O prato esfriou na mesa que antes transbordava.
Olhamos ao redor procurando distância,
E esquecemos o desenho do rosto de quem nos ama.
Erguemos certezas absolutas em altares de vento,
Nos isolamos em castelos de pura ilusão,
E esquecemos que a chuva molha a todos, sem distinção.
No isolamento frio da nossa própria redoma,
A ausência do outro virou sintoma que nos consome.
O orgulho constrói o muro, a ideologia é a tranca,
E a saudade é o que desaba quando a razão nos arranca.
Palavras que outrora construíam pontes de afeto
Foram lançadas como pedras no peito de um irmão.
Quanta pressa em julgar os passos do outro,
Quanta fome de ter razão num mundo que desaba.
A mão que antes doava hoje fecha o punho por discordar.
Quem ontem estendia o prato e alimentava a alma
Hoje escolhe a quem acolher, medindo a própria compaixão.
O pão, que deveria ser sagrado e sem dono,
Virou moeda de troca, bandeira, condição.
E a caridade morreu de frio na porta da nossa vaidade.
Gritamos verdades ao vento enquanto o afeto, em silêncio, vira brasa.
Mas o Natal bate à porta sem pedir explicações.
A verdadeira igreja não tem teto, tem abraço.
É o gosto do almoço, o cheiro do café, o chão do quintal.
O milagre não está em trilhar a mesma estrada,
Está em sentar-se à mesa, partir o pão,
E chorar juntos pelo tempo que o orgulho roubou.
Deixemos o peso dos desentendimentos no ano que morre.
O amanhã não precisa de donos da verdade, precisa de cuidado.
Precisa do riso da criança que só quer brincar,
Do passeio na praça, do olhar sem desconfiança,
Da beleza de conviver no mesmo pedaço de chão.
Vem, me dá a tua mão, não importa onde andou,
Não importa o lado, a cor, a fé ou a opinião.
Pois, na contabilidade do tempo, somos apenas poeira.
Que o primeiro abraço do ano novo seja o altar do perdão.
Não há ganho na guerra que afasta quem se queria bem.
Se a razão nos isola, o perdão nos acolhe e vai além.
Para curar o ontem, dois mil e vinte e sete nos chama a ser abrigo de alguém.
Olha pra mim…
Eu sou você no espelho da mesa.
Vamos recomeçar…
Desarmados.
Geremias
WhatsApp (55) 11 9 74307750
Esta obra nasce como um espelho e um manifesto de afeto para os nossos tempos. Diante das distâncias que criamos, este poema é um convite honesto para desarmarmos os corações, resgatarmos a comunhão ao redor da mesa e recomeçarmos através do perdão mútuo.
Que sejamos, enfim, abrigo uns para os outros.