ARQUITETURA DO AVESSO
me perco na pressa, mais um dia; o cabresto
no asfalto do fim, passos-guias, dantesco
é o vácuo pesado de quem vai embora
no último ônibus cruzando a aurora
sem prece ou fôlego na perimetral
o vento rasgando o outdoor do canal
grita a urgência ao tempo consumida
na crença cega de uma gente sofrida
cansei de altares e de salas limpas
juntei os estilhaços de velhas rimas
fumaça preta pelo motor emana
no peito em chamas, a dor desengana
o amanhã é o eco de outra partida
a marca tatuada na carne ferida,
me busque no avesso de toda certeza
onde a noite revém com sua aspereza
...
e a estrada segue sem rumo ou placa
enquanto a engrenagem a alma ataca
somos os cegos de uma órbita louca
de pressa nos pés e de saliva pouca
enquanto o vazio soberano e eterno
risca intermitente o renovo do inferno
***
CARROSSEL
há um círculo
no circo das preces
no círculo
os aviõezinhos o cortornam
buscam o pouso
ao ponto central
tal pisca de vagalume
o sinal atrai para si
mentes sãs e dementes
mas a resposta
é de quem crê
e sabe voar
à pureza de seu imo
em busca de paz
além do carrossel distópico
***