às três e vinte da tarde
uma meia vermelha escapa
do varal do décimo andar
e inaugura uma carreira no vento
passa pela janela do dentista
pela antena onde dois pombos discutem
uma questão provavelmente grave
e quase pousa no letreiro da funerária
mas muda de ideia
embaixo
um homem vende água
uma menina perde o ônibus
alguém beija alguém com pressa
e uma senhora examina tomates
como quem desconfia de todos eles
ninguém vê a fugitiva
agora ela está muito acima da avenida
sem pé
sem sapato
sem obrigação
de chegar limpa a lugar algum
o vento faz o que pode
leva pra esquerda
devolve pra direita
enrosca num fio
solta
e ela vai
ridícula
sozinha
vermelha
absurdamente vermelha
deixando no varal
a outra metade
de coisa nenhuma