso recorre.
O que acontece com a palavra quando ela retorna? A palavra, na prosa, tende a funcionar como um signo-para: uma moeda corrente que nos leva para fora dela mesma, para uma ação, para um objetivo extraverbal. É um signo que tende à contiguidade. Quando, porém, o princípio de descontinuidade obriga a palavra a voltar sobre si mesma, ela escapa do automatismo. Começamos a ver, ouvir, pesar e apalpar a palavra. Ela deixa de apenas conduzir e passa a reter. Vira signo-de. O signo-de para em si mesmo. Não quer apenas apontar para a coisa, quer também ser a coisa. Tende ao ícone, à figura. É um signo por similaridade.
É nesse movimento que o verso se torna símbolo. A palavra, arrancada do fluxo automático da comunicação, passa a concentrar em si relações de som, imagem, ritmo e sentido. Ela já não apenas designa: faz presente. O verso não é apenas uma forma de dizer algo. É uma forma de fazer a palavra ir além daquilo que ela simplesmente comunica, condensando sentidos que, na linguagem comum, soariam dissociados: aspectos sonoros, visuais, afetivos, conceituais e associativos.
Bibliografia
- CARVALHO, Olavo de. A Dialética Simbólica.
- DOLHNIKOFF, Luís. A Razão da Poesia.
- PIGNATARI, Décio. O Que é Comunicação Poética?.