Fuga do Poeta
Não, nunca serei, poeta
que cante o belo d' amores,
os divinos ou profanos,
benquisto de ninfas musas.
Nem, sequer, serei asceta
meditando seus louvores,
dos prazeres mais ufanos,
fauno de dádivas recusas.
Mas, tu, cativas-me no erro,
Serás Clio, deusa da fama,
Troando o ar de clarins,
Glória, ornada de louros?
Nem Eterpe no desterro,
Júbilo vertiddo em lama,
vestida de flor e flautins,
d' oboés, de pautas e d' ouros?
Podes recriar Tália,
Ir em dramas e festejos,
vestida de pastora,
com botas de borzeguim.
Melpómene d' Itália,
Ébria de mil desejos,
Coturnada ou cantora,
A exibir-me d’ arlequim.
Terpsícore, a dançante,
regente de voz em corais,
portando flautins e lira,
lançando-me maldição.
Sim! Eis Érato! Minh' Amante!
De doces promessas, ais...
De prazer que delira
nos mirtos, rosas e paixão...
Polímnia, musa d’ hinos,
cantando mil loas vãs,
A um guerreiro tão devasso,
sedutor de ninfas em véus.
Urânia, azul marinho,
coroada tal as irmãs,
do globo-mundo e compasso,
Para s’ elevar aos céus.
Calíope, feliz canto,
de tabuleta e buril,
d' ouro, prata e grãos d’ areias,
cantando mortal poema.
Eu vil poeta senil,
Sem um poema d´ encanto,
nem o ardilar das sereias,
E nenhuma paz. Que dilema!
Fugi, musas, da descrença,
ide às fontes e lagos,
libertai-vos de lirismos
vazios, vilões, severos.
Vai- te, mulher, por sentença,
renego beijos, afagos,
que se despenham em abismos
de sonhos, de desesperos!
8 oitavas em redondilha maior.