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para ti

 
Poderia escrever-te. Como tantas vezes já o fiz. Dizer-te tudo. O que quero e o que não quero. Era tão simples. Gostas de coisas simples. Mas em mim tudo se complica. Um embrulho de nós. Envolto. Em sombras de arco-íris. E finalmente falo-te. Num espasmo. Sustido. Sustenido. Em claves de sol. Rasgando o azul do céu. Alado. E pousas os teus dedos na minha mão. Sinto a tua pela na minha.
Controlo-me. Consigo. Toda a minha força se concentra nesse controlo. Mais tarde recordo. Sinto depois. Com calma. E chegam as lágrimas que teimam em apagar o caminho dos teus dedos. Por te saberem não voltar. Por saberem que não volto.
Nunca. Que nunca estive. Escrevo. Escrevo muito. Compulsivamente. Na esperança de que alguma simples letra te agarre. Mas tu não lês. Não me lês. E continuo a escrever-te. Sentei-me agora e escrevo. Hoje não é dia de te ver. Mas já te vi.
Sem saberes. Agora conheces-me. Já não te posso olhar despreocupadamente. Como dantes. Tenho cuidado no olhar. Tento esconder o brilho. O teu brilho no meu olhar. E é difícil. Julgo conseguir. E zanjo-me com tudo e com todos. Zanga-me a simples existência. A essência. Irritam-me as pessoas. Cansam-me. Sinto-as ocas.
E também me queria sentir. Mas o turbilhão que me invade, não permite.
Transbordas-me os egos. Numa panóplia esquizófrenica em que te escondo. São letras desesperadas em que te escrevo. Desprovidas de pensar. De um exaustivo pensar. De um sentir sem sentido. Escrevo. Não paro. As palavras trespassam-me por entre os dedos. Escrevo em papéis. Quaisquer papéis. E rasgo-os. Para os voltar a escrever. E a rasgar. E pego num caderno. Que depressa se enche. Na vaga tentativa de preencher a tua lacuna. A tua falta. Mas não sinto a tua falta. Como poderia sentir? Se estás sempre. A todas as horas. Nos infimos segundos. Que não passam. E já passaram. E já passaste. Enches o meu dia de sentidos. Penso-te e repenso. Não. Afinal não há vazio. E agora falta-me o vazio.
Falta-me espaço. Invades. De forma surreal. Isto não pode existir. Mas teimaste em tocar a minha mão. E eu teimo em senti-la. Mas já passou. Já não volta. Os outros cansam-me. Tu inspiras-me. Como jamais alguém o houvesse feito. Sento-me aqui. Só. Apenas isso. E espaçadamente vão passando uns e outros. Num vai-vém. Exaustivo. Sei que não passas por aqui hoje. Tento descançar um pouco. Mas as palavras estonteantes despejam a tinta da breve caneta. Os outros cansam-me. Quebram a escrita. Irritam-me. Os teus amigos. Não pertenço a estes. Não possuo o dom de te encantar. Não tenho a leveza que gostas. Tudo em mim é denso e escuro. Mas penso em ti e o brilho volta. Invento-te noutro ser. E perco-me. Depois quando caio em mim, revejo-te num breve ontem. Apenas isso. Julguei poder dar-te. Quando nada tenho para te dar. E mesmo que tivesse não o querias. Esse. O maldito. O maldito amor. Que nos entontece. Que nos turva a visão. Que faz de ti um ser absolutamente impossível. Inquieto-me. Com um único sentir. O sentir-te. O meu cansaço é notório. Ferozmente visivel. Não durmo à vinte e quatro horas. Nem sinto sono. Nem fome. Nem nada. Julguei uma breve alucinação quando te vi na rua. Passavas como sempre, lentamente, pausadamente. Ouço violinos. A tua música. O teu adagio. E é tudo tão breve. Não pertenço ao teu mundo. Eu sei. Como poderia pertençer? Não há sentimento de pertença. Nem sequer de ausência. Uma enebriante mistura que nos entontece e não mata a sede. Que não alimenta. Que nos esgota. Mas não cessa de me preencher. Fico aqui. E tu não sabes. Fico apenas. Falta-me a vontade. A escada é imensa. Não posso parar a meio. Quando descer é até ao fim. Mas depois tudo se altera. Finalmente desço as escadas. Vou jantar. Com calma. E quando volto ao vetusto edificio, como por magia, alguém me pergunta onde fica a sala. A sala onde estás. Também não sabia ao certo onde ficava. Mas procurei quase infinitamente, com o outro ser que seguia, percorremos certamente, todo o edificio. E finalmente, lá chegámos.
Afinal, sempre estive aqui. E vemo-nos. A distância é considerável. Por isso gestículo algo parecido com um cumprimento. Com qualquer coisa. Ainda me reconhecias. Não passo a fronteira da entrada da sala. Dou meia volta. E o cansaço já passou. Volto a casa. Hoje certamente dormirei.


 
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mjoao
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 09/05/2007 16:11  Atualizado: 09/05/2007 16:11
 Re: para ti
Olá. Primeiramente quero-lhe dar as boas vindas aqui ao Luso, e depois, digo-lhe que este seu texto está escrito de uma forma tão pessoal, que me surpreende bastante pelo lado positivo, pois quando se escreve alguma coisa a alguém especifico, temos de usar aquele total sentimento que nos ocupa a alma.
Parabéns.
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